Onde estão as dramaturgas?

Este artigo de Nina D’Antonio é o primeiro de uma série cujo objetivo é abordar uma vertente pouco explorada da criação literária. 

Quando pensamos em literatura, a palavra já vem com um L maiúsculo, e lembramos nomes como George Orwell, Daniel Defoe… De repente, vem William Shakespeare à nossa mente.

Mas será que podemos falar de Shakespeare como Literatura?

Sim, embora seus escritos sejam o que chamamos de Literatura Dramática, ou seja, textos feitos para o teatro.

Este artigo é o primeiro de uma série cujo objetivo é abordar essa vertente tão pouco explorada da criação literária.

Pouco conhecemos sobre dramaturgos. São poucos os nomes que qualquer pessoa consegue dizer de supetão; a maioria vai citar o Tio Bill, Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna e, às vezes, Samuel Beckett. Todos homens.

Mas onde estão as dramaturgas?

Historicamente, o Teatro é um Clube do Bolinha – como o resto do mundo, na verdade. Nos primeiros anos da existência dessa arte, durante os Festivais Dionisíacos na Grécia, na Antiguidade Clássica, as mulheres mal podiam assistir aos espetáculos. Mesmo as das famílias nobres sentavam-se ao fundo, próximo aos escravos, quase sem nenhuma visão do palco. Isso, claro, quando conseguiam entrar.

O teatro era o lugar de conversa da cidade-estado: as histórias já conhecidas eram interessantes pela forma como eram contadas e levantavam os questionamentos da época – sobre a guerra, os deuses, o livre-arbítrio. Nas comédias, havia intervalos em que os atores literalmente começavam a falar do que havia de errado no cenário político local. Esse ambiente rico em debate não era lugar para a mulher.

No período entre a Antiguidade Clássica e o Renascimento, ao contrário do que se acredita, o teatro não desaparece, mas muda. Passa às mãos da Igreja, e assim, finalmente, temos a primeira mulher a escrever um texto dramatúrgico. Ela era Hrotsvitha von Gandersheim, uma freira alemã de família abastada que viveu no século X e escreveu peças cristãs. As mulheres podiam assistir aos autos religiosos, o que proporcionou a elas uma visão maior do mundo em que estavam inseridas.

Mas só depois da famigerada Idade das Trevas é que o teatro não religioso volta com todo o gás. A produção de textos começa com a tradução dos clássicos gregos, e a primeira pessoa a traduzir os textos de Eurípedes para o inglês foi uma mulher, Jane Lumley. Cem anos depois de Lumley traduzir peças, durante o reinado de Charles II na Inglaterra, as mulheres passaram a atuar – sendo Margaret Hughes considerada a primeira atriz – e aconteceu uma verdadeira revolução na forma de Aphra Behn, considerada a primeira mulher a ser uma escritora profissional do ramo.

No Brasil, ainda existem menos mulheres do que homens na dramaturgia, embora a primeira companhia de teatro brasileira tenha sido dirigida e fundada por uma, a lendária Maria Della Costa.

Do século XVII para cá, a mulher foi ganhando mais espaço, sendo mais dona da própria carreira e das próprias criações e constando entre os grandes nomes de algumas gerações: a maior figura do teatro inglês da década de 1980 para cá é uma mulher, Sarah Kane. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer no reconhecimento e conhecimento desses nomes. Aqui estão quatro exemplos de autoras que escreveram (ou escrevem) para o teatro.

Retrato de Aphra Behn pintado por Peter Lely em torno do ano 1670.
Retrato de Aphra Behn por Peter Lely, ca. 1670.

Aphra Behn (1640-1689) é quase uma super-heroína. Foi espiã do Rei Charles II até ele decidir que não pagaria mais por seus serviços. Ela, então, decidiu escrever. Suas peças mais famosas eram sátiras da vida dos nobres ingleses.

Virginia Wolf disse: “Todas as mulheres juntas deviam colocar flores no túmulo de Aphra Behn… Pois foi ela que lhes conquistou o direito de falarem o que pensam”. Ela é, possivelmente, a primeira mulher a viver do que escrevia.

Aqui está um link para sua peça mais famosa, The Rover. Infelizmente, nunca foi traduzida para o português.

 

 

Foto de Caryl Churchill feita por Marc Brenner.
Caryl Churchill. Foto: Marc Brenner.

Caryl Churchill (1938-) Começou seus estudos com foco em Brecht e no teatro épico, e escrevendo audiodramas para a BBC. Com o passar dos anos, passou a estudar mais as questões feministas e de gênero.

Marcou o teatro quando, meses após o ataque contínuo de Israel na faixa de Gaza, estreou no palco do Royal Theatre com a peça Sete Crianças Judias – e a partir de então passou a se colocar como defensora da Palestina. O texto pode ser apresentado sem a necessidade de pagar pelos direitos autorais, desde que parte do lucro seja revertida para as crianças palestinas.

Para ler Sete Crianças Judias, clique aqui.

Foto de Sarah Kane com copyright de http://www.bloomsbury.com
Sarah Kane. Copyright: http://www.bloomsbury.com

Sarah Kane (1971-1999) iniciou a carreira com uma peça estudantil chamada Blasted (Ruínas). Kane foi um ponto de virada na dramaturgia mundial, começando a quebrar com os paradigmas de personagem-conflito. Ela fez parte de um movimento que os críticos conheceram como “in yer face”. Foi muito criticada por seus textos serem extremamente obscenos e violentos.

A carreira de Kane foi curta e marcada por sua depressão e esquizofrenia; ela tentou suicídio várias vezes e chegou a ficar internada por muito tempo. Psicose 4:48 foi seu último texto. Suicidou-se no London’s King College Hospital.

 

 

 

 

Foto de Grace Passô feita por autor desconhecido.
Grace Passô. Foto: divulgação.

Grace Passô (1980-) Mineira, fundou juntamente com outros atores a companhia de teatro Grupo Espanca!, na qual atuava como atriz, diretora e dramaturga. Em 2005, ganhou o prêmio APCA de melhor dramaturgia pelo texto Por Elise e em 2006 o prêmio Shell pelo mesmo texto. Escreveu Marcha por Zenturo em parceria com o Grupo XIX de Teatro. Depois de 8 anos, segue carreira tendo trabalhado em montagens com outras companhias, como o Grupo Lume.

Quatro Textos de Passô estão publicados pela editora Coboco: Por Elise, Amores Surdos, Marcha por Zenturo e Congresso Internacional do Medo.


Nina D’Antonio é atriz e dramaturga, bebedora oficial de chá gelado em copos de Dalek e mãe de minipets.


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