Vanessa Dias: A saga de estudar no exterior.

Existe hoje uma quantidade expressiva de brasileiros estudando no exterior. Convênios entre Universidades brasileiras e Universidades internacionais (principalmente europeias e norte-americanas) formados nos últimos 10 anos impulsionaram o intercâmbio de alunos de graduação entre estas instituições. Programas governamentais como o “ciências sem fronteiras” já financiaram mais de 92 mil brasileiros graduandos e pós-graduandos (doutorandos e pós-doutorandos) no exterior. Com o crescente números de estudantes fora do país, estes brasileiros sentiram maior necessidade de comunicação entre si, de dividir experiências, estimular e empoderar outros brasileiros que sonham em estudar no exterior. Foi com este objetivos que brasileiros estudando aqui nos Estados Unidos formaram a Rede BRASA. Esta integração de brasileiros aqui deu tão certo que nos dias 12 e 13 de Março deste ano a Universidade de Harvard sediará a primeira conferência internacional de estudantes brasileiros de pós-graduação, a BRASCON.

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A BRASCON foi idealizada por 3 brasileiras: Caleara Rosa, Gisele Passalacqua e Vanessa Simões Dias. Em entrevista concedida ao Minas Nerds, Vanessa Dias nos falou um pouco mais sobre a organização da BRASCON, sobre sua trajetória de vida e sua relação com a ciência. Eu e Isabelle Tancioni entrevistamos esta menina lépida e determinada às 7:30 da noite do último domingo e ela ainda estava no laboratório do Instituto de ciências de alimentos e agricultura na Universidade da Flórida onde trabalha.

Carleara e Gisele
Outras duas diretoras gerais da BRASCON: Caleara Rosa (esquerda) e Gisele Passalacqua (direita)

Vanessa foi a primeira pessoa dentro de sua casa a cursar uma faculdade. Filha de mãe solteira, tem na mãe um modelo de garra e determinação, sua mãe que hoje aos 62 anos cursa a faculdade de ciências sociais. Vanessa é o orgulho da família, o fato de nunca ter feito um curso formal de línguas não foi empecilho para carreira que queria trilhar. Vanessa acabou por aprender inglês sozinha para poder cursar o doutorado no exterior.

 

MN: Como foi sua trajetória na ciência?

Vanessa Dias: Inicialmente não tinha intenção de fazer pesquisa. Queria ingressar em cursos associados a Saúde Pública como Medicina e Biologia. Entrei em biologia mas não gostei muito das matérias de Saúde Pública. Ainda no primeiro ano procurei estágio em um laboratório que trabalhava com insetos (controle biológico). Minha orientadora, Iara S Joachim-Bravo, foi uma grande influencia nos estágios iniciais da minha carreira. Ter uma mentora mulher me deixou bastante confortável. Assim que iniciei meu projeto neste laboratório, decidi seguir a carreira cientifica. É o que eu quero fazer pelo resto da vida.

 

MN: Como foi o processo para ingressar no doutorado nos EUA. Ainda mantém vínculo com instituição brasileira? Se sim, qual?

Vanessa Dias: Após o mestrado, fiz meu segundo estágio patrocinado pela ONU na Universidade da Flórida, e nesse período me apaixonei pela Universidade e decidi fazer o doutorado aqui (Universidade da Flórida). Foi então que eu comecei a estudar para o TOEFL e o GRE (graduate record examination) (teste obrigatório para o ingresso no doutorado nos EUA), além de ter que providenciar a documentação necessária para me candidatar ao doutorado aqui nos EUA. Também escrevi um projeto para o Programa do Ciências sem fronteiras que foi aprovado no edital de 2013. Meu doutorado deve acabar em 2017. Ainda mantenho contato com pesquisadores no Brasil. Aqui já recebi e orientei dois alunos brasileiros que vieram fazer estágio na Universidade da Flórida.

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Vanessa Dias no laboratório em que trabalha na Universidade da Flórida.

MN: A sua carreira combina ecologia e controle de pragas. Você tem uma ideia qual a proporção de homens e mulheres que optam em seguir esse caminho?

Vanessa Dias: No Brasil tive uma orientadora mulher, já nos estágios da ONU foram homens, bem como no doutorado nos EUA. Nas ciências agrarias existe uma clara desproporcionalidade de gêneros, mais homens do que mulheres. No estágio que fiz na ONU, por exemplo, as mulheres estavam em cargos de escritório, apenas eu era cientista. Também não existia mulher em cargos de liderança.

 

MN: Você encontrou alguma resistência relacionada a essa discrepância de gêneros na sua área?

Vanessa Dias: Em geral fui bem aceita, sempre me relacionei bem profissionalmente com homens e minhas oportunidades no exterior foram dadas por homens. Mas a gente sabe que mulher sempre tem que se provar mais. Para uma mulher ser respeitada no nosso meio ela tem que ser excepcional. Eu por exemplo já ouvi comentários de que se você é bonita tem mais portas abertas. Por isso acho que ter uma orientadora no inicio da minha carreira foi importante.

 

MN: Você sentiu alguma diferença entre os EUA e o Brasil em relação à ciência e em relação a homens e mulheres?

Vanessa Dias: Sim. Apesar da proporção homens e mulheres ser a mesma no Brasil, há um peso maior em ser mulher. Ainda existe o papel do homem e papel da mulher nos afazeres domésticos por exemplo. No Brasil, há mais machismo, cantadas são tidas como normais. Ainda não existe no Brasil mecanismos implementados para evitar comentários inapropriados e assédio sexual. Já aqui nos EUA, todos os profissionais, incluindo alunos de doutorado, passam por um treinamento de prevenção de assédio sexual.

 

MN: Como surgiu a idéia da BRASCON?

Vanessa Dias: Surgiu de um grupo do Facebook do ciências sem fronteiras. Quem teve a ideia foi a Gisele Ribeiro e temos como objetivo maior o networking entre os alunos brasileiros. Como nunca tínhamos organizado um evento, tivemos que aprender tudo. A diretoria é composta de três mulheres: Caleara Rosa, Gisele Passalacqua e eu. Nós então dividimos a conferência em 4 painéis. Painel 1: mais abrangente de ciências, painel 2: empresas e organizações governamentais que financiam bolsistas, mercado de trabalho no retorno ao Brasil, painel 3: representação estudantil e painel 4: apresentação oral de pôster e discussão de pessoas que foram para indústria e premiação.

 

MN: Em eventos científicos, normalmente, observamos um maior número de homens como palestrantes. Houve alguma preocupação em relação a diversidade dos palestrantes convidados para a BRASCON?

Vanessa Dias: Nós procuramos convidar homens e mulheres, porém quando se procura pesquisadores em cargos de liderança a maioria são homens por isso o quadro de palestrantes da BRASCON, como da maioria dos eventos científicos, ainda reflete essa disparidade.

 

MN: Com base nas suas experiências pessoais, alguma sugestão para quem gostaria de traçar uma carreira cientifica da forma como você esta traçando a sua?

Vanessa Dias: Precisa ter foco, paixão pela ciência e saber fazer seu networking. Eu amo a ciência e pra mim, vir trabalhar (mesmo no domingo a noite) não é um peso, isso reflete na sua dedicação. Com relação ao network, conhecer pessoas e cultivar bons relacionamentos profissionais pode ajudar muito a sua carreira. E manter o foco nos seus objetivos, não ter medo de se expor, todos nós temos medo. Mas para crescer profissionalmente é importante sair da sua zona de conforto.

 

Agradecimento:

Isabelle Tancioni pela colaboração na entrevista e pela revisão do texto.

 

Links úteis:

Quer saber o passo a passo do doutorado nos EUA?

http://gnvbrasil.blogspot.com/2015/04/university-of-florida.html?m=1.

Ciências sem fronteiras

http://www.cienciasemfronteiras.gov.br/web/csf/apoio-ao-bolsista-no-exterior

BRASA

http://www.gobrasa.org/

BRASCON

www.brasconference.org

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/
cientista de profissão