Você PRECISA conhecer Claude Cahun

Em dias de morte de David Bowie e a dor que nunca vai passar, escolhi escrever sobre outra artista camaleônica. Confesso que comecei essa coluna só porque o mundo precisa conhecer melhor Claude Cahun. Eu não acredito que mais gente não conheça Claude Cahun. Acredito que precisa de mais Claude Cahun na internet e no mundo. Escrevi o nome dela três vezes seguidas só para ter mais menções dela no Google.

1.Claude Cahun, 1917
Auto-retrato, 1917

 Assim como Bowie, o sujeito de Claude Cahun era ela mesma. Andrógina, mestre em auto-retratos, distanciava-se dela mesma, objetificando seu próprio corpo. De origem judaica, Lucy Schwob nasceu em Nantes, França, em 1894, em uma influente família literária e, portanto, não precisava trabalhar para se sustentar ou exibir e vender seus trabalhos, de modo que ela fotografava apenas para ela mesma. Além de fotografia, ela fazia arte performática e escrita experimental.

Claude Cahun, 1920
Auto-retrato, 1920

Cahun colaborava com a namorada Suzanne Malherbe, artista e designer gráfica conhecida profissionalmente como Marcel Moore. Enquanto Cahun posava, Moore a dirigia e a fotografava. Elas se conheceram na escola quando eram crianças, em 1909, e se tornaram ainda mais próximas quando o pai de Moore se casou com a mãe de Cahun, em 1917, fazendo com que elas se tornassem meio-irmãs, namoradas e parceiras artísticas – assim, bem bizarro.

3.Claude Cahun, 1927
Auto-retrato, 1927

As fotografias de Cahun têm um aspecto onírico que reflete muito do seu mundo interior. Ela não gostava de realismo. Ela dizia que se espalhava demais para isso, com seus dois nomes, seu gênero dúbia e sua miríade de personagens. Seus auto-retratos às vezes faziam uso de técnicas como fotomontagem, inversões e dupla exposição, aumentando a sensação de estranheza que as imagens causam.

4.Claude Cahun, 1928
Auto-retrato, 1928

Por serem judias e anti-facistas, Cahun e Moore foram capturadas pela Gestapo na Segunda Guerra Mundial e levadas a um campo de concentração, antes de serem resgatadas pelos aliados. Sua casa foi invadida e muito do seu trabalho foi destruído. O trauma aparece em trabalhos mais tardios da artista e levou a problemas de saúde que resultou na sua morte pré-matura, em 1954.

5.Claude Cahun as Elle in Barbe bleue, 1929
Claude Cahun como Elle em Barba Azul, 1929

Ela foi uma das raras mulheres a participar do movimento surrealista, mas, apesar de ter um alter ego andrógino, foi sutilmente apagada da história do surrealismo e está começando a ser redescoberta apenas recentemente, como aconteceu com a maioria das mulheres e das minorias na história. Pesquisas dizem que o trabalho de Cahun inspirou o de fotógrafas mais modernas como Cindy Sherman – que também é especialista na criação de personagens em seus auto-retratos – e Nan Goldin, que também lidam com questões de identidade e de gênero.

6.Claude Cahun, 1929
Auto-retrato, 1929

Basicamente, foi uma outsider questionando seu espaço, criando referências múltiplas para tentar (não) se definir. E não se esqueçam, meninas: nunca peçam desculpas por selfies.

7.Claude Cahun, Self portrait (in cupboard), 1932
Auto-retrato (dentro de um armário), 1932
8.Claude Cahun, 1939
Auto-retrato, 1939
10.Claude Cahun, 1945
Auto-retrato, 1945
11.Claude Cahun, 1947
Auto-retrato, 1947

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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.