O Quarto de Jack | Delicado e Emocionante

Além de spoilers, aviso tw: estupro

Antes de assistir ao filme, sabia muito pouco sobre O Quarto de Jack, só sabia que tanto Brie Larson quanto Jacob Tremblay estavam sendo muito reconhecidos por seus trabalhos (especialmente ela, que ganhou a maioria dos prêmios, se não todos). Pelo pouco que conhecia da história, não foi um filme que me chamou a atenção e achei que ia ficar entediada, então foi uma grande surpresa assistir a O Quarto de Jack e me envolver tanto com a história.

O filme, dirigido por Lenny Abrahamson, conta a história de Joy e Jack, mãe e filho que vivem em um quarto, trancados, com apenas uma claraboia e uma porta trancada por um código desconhecido. Ouvimos a narração de Jack, que começa o filme em seu aniversário de cinco anos.

O ritmo da história é lento, mas é perfeito para o que está sendo contado. Além de um roteiro bem trabalhado, os dois atores principais são, de fato, os maiores destaques do filme. A emoção que eles colocam em cada cena é tão real que mesmo em momentos que não seriam tão importantes as pessoas podem se pegar chorando enquanto assistem. Todo o diálogo, principalmente entre os protagonistas, me pareceu muito natural, dadas as circunstâncias.

É muito inteligente a maneira como o roteiro e a direção lidam com a ideia de realidade e como os personagens reagem a ela. Jack parece ser uma criança feliz, ele não conhece nada além do quarto, mas se diverte, se dá bem com aquela realidade – afinal de contas, é tudo o que conhece. Por outro lado, Joy, que está há anos no quarto, mas que teve uma vida antes daquilo, está sempre lutando pra conseguir seguir em frente e criar o filho da melhor forma possível naquelas circunstâncias. O roteiro é delicado ao tratar de todo o trauma dos dois e da relação entre os protagonistas.

Quando Joy decide que é hora de sair dali, ela tenta contar ao filho que existe mais que aquele quarto, que aquela realidade não é bem a verdade. Jack não aceita, lógico que não, o que Joy diz vai contra tudo que ele viveu e ele é uma criança de cinco anos. Enquanto ele não gosta da ideia desse mundo fora do quarto, Joy quer, com toda razão, voltar para lá.

O curioso é que quando eles conseguem escapar e chegam à casa dos pais de Joy, esperamos que Jack seja a pessoa que tenha mais problemas para se adaptar, mas não é bem o que acontece. O menino vai se adaptando bem, quem tem mais problemas e inclusive toma decisões drásticas é Joy, que dos dois era a que mais queria voltar para o “mundo real”.

O filme é muito cuidadoso ao falar do abuso que Joy sofreu. Só vemos uma cena em que Velho Nick é violento com ela e somos poupados de qualquer estupro, mesmo sendo óbvio que o fato aconteceu. Isso só é mais uma prova de que é perfeitamente possível abordar o assunto sem ser gráfico e gratuito.

É interessante que, apesar de o filme falar sobre um sequestro que durou sete anos, a história não é exatamente sobre isso. O ponto principal é a relação entre Joy e Jack, como ela encontra nele um motivo para continuar seguindo em frente, a presença de Jack impede que ela enlouqueça. Joy começa a desandar mais no filme quando precisa encarar o mundo fora do quarto. Não sabemos o que aconteceu com Velho Nick, mas não é algo de que sintamos falta na história porque estamos preocupados em ver a adaptação dos protagonistas.

Enquanto eles estavam no quarto, víamos Joy perdendo o foco aqui ou ali, mas em geral ela era uma figura estável para Jack, mesmo que por dentro estivesse passando por vários problemas. Quando ela sai, vemos a jovem tentando se encaixar no mundo, ela até parece ter ficado alguns anos mais nova, e aí nos tocamos de que a personagem tem só 24 anos, mas como no quarto ela era tudo que existia para Jack, precisava ser firme. Ela vivia em função de Jack e de repente sai e ganha uma nova perspectiva do mundo, representado principalmente quando a jornalista faz a pergunta sobre por que ela não tentou mandar Jack para o lado de fora. O baque da pergunta quase a derruba, mas Joy levanta porque é forte. Mesmo não sendo capaz de fisicamente machucar Velho Nick, Joy tem força pra resistir a todo um inferno, por ela e pelo filho por anos. Como ela mesma diz, às vezes ela é quem precisa decidir pelos dois.

O final feliz é um alívio, às vezes essas histórias pesadas nos dão uma conclusão pessimista, mas ver O Quarto de Jack e terminar com a sensação de que Joy e o filho vão se recuperar e serão felizes é ótimo, até considerando a tensão que o filme nos transmite o tempo todo. Destaque especial para a última cena, quando eles visitam o quarto depois de um tempo e Jack diz que o quarto só existia com a porta fechada, porque sim, toda aquela experiência só era real para eles enquanto estavam presos.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.