Spotlight – Segredos Revelados é um filme necessário

Em 2001, a equipe de jornalistas do Boston Globe começa a investigar um caso de pedofilia cometido por um padre, porém isso acaba revelando um problema muito maior do que o imaginado e a Igreja se mostra muito contrária a todas essas investigações. O filme é baseado em fatos reais, mas segue a fórmula de ficção ao invés de documentário.

O longa, dirigido por Tom McCarthy, é muito bem feito, as duas horas passam e nem se percebe porque o roteiro deixa você preso no que está acontecendo. Um dos aspectos mais interessantes dos personagens é como eles se envolvem com a matéria. “Padres pedófilos” não é um assunto leve e é interessante ver como o desenrolar dos fatos vai afetando cada um dos jornalistas de formas diferentes: todos eles têm reações muito humanas e que se encaixam na história.

Apesar de não ter nada gráfico, é um filme pesado, não é uma temática agradável e alguns relatos das vítimas podem ser trigger para algumas pessoas. Talvez uma ou outra cena tenha sido desnecessária(s), mas tudo no filme se encaixa muito bem com a temática. Spotlight também não é nenhuma referência em representatividade, todos os atores são bem padrão, mas o peso da história é muito importante e necessário, isso precisava ser contado, além de ser uma história que abre espaço para pensarmos sobre várias coisas.

Por que revisitar essa história depois de 15 anos? Existem vários motivos pra eles terem esperado esse tempo para contar esses escândalos, mas achei o momento conveniente. É sempre complicado comparar o estilo de jornalismo de países diferentes, mas é interessante ver a trama estando em um contexto brasileiro. Os grandes meios de comunicação possuem um objetivo muito óbvio de quem pretende defender e atacar, muitas vezes as investigações dos casos é totalmente distorcida para deixar a opinião pública contra certo grupo. É muito triste ver isso, saber que os comunicadores possuem um papel social, que é um tema muito bem discutido no filme, mas na vida real isso é trocado por interesses que nada têm que ver com quem vai receber a notícia.

A partir daqui o texto terá spoilers do filme.

Outro assunto do qual se falou muito ultimamente é sobre como crianças muito novas passam por situações de abuso e isso é algo naturalizado. O tratamento das vítimas no filme é muito interessante, muitas delas são consideradas “loucas” por suas acusações e mais tarde os jornalistas descobrem que na verdade a coisa era muito maior até do que algumas vítimas acreditavam ser. Nós ainda estamos passando por uma fase em que as vítimas de abusos precisam provar cada palavra que dizem porque a primeira reação das pessoas é não acreditar. Além disso, o roteiro tem um cuidado em mostrar a relação de poder que existia entre os abusadores e as vítimas. Como diz uma das vítimas: “Como você diz não para Deus?”.

O filme também faz questão de mostrar a seriedade do assunto. Mesmo o índice de padres pedófilos sendo de 6%, que se pensarmos em porcentagem, não é muito, em momento nenhum isso é tratado como pouco, porque não é. É um número relativamente pequeno pensando no total, mas é grande o suficiente para afetar a vida de muita gente e o filme em nenhum momento desmerece isso, inclusive faz questão de colocar os números fora da porcentagem para que o público entenda que não importa quantos por cento é: é muita coisa.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção é que o filme não busca mostrar culpados. Óbvio, os padres são os abusadores e ninguém passa pano nisso, mas eles mal aparecem. Quando digo que não há culpados é que, em certos momentos, eles tentam entender qual parte do jornal ignorou denúncias enviadas anos antes. Os jornalistas tentam entender quem errou, quem deixou isso passar em branco por tanto tempo e, na verdade, ninguém é colocado como o culpado disso, exatamente porque desacreditar desses acontecimentos é algo naturalizado. Isso faz conexão com uma outra questão levantada pelo filme que acho extremamente importante.

Apesar de vários nomes de padres serem citados, denunciados e colocados numa lista, há uma grande discussão se eles devem denunciar logo o padre que eles têm na mão ou se esperam para denunciar o sistema inteiro. A resposta encontrada é denunciar o sistema inteiro, com o máximo de nomes possível. Não podemos em momento nenhum tirar a responsabilidade dos padres que abusaram das crianças, eles devem (deviam, no caso, porque muitos saíram impunes) responder pelos seus atos e cumprir suas penas. Porém Marty, o novo dono do Boston Globe, insistiu que esperar para denunciar o sistema era o único jeito de tentar forçar uma mudança. É óbvio que os indivíduos importam, os criminosos devem ser punidos e as vítimas ajudadas, mas foi preciso olhar tanto isso quanto a figura maior: enquanto a Igreja conseguir jogar a culpa em “algumas maçãs podres”, não ocorrem mudanças e os casos são jogados pra baixo do tapete. É lindo ver o jornal tentando de tudo pra bater de frente com a Igreja e não se deixar influenciar, porque é assim que o jornalismo deveria ser, investigando fatos e denunciando instituições corruptas, por maiores que fossem.

Não dá pra terminar a análise sem apontar um momento muito certeiro do filme. Em um diálogo, Mike, um dos jornalistas, fala com um informante e pergunta como ele consegue continuar sendo católico depois disso. O homem diz que há uma diferença muito grande entre sua fé e a instituição; afinal, a Igreja é feita por seres humanos que podem ser corruptos, mas a fé de cada um independe de instituições e suas ações.

Com certeza um dos melhores filmes que disputam nas premiações, Spotlight nos faz pensar sobre muitos temas importantíssimos e aparece em um momento necessário. Vale a pena ser visto.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.