Precisamos falar sobre as indicações ao Oscar 2016

Quando vi os indicados ao Oscar 2016, senti que tinha voltado um ano no tempo. As notícias e reações foram as mesmas: se jogarmos na internet “Oscar Branco”, veremos notícias tanto de 2015 quanto de 2016. É a decepção do Oscar parte dois.

Este ano não tivemos nenhum negro indicado, a única diversidade estaria no diretor Alejandro González Iñárritu. Isso é no mínimo estranho, quando temos lançamentos como Creed, Beasts of no Nation e Straight Outta Compton. Mesmo com Idris Elba e Michael B. Jordan em atuações incríveis, nenhum deles teve espaço nas categorias de melhor ator.

Há ainda outro problema com a diversidade dos indicados. Tirando as categorias direcionadas para mulheres, não temos nenhuma diretora, mesmo com o trabalho de Sarah Gavron em As Sufragistas, e nas categorias técnicas são pouquíssimas mulheres na lista para receberem prêmios. Olho para esses filmes que listei que foram esnobados pelo Oscar e não consigo entender o que a Academia tem na cabeça.

Quando olho, porém, para a pesquisa feita recentemente pelo Los Angeles Times, entendo por que as indicações foram desse jeito. Os números são: 76% homens, 94% brancos e a média de idade é de 63 anos. Não é de surpreender que, mesmo com o passar dos anos e os debates sobre representatividade aumentando cada vez mais, continuemos com essas indicações conservadoras. Isso aconteceu em 2015, acabou de acontecer este ano e não ficaria nada surpresa se tivéssemos o mesmo problema em 2017.

Apesar de as indicações serem sim um problema em si e a Academia ter outras opções este ano para indicar, não podemos deixar de abrir um debate sobre a indústria do cinema como um todo. Dos filmes lançados entre 2007 e 2014, apenas cerca de 30% dos personagens com falas nos filmes eram mulheres. Somente 11% dos filmes tinha uma divisão boa entre a participação de homens e mulheres. No caso de mulheres e pessoas negras trabalhando na produção dos filmes, os números caem ainda mais.

Outra coisa que notei é que, quando saíram os indicados, várias pessoas tiveram problemas para pontuar filmes com personagens negros e mulheres em destaque. Isso é um reflexo de como esses filmes são mais esnobados pela mídia do que outros filmes “padrão” com pessoas brancas como personagens principais, principalmente homens brancos. O filme As Sufragistas teve pouco espaço nas salas de cinema, ainda mais quando comparamos a outros filmes, mesmo sendo uma história importante e necessária de ser contada.

Vamos olhar agora as histórias dos filmes indicados. Boa parte delas é sobre homens brancos em suas aventuras: Steve Jobs, Perdido em Marte, O Regresso… Todos os cartazes e os personagens com maior destaque desses filmes são brancos e dentro do padrão. Não vou nem entrar no mérito da qualidade desses filmes, a questão aqui é que estamos vendo mais do mesmo. Sim, Mad Max tem uma boa representação feminina e conseguiu chegar ao Oscar, algo que eu duvidei que aconteceria quando o longa foi lançado, mas os filmes sobre homens brancos ainda são maioria, e quando temos filmes mais diversos, como Creed ou Beasts of no Nation, eles são simplesmente jogados para baixo do tapete e esquecidos. Ano passado Ava DuVernay também foi completamente esquecida na categoria de melhor diretor. Quando olhamos a história do cinema, vemos esse padrão e ainda imagino que vamos ver isso por um tempo.

Mesmo com inúmeras pessoas infelizes, muitas vezes não percebemos que ainda há muita gente que não vê o menor problema nessas indicações. Já li algumas vezes, nesses últimos dias, que os filmes com representatividade não eram tão bons quanto os indicados, o que não é verdade, e que também não existiam tantos negros e mulheres fazendo filmes, o que é outra bobagem sem tamanho. Quando argumentamos contra isso, somos bombardeados com argumentos de que este ano tivemos Furiosa e Rey e não podemos reclamar (e as pessoas continuam ignorando que, apesar de serem mulheres fantásticas, elas são sempre brancas).

Isso tudo me lembra das polêmicas que tivemos com o Finn e a Rey em Star Wars e também as inúmeras reclamações quando Idris Elba virou o nome favorito para interpretar o Pistoleiro na adaptação de A Torre Negra, de Stephen King. Enquanto há um número cada vez maior de pessoas exigindo diversidade, ainda temos uma boa parte que se incomoda: os homens brancos não suportam a força que as minorias estão ganhando e, infelizmente, eles ainda são a maioria em muitos lugares, como na Academia.

É verdade que temos algumas gratas surpresas: Mad Max e Spotlight são escolhas muito boas para melhor filme, Til It Happens to You de Lady Gaga passa uma mensagem muito importante e o Brasil está marcando presença com a animação O Menino e o Mundo, mas quando olhamos o contexto atual, em que as minorias estão cada vez mais ganhando voz e a representatividade se tornou um assunto tão em pauta, ver o Oscar tão branco, de novo, e tão padrão em geral, é frustrante. Ao mesmo tempo, isso tudo nos lembra de que ainda temos um longo caminho pela frente, a arte é um reflexo da nossa realidade, então nesse momento a sétima arte está me dizendo que as histórias dos homens brancos ainda são consideradas mais importantes que as outras, e isso precisa mudar.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.