Cosmic: o Netflix dos quadrinhos e a nova forma de ler HQ na internet

A primeira vez em que ouvi falar no Cosmic foi durante o Festival Internacional de Quadrinhos, em novembro de 2015. Eles tinham um estande lá e dava pra testar a plataforma, que ainda não tinha sido oficialmente lançada.

A primeira coisa que chamou a atenção foi o acervo: tinha de tudo, entre trabalhos premiados de autores nacionais até histórias curtas lançadas de forma independente. Em segundo lugar, o que me surpreendeu foi a velocidade de carregamento das páginas e a qualidade da imagem.

A minha impressão foi de que o Cosmic funciona como um Netflix de quadrinhos. Por um preço baixinho, de R$ 15,90 por mês, o assinante pode acessar um conteúdo super vasto de HQs, sem a preocupação de ter que pedir o livro pelo correio ou esperar encontrar em alguma loja e, principalmente, sem acumular papel em casa! Pra mim, que me mudei três vezes nos últimos anos e tive que deixar muita coisa pra trás, a ideia é beeem sedutora.

Além disso, assim como o Netflix, o Cosmic é uma alternativa mais barata que a mídia impressa tradicional, mas ainda assim se preocupa em remunerar os artistas cujos trabalhos estão expostos. Ou seja, além de facilitar a vida do leitor, incentiva a produção nacional de quadrinhos.

Por isso, eu decidi saber mais sobre a plataforma, a proposta e o conteúdo e fiz umas perguntinhas pra eles:

Como surgiu a ideia de organizar um “Netflix” dos quadrinhos brasileiros? Até agora a ideia tem dado bons resultados?

A ideia surgiu depois que avaliamos os problemas da produção de quadrinhos no Brasil. O quadrinho é uma linguagem que desperta muito interesse, mas os números de venda das edições impressas não refletem tão bem isso. E desde a década de 90, essa realidade vem estancando o crescimento do mercado. Autores e editoras têm que lidar com um cenário em que gráfica, distribuição e postos de venda chegam a ficar com mais de 80% do preço de capa, o que impõe uma barreira muito forte para a produção de grandes obras nacionais.

 O que nós encontramos como melhor solução para esse cenário foi um serviço de streaming via assinatura mensal, que é bastante acessível para o usuário e cômodo para os artistas. Nós estamos muito felizes com os resultados, e vamos investir cada vez mais na expansão do nosso acervo.

Vi que na página de vocês existe um e-mail pra autores e editores que desejem disponibilizar seu conteúdo no Cosmic entrarem em contato. Vocês acham importante facilitar esse acesso entre os criadores de conteúdo e a plataforma?

A transparência desse modelo é um dos maiores atrativos para autores e editoras. Quando enviamos os royalties dos pagamentos das assinaturas para nossos parceiros, nós também disponibilizamos um modelo detalhado dos dados de acesso de cada obra. Autores e editoras podem usar esses dados para avaliar se existe público suficiente para o lançamento das obras em versão impressa, por exemplo.

Existe uma seleção do que entra na plataforma e do que não entra? Vocês aceitam trabalhos mais independentes, como fanzines?

Temos um crivo editorial, sim. Temos uma curadoria interna que seleciona obras de qualidade e com muita diversidade. Ao mesmo tempo que nos preocupamos em expandir cada vez mais o acervo, não estamos em busca de fazer volume morto, com obras que já caíram em domínio público ou que não sejam representativas da qualidade da produção de quadrinhos, seja daqui ou de fora.

O Cosmic entrou no ar recentemente, certo? Com quantas obras vocês contam no acervo?

Estamos expandindo constantemente o acervo, então o número sempre varia. Atualmente temos em torno de 70 obras.

Como vocês remuneram os artistas que disponibilizam suas obras através da plataforma?

Dos valores das assinaturas individuais, 30% ficam com a Cosmic e 70% com os autores, proporcionalmente ao número de páginas lidas por cada usuário. Acreditamos que esse sistema recompensa editoras e autores que realmente trazem leitores e sustentam rendimento e que também permite que editoras e autores com um público razoável mais fiel possam gerar renda significativa.

O que vocês acham da demanda interna por quadrinhos nacionais? A longo prazo, vocês pretendem incluir artistas estrangeiros no acervo?

A demanda por quadrinhos nacionais tem crescido bastante, especialmente nos últimos cinco anos. Vemos cada vez mais novos coletivos de artistas surgindo, além de novas publicações nacionais sendo publicadas por grandes editoras. Queremos ajudar esse mercado a realizar seu potencial e se expandir ainda mais. E sim, teremos obras estrangeiras em nossos lançamentos.

Ramon Cavalcante e George Pedrosa, que são respectivamente CEO e diretor de comunicação do Cosmic
Ramon Cavalcante e George Pedrosa, que são, respectivamente, CEO e diretor de comunicação do Cosmic

O Cosmic parece uma novidade atraente tanto pra autores quanto pros leitores brasileiros de HQ, especialmente por eliminar uma série de dificuldades e custos com impressão e distribuição. Isso facilita a vida de quem mora longe do eixo Rio-SP, onde se concentram os eventos e lojas especializados. O coletivo de quadrinistas cearenses Netuno Press, por exemplo, disponibiliza uma série de trabalhos na plataforma e vem se mostrando satisfeito com a parceria.

E, pra quem resolver estrear a plataforma, recomendo ler Mayara e Annabelle, Garota Siririca, Espiga, Melindrosa, Silêncio e Olga, a Sexóloga, só pra começar com o pé direito!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.