Visibilidade Trans – Nossa voz, nossa luta

Semana da Visibilidade trans e claro, não podia deixar passar sem dizer algumas coisinhas. A começar pelo termo visibilidade, quer dizer, podia ter outro nome né? Tipo “Semana das pessoas trans” ou “Semana do orgulho trans”.. mas é Semana da visibilidade trans, pois de modo geral, pessoas trans são apagadas, seja pela imposição da sociedade de que devemos parecer cis para ter o mínimo de respeito, seja por termos menos possibilidades de inclusão em empregos, escolas ou mesmo no ambiente familiar.

E claro, essa pressão afeta a nós, em geral pra evitar discriminação, evitamos o destaque, até por que a mídia e mesmo a sociedade gosta de destacar pessoas trans pelo escândalo, pelo ridículo, pra desmerecer nossa dignidade e capacidade.

De uns anos pra cá me pergunto até que ponto queremos transicionar por nós, pra nos sentirmos bem com nossos corpos, e a partir de que ponto fazemos mais do que isso e procuramos uma passabilidade pra obter respeito, pra sermos tratades no gênero ao com o qual realmente nos identificamos.

Quando decidi transicionar por exemplo, eu considerava fazer a cirurgia de redesignação sexual, não por uma necessidade minha mas por que sempre que eu dizia ser trans, me perguntavam se eu já tinha feito a cirurgia, se eu pretendia fazer, quando pretendia etc. E isso mesmo no meio trans, era como um teste pra validar se poderiam realmente me considerar mulher ou não.

Além disso, é muito difícil, quase impossível, mudar o sexo nos documentos sem a cirurgia, pois ainda temos essa definição crua de que genital define gênero. E isso era mais um motivo pelo qual eu queria fazer a cirurgia.
Mas com o tempo e com a transição, conforme eu parecia mais feminina, ou mais próxima as expectativas que sociedade tem sobre o que uma mulher deve ser, as coisas melhoraram, e eu mesma também fiquei mais confiante, e novamente me pergunto “será que só fiquei mais confiante por que meu corpo me agrada mais, ou também por que as pessoas me aceitam melhor devido a uma aparência mais feminina?”

É complicado lidar com nossas dúvidas, distinguir quem somos de verdade quando temos uma carga absurda de pressão nos dizendo quem e como devemos ser. Eu rejeitei muitas das minhas nerdices no inicio da transição por receio de que me tornassem menos feminina, por que diziam que gostar de robôs gigantes e transformers era coisa de homem, tentei me forçar a aceitar papeis e atividades que não me cabiam… tudo pra ser aceita.

Claro, aos poucos fui vendo o que era o que, fui compreendendo o que realmente era pra mim, fui me tornando visível. Talvez não de forma gritante, ou não constante, mas hoje não tenho medo de praticar esportes e ficar forte, de mostrar minha coleção de transformers e GI Joe, nem de dizer que não sou operada e nem pretendo fazer a cirurgia ou de que sou trans lésbica.

Mas ainda hoje, muitas pessoas trans não veem isso e ainda acreditam que precisem se enquadrar em padrões impostos, se culpam, se escondem, desistem de transicionar… se apagam. E não, não são pessoas fracas, são pessoas que sofrem, que suportam uma barra, uma pressão enormes, pessoas que tem medo de perder o emprego, de perder seus lares, famílias, amigues ou mesmo sua integridade física e suas vidas.

Por isso precisamos de visibilidade, precisamos falar, precisamos ter nossa voz e lugar de fala respeitados, precisamos nos unir, mas também precisamos de apoio e acolhimento. Precisamos nos expressar nas palavras, na arte, na mídia e também no dia a dia, a cada dia. Compreender e lutar por nosso direito dermos quem somos, de sermos mulheres e homens trans, não anormais, não bizarres, não monstres… apenas trans.

Como eu disse num texto anterior: teremos cumprido nosso objetivo quando nada disso importar, quando ser trans não fizer parte das chamadas das notícias, quando não precisarmos comemorar o sucesso de uma pessoa apesar dela ser trans, quando não precisarmos comemorar a aparição de personagens trans bem representades na mídia. Até lá, seguimos lutando, seguimos falando e seguimos com visibilidade e força!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3