Mulheres cientistas, o que esperamos para o futuro próximo

Nos próximos 5 anos, estima-se que quase  ⅓ das mulheres que trabalham nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática na Austrália desistirão de seguir a profissão. Esse estudo não só reflete a situação das cientistas australianas, como mostra também, e com registro numérico, o cenário global da representatividade das mulheres na ciência.  Observamos o grande número de mulheres participantes de congressos e reuniões científicas, indicando que o peso do papel das mulheres na ciência aumentou. Sim, somos muitas! Antigamente, mulheres eram discriminadas quando ingressavam na faculdade e/ou faziam doutorado. Felizmente, isso mudou e hoje vemos muitas mulheres nos cursos de graduação, pós-graduaçāo e com título de doutor.

 

Por que muitas mulheres desistem de fazer ciência?

A existência de muitas barreiras afetam a participação das mulheres na área de ciências. Falta de mulheres modelos, diferença salarial entre homens e mulheres, falta de oportunidades na carreira, falta de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, fazem as mulheres desistirem de serem cientistas e trabalharem na área.

 

A maioria das áreas relacionadas a ciências, tecnologia, engenharia e matemática são dominadas por homens.

Em algumas áreas, o número de mulheres chega a ser igual ao número de homens e até superior, como é observado na área de saúde pública. No entanto, nas áreas de física, matemática e engenharia, o número de mulheres é menor, com exceção do setor de engenharia de alimentos, onde a porcentagem de mulheres é superior ao dos homens e atinge 57%.

Mesmo que o número de mulheres tenha aumentado, observa-se um número baixíssimo de mulheres  como membros titulares na Academia Brasileira de Ciências (aproximadamente 10% são mulheres).  Esse triste fato é recapitulado em outros países como os Estados Unidos e Argentina, que possuem um número similar de mulheres como membros na Academia de Ciências, enquanto na Inglaterra, por exemplo, esse numero cai pela metade. Ainda nesse contexto, poucas mulheres são agraciadas no Brasil com a bolsa de produtividade do CNPq, um indicador de reconhecimento. Curiosamente, Helen Miranda (colunista da coluna de ciências), relatou que de 23 palestrantes convidados para uma reunião internacional sobre neurociências, 2 eram mulheres. Como já disse, somos muitas, porém, pouquíssimas se destacam.

 

 

A cultura do feudo masculino

Mulher tem que se provar, enquanto que o homem é considerado automaticamente capaz

Um estudo realizado na Universidade de Yale mostrou que físicos, químicos e biólogos veem mais probabilidade de ser cientista, um homem do que uma mulher, ainda que ambos possuam as mesmas qualificações. Caso uma mulher for admitida, seu salário seria 4.000 menor. No Brasil, o salário oferecido para homens e mulheres é o mesmo, no entanto, há mais homens em cargos mais altos e isso reflete em salários maiores.

Interessante que a diferença entre a porcentagem de mulheres e homens no campo da ciência na América do Sul é mais sutil, diferente do que ocorre na América do Norte e Europa, onde as porcentagens de mulheres e homens são bem discrepantes (veja o gráfico). Esses dados sugerem que o Brasil possa oferecer um ambiente mais amigável às mulheres cientistas que outros países. Entretanto, no Brasil, poucas mulheres têm destaque na área em que trabalham. Isso mostra que a problemática relacionada a diferença entre gêneros na ciência no Brasil também existe, só é mais silenciosa.

Em alguns aspectos, as brasileiras podem ter certas vantagens, já que o período de licença maternidade é bem superior no Brasil que em alguns países como os Estados Unidos, que concede à mãe apenas 6-8 semanas. Por outro lado, para algumas mulheres, tirar 1 ano de licença pode determinar o encerramento da carreira. Além disso, as mulheres passam 3 vezes mais tempo cuidando de afazeres domésticos do que os homens, fazendo com que a conciliação da carreira seja mais complicada. Uma vez que fazer ciência consome muito do tempo e é uma área muito competitiva, mulheres com filhos relatam que é imprescindível ter uma boa estrutura para melhor conciliar a profissão com a vida pessoal.

 

Queremos mais mulheres na ciência

Há necessidade de mudanças na cultura que envolve o cenário da ciência. Iniciativas são realizadas para promover as mulheres na ciência, no entanto, a cultura patriarcal também deve ser mudada. Acredita-se que as fases iniciais de educação estão associadas com a escolha na área profissional. Enquanto, meninas são estimuladas a cuidar de pessoas, muitas tendem a optar por profissões que se relacionadas a saúde e ao bem estar. No entanto, meninos que são estimulados a brincar com  máquinas e computadores, mais facilmente escolherão profissões associadas a computação e engenharia.

Então, como devemos prosseguir? Quebrando estereótipos: que tal incentivar, suas filhas, sobrinhas, filhas de amigas a programar e solucionar problemas matemáticos?

Vamos motivar mais as meninas a seguir o caminho de ciências?

Aprendi muito com minhas amigas na ciência e estamos aqui para unir nossas forças! Vamos mudar esse cenário predominantemente masculino para um ambiente mais igualitário.

Fontes:

Clique nas palavras em negrito.

Fonte da imagem em destaque: Mulher ensinando geometria: https://en.wikipedia.org/wiki/Women_in_science

Agradecimentos:

Helen Miranda pela revisão de texto.


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.