Afinal, o que é entender arte?

Recentemente eu fiz um post falando da Tracey Emin e abordei superficialmente a forma que as pessoas rejeitam a obra dela por acharem que objetos cotidianos não podem ser arte.  Não vou entrar nessa discussão específica aqui (sugiro pesquisar pelo conceito de ready made) mas acho que é legal conversar sobre o que é arte, como amar arte e porque as pessoas estão tão tensas com isso de entender ou não arte. 

Quando eu tinha uns 12 anos a minha escola fez um passeio na Pinacoteca. Era para ser divertido mas logo virou uma tortura: a professora insistia em perguntar “o que esse quadro significa?” na frente de cada pintura. Pense em uma multidão de crianças desorientadas que, em vez de se divertirem com o passeio apreciando os quadros livremente, estavam super tensas em dar uma resposta correta e racional diante de cada pintura. Aquilo acabou com a experiência para boa parte da turma: era para ser diversão, virou prova. Quando a escola marcou outro passeio no museu, ninguém estava animado para ir. Isso é um exemplo dos muitos equívocos que acontecem quando apresentamos arte para as pessoas, principalmente para crianças.

Nós aprendemos que arte é algo muito intelectual, elevado e requintado, que devemos amar e entender profundamente para sermos pessoas cultas. Isso gera muita expectativa para que as pessoas “entendam” arte, como se apreciar obras fosse apenas decifrar códigos. Se você não “entende”, não é culto e não aprecia arte. A experiência de olhar livremente para as obras, com liberdade para gostar ou odiar, inventar significados, trazer coisas novas e simplesmente se emocionar de alguma forma é totalmente sufocada em meio a normas e exigências que não fazem nenhum sentido.

Para começar: o que é arte? Por que algumas produções bem parecidas com outras consideradas “de arte” não recebem o mesmo status? A resposta está na frase anterior: status. A arte ao longo do tempo foi apenas aquilo que foi decidido ser arte. Estética, temas, técnicas, tudo isso varia de acordo com a ideologia dominante no momento.  Por exemplo, nos cursos tradicionais de História da arte aprendemos pouco ou nada sobre arte africana, oriental ou islâmica. Por quê? Porque a História da arte foi escrita de uma perspectiva europeia, que colocou produções lindíssimas sob o rótulo de “arte primitiva” simplesmente por serem obras que não têm origem europeia. O graffiti sempre esteve aí, mas só começou a ter status de arte recentemente.  O funk também só começou a ser levado a sério como estilo válido de expressão de toda uma comunidade quando a academia passou a olhar para ele.

Eu gosto muito da forma que o especialista E.H. Gombrich aborda o tema. O historiador é autor de uma das mais populares obras de ensino artístico no mundo, A História da Arte, em que fala da questão logo no prefácio:

“Nada existe realmente a que se possa dar o nome Arte. Existem somente artistas. (…) Não prejudica ninguém dar o nome de arte a todas essas atividades, desde que se conserve em mente que tal palavra pode significar coisas muito diversas, em tempos e lugares diferentes, e que Arte com A maiúsculo não existe.

Na verdade, Arte com A maiúsculo passou a ser algo como um bicho papão, como um fetiche. Podemos esmagar um artista dizendo-lhe que o que ele acaba de fazer não é ‘Arte’. E podemos desconcertar qualquer pessoa que esteja contemplando com deleite uma tela, declarando que aquilo que ela aprecia não é Arte mas uma coisa muito diferente”.

Sobre significados: quem pode determinar o que o autor quis dizer? O estudo de História da arte é importante para entender o contexto em que cada obra surgiu, mas na verdade se achar um significado “correto” fosse tão importante as obras viriam com manual de instruções. Reduzir arte a uma busca por um significado oculto compromete uma das coisas mais prazerosas e importantes na apreciação artística, o simples sentir alguma coisa diante da obra. Não se pressione a entender arte. Frequente exposições, saraus e mostras e se permita olhar para as obras sem precisar racionalizar tudo o que vê. Sinta-se livre para detestar ou amar, pois assim qualquer experiência que tiver, pelo menos ela terá sido autenticamente sua. O mais gostoso em olhar arte é construir sua subjetividade e descobrir do que você gosta.


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Beatriz Blanco

Designer, professora, gamer e pesquisadora. Fã da franquia The Legend of Zelda, histórias de terror, aliens e kaijus. Acorda e dorme online.