Uma Banda exemplar – por Julia Kaffka

por Julia Kaffka

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Foto do site Live Nation TV, por Daniel Topete

Tem uma moça que conheço, mas nunca vi na vida e nem me conhece, que faz músicas. Ela também fala sobre porque mulheres são mandonas e homens são líderes natos (ou porque não deveria ser assim), sobre fazer dos shows lugares seguros, sobre um tanto de outras coisas.
Speedy Ortiz
Essa moça de quem lhes falo se chama Sadie Dupuis, ela é vocalista de uma banda chamada Speedy Ortiz, coisa que começou enquanto ela ainda dava aulas.

É uma banda… Barulhenta, devo dizer. Às vezes. A música que tocam tem guitarras, tem distorções e também tem chaves de fenda no instrumento. As letras são um capricho- a Sadie deu aulas exatamente sobre composição.

Algumas músicas são mais tristes, outras mais animadas, mas, se formos caracterizá-las, podemos chamar de slacker rock, indie rock, noise pop. Até o momento, são dois álbuns oficiais, três EPs e seis singles.

O último álbum, Foil Deer, foi lançado ano passado e recebeu o prêmio de Álbum/EP do ano pelo prêmio Boston Music Award. E nesse mesmo prêmio, a banda ainda ganhou os prêmios de música do ano (“Raising the Skate”), de artista do ano e de maior esforço de caridade do ano (!).

Como já vi caracterizarem, é uma banda muito legal porque é feita por pessoas do nosso mundo. Gente que não está preocupada em virar ícone superstar a qualquer custo. Aliás, se tem uma coisa que eles não estão, é “disponíveis a qualquer custo”.
Política sem querer
A primeira música que fui convidada a prestar atenção nisso foi No Bellow, do álbum Major Arcana. Do momento que percebi sobre o que a letra se tratava, ela se tornou um gatilho para mim.

A música é quase uma narração sobre um diálogo; eu a imagino como uma linha de pensamentos que ia surgindo na cabeça enquanto ela conversa com a pessoa, talvez com quem esteja ouvindo. O interlocutor é alguém que só a conheceu depois de adulta e ela conta sobre um episódio muito ruim na época da escola e como isso a marcou. Marcou a ponto que na época ela achava que estaria melhor morta.

No Bellow fala sobre bullying ao mesmo tempo que fala sobre achar acolhimento e por isso era tão difícil pra mim. Eu não tive a infância mais divertida no colégio, então quando a música falava comigo, ela revirava uma série de feridas que não estavam lá muito cicatrizadas. Com o tempo, a música parou de ser dolorida e se tornou uma música para me apoiar; como segue a letra, eu e ela estávamos no mesmo barco e nessa companhia é mais fácil superar essas dores.
Política de Propósito
Em abril, Sadie foi entrevistada pelo pessoal do Pitchfork e, dentre outras coisas, falou sobre a campanha Ban Bossy. A gente viu algumas iniciativas em 2015 a respeito das restrições que meninas recebem — tivemos os brinquedos da GoldieBlox & Rube Goldberg, o vídeo Like A Girl da Always (que deu continuidade na campanha Unstoppable), tivemos os trabalhos da Kaol Porfírio “Fight Like a Girl”, a campanha Love your Curls da Dove. E essas foram só as que eu lembrei de listar.

A Ban Bossy é mais uma delas e é uma campanha incrível! O site apresenta a campanha com um pequeno parágrafo que diz sobre a diferença que existe quando as pessoas lidam com um garotinho assertivo e com uma garotinha assertiva- que o garoto é chamado de líder e a garota de mandona.

Quando a Sadie falou sobre a “síndrome de ‘gwenstefanificação'” das bandas de rock, em 2013 para o The Cut no NYMAG, ela também comentou que não se achava uma boa figura de liderança.

Já em 2015, na entrevista que ela fala sobre a campanha BanBossy (e a música do novo álbum, Raising the Skate, que cita a campanha), deixa parecer que ela aprendeu com a campanha e conseguiu ver em si uma figura de liderança —  o que a fortaleceu dentro da banda e em suas relações pessoais, tesourando pessoas que lhe faziam mal. É tão forte que ela reconhece que quem cria as músicas é ela e ela tem sim a última palavra (e como não teria? A garota produz tudo! Das músicas às capas dos discos e camisetas da banda, é multi-talentosa!).

O que levou a banda a ganhar o prêmio por Best Charitable Effort foi o que fizeram para e com o Girls Rock Camp Foundation. Essa é mais uma Fundação cuja proposta é estimular e ajudar mulheres a entrar em campos com predominância de homens (tal como o Girls who Code), focando em juntar fundos e estrutura para acampamentos de Rock para garotas ao redor dos EUA.

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A iniciativa da banda foi uma turnê beneficente para a causa, contando com pacotes de recompensas para doações de determinados valores (como costuma acontecer no Catarse). Além disso, os shows eram todos abertos para público geral. Não foi só uma vez que Sadie falou sobre quão importante é para a banda que os shows sejam acessíveis. E quando eles falam disso, eles realmente querem que seja acessíveis: eles procuram que os ingressos não passem de 10 dólares e escolhem lugares que tenham uma estrutura adaptada para todos os públicos, para que pelo menos se dirigindo para lá e dentro do estabelecimento ninguém tenha sua mobilidade reduzida.

A banda também presta atenção nas companhias e marcas com as quais eles se alinham. Ela explica que por isso que nunca serão vistos num show da Converse; a exemplo, quando descobriram que a Urban Outfitters estava envolvida com a gravadora deles, a banda preferiu não ter essa conexão. Em tradução livre: “Especialmente porque vivemos num país em que legisladores e aplicadores das leis estão constantemente infringindo nos direitos das mulheres, das pessoas sexo-diversas e não-brancas* . Todos os três grupos marginalizados são representados dentro na nossa banda, então soaria dissimulado e francamente terrível trabalhar com empresas que trabalham contra direitos humanos básicos, como a Urban Outfitters, que gosta de apoiar bandas indie mas já doou muita grana para políticos ruins, fanáticos, homofóbicos. Em algum nível eu sinto a responsabilidade de chamar atenção para essas coisas; talvez tenhamos fãs que não querem dar dinheiro a empresas que sejam anti-lgbt, ou estejam envolvidas com trabalhos em condições degradantes e não sabia dessas práticas”

Para além disso, a banda tomou a seguinte iniciativa para seus shows: “Keep Speedy Ortiz Shows Safe”. A banda publicou a nota abaixo, afirmando que estariam agindo diretamente para ajudar quem esteja se sentindo em risco ou esteja presenciando algum assédio.

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Nota publicada em 7 de setembro de 2015

Em tradução livre, ela diz:
MANTENHA OS SHOWS DO SPEEDY ORTIZ SEGUROS- COMO CONSEGUIR AJUDA SE NECESSÁRIO
Nós acreditamos enquanto frequentadores de shows, você tem direito a um espaço de performance receptivo e inclusivo. Música deve ser livre de discriminação e os locais devem manter o público seguro em todos os aspectos. Nós queremos ajudar.
Assédio e intolerância não serão permitidos no show dessa noite ou em qualquer show do Speedy Ortiz. Linguagem prejudicial, opressiva e comportamento agressivos de qualquer natureza são inaceitáveis para nós. Isso inclui, mas não é limitado a: racismo, sexismo, classismo, homofobia, transfobia, capacitismo e todas as outras opressões e ações “marginalizadoras” e micro-agressões. A segurança emocional e física de nossos amigos nos shows é de suma importância para nós. Nós queremos fazer shows que são construídos a partir do apoio da comunidade e respeito mútuo.
Se você ouvir alguém agindo de maneira danosa nós encorajamos você a se posicionar e denunciar. Se você está sendo assediada, ou se sente insegura e precisa de ajuda, por favor envie uma mensagem diretamente para nós. Iremos trabalhar com a segurança do estabelecimento e fazer o melhor para tirar você de risco.
[…]
Juntos podemos fazer os shows mais seguros e mais inclusivos para um grupo mais abrangente. Vamos por favor ser gentis uns com os outros também — pessoas mais altas, deixem as mais baixas irem para a frente para que elas consigam assistir o show! Mantenha suas camisas vestidas! Se atente ao conforto de outrém. E deixe-nos avisados se você tiver quaisquer ideias para isso funcionar ainda melhor.
Todo o nosso amor, de verdade. Seus amigos, Speedy Ortiz.

A iniciativa é simplesmente de se mostrar disponível para ajudar quem precisa (sobre qualquer situação que acontecer) e de não estimular qualquer comportamento agressivo. Curiosamente, a banda recebeu uma série de críticas, trolls e acusações por terem feito esse posicionamento (o qual, eu particularmente acho que deveria ser tomado por todos os artistas e todas as bandas!).
Álbum do Ano – Foil Deer

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Speedy Ortiz é uma banda com bastante cara de anos 90. É bastante perceptível as referências como Pavement, Elliot Smith, Helium, Fiona Apple, mas, para enterrar os preconceitos de que gêneros e artistas de linhas diferentes não se inspiram, Sadie gosta muito de Nicki Minaj e Kelis. Para esse álbum, as referências ficam mais aparentes, especialmente na música Puffer.

O resultado é um álbum forte, voltado para se fortalecer, juntando suas inspirações e reafirmando tudo o que aprendeu sobre ser mais líder e menos comprimida pelos outros.

Para ouvir e ver online:
Soundcloud
Bandcamp
Site oficial da banda — Cool Pix
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