Vale a pena voltar para Arquivo X?

 

A espera acabou. Depois de 13 anos e meio, Arquivo X ressuscitou do céu das séries mortas, com episódios inéditos. “Será que vai valer a pena?” era a pergunta de todos. Após ver os dois episódios de estreia do revival, dá para dizer que esse retorno valeu a pena – mas é preciso fazer algumas ressalvas.

Quando os vimos pela última vez (no filme Eu quero acreditar, de 2008), Scully e Mulder estavam morando juntos, ela trabalhando como médica num hospital, ele entregue às suas obsessões. Agora os encontramos separados (graças a Deus, nunca fui um shipper, embora essa separação não pareça durar muito).

O gatilho para a nova temporada é desenvolvido no primeiro episódio: um famoso apresentador de um programa de TV que mistura posicionamento político de direita e teorias da conspiração (Joel McHale, de Community, excelente) se aproxima de Mulder para mostrar que o governo não pode ser confiado e que há uma conspiração contra os americanos e, no fim das contas, contra a humanidade. Ele arrasta Scully na nova empreitada, que envolve uma mulher que sofreu abduções desde a infância.

Mas peraí: conspiração do governo, abduções, Scully e Mulder juntos investigando… acho que já vi isso antes. E é isso mesmo. A nova temporada até agora apenas requentou plots antigos, trocou a paranoia contra o governo pós-Nixon pela paranoia contra o governo pós-11 de setembro, adicionando algumas piadinhas para mostrar como o tempo passou (envolvendo celulares, Google, Uber, Obamacare, etc.).

As fórmulas e motes da série permanecem: Scully falando “Mulder??” ao celular, plot envolvendo híbridos humanos-alienígenas, dúvidas sobre os responsáveis pela conspiração (humanos ou aliens? Será que a luz forte é um óvni ou um helicóptero?), pessoas do alto escalão na sala do diretor-assistente Skinner, as deliciosamente escatológicas necrópsias da Scully, e por aí vai.

Além disso, embora tenha se passado mais de uma década do fim da série (e mais de 20 anos do início dela), Mulder e Scully continuam os mesmos. Isso é bom? Do ponto de vista dramático não, pois não mostra evolução dos personagens. Eu mesmo comecei uma maratona da série inteira justamente para rever e notar a evolução tanto de cada um deles individualmente quanto do relacionamento entre os dois. Infelizmente parei na 3ª temporada, quando eles já tinham um laço de amizade, companheirismo e confiança mútua muito forte. Mas lembro que, ao longo da série até seu final, Scully vai absorvendo a crença de Mulder, e este também vai mudando em contato com o ceticismo dela.

No revival, ambos parecem no começo da série: Mulder guiando ambos em direção ao inexplicável cegamente, e Scully resistindo e fazendo o papel do lado cético da dupla. Mas se do ponto de vista dramático a série perde um pouco, ela ganha ao deixar os fãs revisitarem os personagens com suas características mais extremas e que marcaram quem os acompanhou nos anos 90. Não é à toa que essas características foram grande parte do sucesso da série antes – o mesmo pode acontecer com uma nova geração de expectadores.

Skinner volta e Mulder continua brigando com ele.

David Duchovny está muito bem como um Mulder envelhecido e cansado, mas ainda fanfarrão e piadista. Gillian Anderson está boa, mas, pelo menos nos primeiros episódios, parece mais blasé e com uma interpretação mais sutil do que a antiga Scully, aparentemente ecos das suas Bedelia de Hannibal e Stella de The Fall. Pelo menos sua peruca, que pareceu bizarra nas fotos de bastidores, realmente funciona em cena, com tudo que uma boa fotografia e um full HD permitem.

Muitos podem se assustar com o salto que ocorre do 1º para o 2º episódio: no começo cada um está no seu canto, vivendo suas vidinhas longe do FBI, e o segundo já começa com eles entrando numa cena de crime ostentando credenciais como se fosse 1996. Não há praticamente nenhuma transição e eu mal lembrava de terem falado que os Arquivos X seriam reabertos no 1º episódio. Nem uma ceninha deles no RH. O fato é que o 2º episódio exibido na verdade estava programado para ser o 5º. Mais um pequeno problema na dramaturgia, mas que não chega a afetar tanto o resultado final.

Apesar dos plots desgastados e dos personagens que parecem não ter evoluído, a volta de Arquivo X me conquistou. Posso estar sendo bem parcial – e provavelmente estou mesmo, já que é a minha série favorita – mas tudo em cena funcionou. Eu me diverti bastante, não passei um minuto entediado. A premissa da nova série consegue colocar os dois de volta à ação e cobre furos que poderiam existir com o que já havia aparecido antes na trama (estava prevista uma invasão alienígena no ano de 2012, por exemplo).

A trama funciona tanto para quem já era fã (como já foi dito acima, são basicamente os mesmos plots e personagens) quanto para os millennials iniciantes que querem entender o hype – incluindo aí uma introdução que conta alguns pontos-chave da mitologia da série.  A audiência do primeiro episódio foi monstruosa para os padrões de hoje em dia: mais de 16 milhões de expectadores, sendo 6.1 na faixa demográfica de 18-49 anos. Mas essa audiência não reflete o sucesso da série, já que o episódio foi exibido logo após um jogo de futebol americano de muita audiência. A do segundo teve 9.6 milhões e 3.2 na demo, o que é excelente ainda. Veremos como a série se sai nos episódios seguintes, mas se continuar com esses números, já podemos sonhar com outra minitemporada no futuro.

[Imagens: Divulgação/Reprodução/Fox]


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