Quando a arte ocupa o centro da cidade

Hoje me permiti fazer uma pausa na minha divulgação de fotógrafas para fazer uma relfexão sobre arte e cidade. Nesse feriado de 462 anos de São Paulo, o Red Bull Station fez um mini-documentário sobre a ocupação de artistas e arquitetos no centro da cidade. O documentário aborda assuntos sobre a pluraridade do centro e porque isso é importante para artistas e também como os artistas podem devolver arte à cidade, para um espaço que até hoje é visto como sujo, violento e inabitável.

O assunto é muito próximo de mim porque sou artista, frequento ou gostaria de frequentar os lugares mostrados no vídeo e moro no centro, bem no centro, ali na Praça Roosevelt. Foi um choque para minha família classe média tradicional quando me mudei. Mas é o único lugar do mundo onde me sinto bem, onde sinto que é minha casa, porque eu escolhi morar aqui. Eu amo o centro. A primeira vez que vim para o centro foi quando eu era bem pequena e fui acompanhar meu pai para o trabalho. Na época, a gente morava num bairro residencial da Zona Sul de São Paulo e ir para o centro, atravessar a Santa Ifigênia e ver todos aqueles prédios antigos foi como ir para outro mundo. Quando era adolescente, depois de ter me mudado para o interior, os check-points de visitar São Paulo eram a Galeria do Rock, a Pinacoteca e a Liberdade. Já na faculdade gravei um curta-metragem na Luis Coelho, esquina da Augusta, e decidi que algum dia eu iria morar ali. E consegui, não na Augusta, mas num lugar mais legal, com vista para o Minhocão.

A reapropriação da cidade por artistas é visível. É uma mistura muito orgânica, de fazer o bonito brotar do feio, de se nutrir das características históricas e fazer coisas novas. Muita coisa mudou da época que eu era adolescente e vinha passear por aqui. Ainda tem muita gente em situação de rua e incontáveis baratas, mas no fim isso acaba se tornando parte do charme sujinho-centro. O movimento do Parque Minhocão, a reurbanização da Praça Roosevelt e as ocupações artísticas, como a Casa Amarela na Consolação – isso só para citar as coisas mais próximas da minha casa e os espaços onde costumo circular – trazem vida nova e mais segurança para a cidade.

Pessoalmente, acho a única forma possível de fazer arte é através do feio, do bizarro, do diferente – e isso o centro tem de sobra. Só no meu prédio tem estudante, velhinho que mora aqui há 40 anos, famílias inteiras que dividem uma kitnet, anão e transexual, uma pluralidade com que nunca tive contato morando em outros lugares.

Mas tem o outro lado. Eu não sei se é a minha desilusão com o sistema das artes (fiz faculdade de artes, mestrado em museu, trabalhei em galeria e fiz minha parcela de arte por aí), mas pelo vídeo todas as pessoas que estão tentando trazer arte para o centro parecem tão pedantes, pessoas que estão tentando trazer coisas de fora para implementar aqui, trazer a classe alta, que consome arte, para cá. As pessoas que falam são brancas, aparentemente ricas. Os negros,  imigrantes, camelôs e os moradores de rua são só pano de fundo e inspiração para o “fazer artístico”. É claro a reproriacão artística da cidade traz coisas boas, mas também traz especulação imboliária e gentrificação. Já dá para ver a quantidade de edifícios sendo construídos aqui, todos fora do padrão antigo do centro. Provavelmente daqui 10 anos ou menos o centro estará completamente diferente, mais civilizado, mais caro, reurbanizado, menos plural.

Fico meio triste pensando nisso, mas sei que também sou parte do problema: artista classe média que veio para o centro porque é diferente. Uma das melhores partes do centro é a marginalidade que a acompanha. E quando deixar de ser marginal? O que vai sobrar? Espero que vire Kreuzburg ou São Francisco, nunca Vila Madalena.

Para ver o vídeo, clique aqui.


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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.