O mundo é das vadias

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Grandes HQs marcaram minha vida e já falei sobre algumas delas aqui: Elektra Assassina, Watchmen, A Piada Mortal, Mooshadow, A Queda de Murdock, Sandman, Promethea, Preacher, Transmetropolitan... Me nsinaram muitas coisas, me fizeram questionar, desconstruíram paradigmas, impactaram-me de alguma forma e fixaram-se para sempre entre minhas preferidas.

Dentre as mais recentes preciso destacar Asterios Polyp e… Bitch Planet. Esta última está entre as melhores coisas que li ultimamente, recomendo-a fortemente, principalmente para as minas que procuram histórias com protagonistas empoderadas, complexas, fortes e humanas. Tudo isso, mais uma narrativa baseada em histórias reais, e tendo um cenário futurista distópico como pano de fundo, tornam a obra essencial para toda fã de HQ que se preze.

Ponto pra Image Comics, editora detentora do título que entrou com os dois pés no peito no ano de 2015 com séries fenomenais tendo mulheres como protagonistas: Lazarus, The Wicked +The Divine, Rat Queens, Fatale, a maravilhosa Saga, Jupiter’s Legacy e contando com nomes fortes como Ed Brubaker, Mark Millar, e Kelly Sue DeConnick, responsável pela alavancada de vendas de Miss Marvel (da Marvel, duh) e que agora assina a supracitada “Planeta das Vadias”.

Em minha humilde opinião, a Image engoliu a Marvel e DC ano passado, com relação à qualidade de seus títulos. Faço votos de que em 2016 a história se repita, já que sou contrária ao domínio exclusivo de mercado pelas grandes editoras. Editoras menores também merecem e precisam abocanhar boas fatias dele, dando lugar a títulos alternativos, equipes novas e gerando cada vez mais trabalho e histórias no meio nerd. Quem ganha com isso somos nós, leitores.

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Que planeta é esse?

Terra, futuro apocalíptico e distópico. Tá tudo uma merda, mas a sociedade vive nos pináculos da hipocrisia (pelo jeito a coisa não difere muito do presente) então, aparentemente a humanidade parece ter evoluído, crescido melhorado. Os índices de pobreza e discrepâncias sociais estão ok, criminalidade também, enfim, estão todos felizes e realizados. Só que não. A sociedade vive sob um código de conduta universal rígido e castrador e qualquer um que burlar suas regras, é punido de alguma forma. – Nesse aspecto me lembrou muito HQs como American Flagg e The Filth – Como preconceitos em geral, desigualdades socioculturais e misoginia continuam firmes e fortes, quem demonstra insatisfação com tais regras são geralmente representantes de minorias, naturalmente os mais lesados por essa sociedade engessada.

Os transgressores ganham um carimbo- tatuagem com o símbolo NC (Non-compliant) – “intransigentes” (qualquer semelhança com Campos de Concentração não é mera coincidência) e são presos. Acontece que as autoridades parecem ter um “carinho” todo especial pelas mulheres intransigentes e elas são mandadas para uma prisão exclusiva, em um satélite próximo à Terra, denominado Posto Avançado Auxiliar de Tolerância, apelidado de Bitch Planet.

Dentre os crimes que podem vir a condenar mulheres ao B.P. estão os que já conhecemos: roubo, assassinato, fraude, etc. Mas você pode ser condenada a um planeta presídio lutando por sua vida em um ambiente hostil e torturante se não for “doce” e calma o suficiente, se trair o marido, se não se enquadrar no padrão de beleza vigente (ser for magra ou gorda demais, baixa ou alta demais) se falar alto demais, se expressar suas opiniões demais ou for neuro-atípica. Existe também, nesta novíssima sociedade, um crime classificado como “terrorismo de gênero” – o que, pela narrativa, dá a entender que se trata de bissexualidade ou queer, não fica muito claro. Mas não importa: ser diferente ou genuíno é crime.

Bitch Planet é um tipo de “Orange is The New Black” no espaço. Na verdade é muito mais violento que OITNB, está mais para um “OZ” misturado com Battlestar Galactica. E a mulherada sofre. Chutam bundas, sim, mas estão ali escancaradas, todas as violências, físicas e psicológicas que conhecemos e que são cometidas contra nós, todos os dias. A prisão tem uma “consciência holográfica-virtual” comandada por autoridades (HOMENS, obviamente) que dá lições de moral às presas que são mandadas para a solitária. Ela cria ambientes comuns às memória dessas mulheres, diálogos violentos e revive cenas traumáticas de suas vidas, torturando-as de uma forma jamais imaginada. Confesso que doeu um pouco ler/ver/imaginar aquilo e pode ser um gatilho poderoso para algumas. Mas ao longo da história somos lindamente representadas e vingadas.

A quintessência do feminino dá o tom à HQ. Toda a fragilidade e força das mulheres são ali expostas. Todos os traumas, feridas abertas, medos, violências sofridas, todo ódio acumulado, assim como toda sororidade que nasce em meio a dor, toda a bondade, sabedoria, amor, também estão ali, em Bitch Planet.

O protagonismo varia entre as personagens em meio as histórias, mas você se apaixona por cada uma delas. A diversidade de mulheres também é ricamente representada, são mulheres de todos os tipos, tamanhos, cores, origens e orientações sexuais. Somos todas nós, ali. And I think that’s beautiful.

A direção de arte é francamente inspirada nos anos 60/70, com alguns elementos dos 80 até porque a HQ é uma espécie de homenagem a filmes sobre “mulheres na prisão” que eram moda, na época. A arte é de Valentine de Landro e cores da brasileiríssima Cris Peter <3

Uma vadia incomoda muita gente…duas vadias incomodam muito ma-ais. 

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Bitch Planet causou uma revolução quando foi publicada há um ano, nos EUA. Legiões de feministas leram a revista e ela já faz parte de diversos estudos e artigos acadêmicos em muitas universidades.

Aliás, um dos diferenciais da revista é justamente publicar, em meio as histórias, artigos feministas. Torçamos para que ela seja publicada no Brasil e que essa característica seja preservada!

O carimbo de “non-compliant” (design maravilhoso de De Landro) virou febre e um verdadeiro símbolo da luta pela defesa da liberdade, multiplicidade e peculiaridades de cada um e milhares de garotas o tatuam e o exibem no Instagram, todos os dias.

Leia. É empoderadora, prufunda, questionadora. Os paralelos que DeConnick faz com a realidade são poderosíssimos e conscientizadores . É uma obra-prima. Fica aqui a minha dica.

Bitch Planet ainda não tem data para ser publicada no Brasil, mas, quem sabe alguma editora tem a brilhante ideia de trazê-la? Oremos.

Tem na Comixology 🙂  – https://www.comixology.com/Bitch-Planet-1/digital-comic/172352


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Gabriela Franco

Jornalista especializada em cultura pop, produtora, cineasta e mãe da Sophia e da Valentina

Criadora do MinasNerds.