A intensa balada de Nina Simone

Sacerdotisa do soul, deusa do blues, dama do jazz. Fenômeno, força da natureza, espírito livre. Todos estes lados podem ser vistos no documentário What Happenened, Miss Simone?

 POR GABRIELA FRANCO E KELLY CRISTINA NASCIMENTO
Além de arruinar (ou não) vidas sociais através do globo, o Netflix está sabendo ir além do óbvio com suas produções originais, entendendo de vez que para o jogo virar, é preciso subir o nível e ousar um pouco mais. Vejamos o exemplo do recente What Happened, Miss Simone?, produção original sobre a vida de Nina Simone, dirigido por Liz Garbus – que, aliás, também dirigiu o ótimo Com Amor, Marilyn, sobre a intimidade de outra celebridade mítica e controversa.

O documentário sobre Nina, apresentado no Festival de Sundance em janeiro deste ano e responsável por arrancar muitos elogios do público e da crítica, é uma espécie de mergulho na vida de uma cantora que era tão talentosa quanto engajada. Fala de seu lado musical e também de sua pegada mais política. Está longe de ser uma abordagem óbvia sobre uma pessoa ainda menos óbvia.

O filme é dinâmico, muito bem organizado, acurado e conta com entrevistas ótimas de parentes e amigos de Nina, em especial seu ex-marido e sua filha, Lisa Simone Kelly, além da filha do ativista Malcolm X, de quem Nina era bem próxima. Apesar de alguns críticos dizerem que o doc contemporiza a situação de abuso que a cantora sofreu por meio do marido/empresário, isso não é inteiramente verdade. A situação toda é exposta e abordada sim – mas talvez não profundamente quanto mereceria.

Além da infância pobre e sofrida, da juventude trabalhadora e fatigante, Nina foi vítima de violência doméstica ao se envolver com o ex-sargento da policia Andy Stroud, que conheceu na noite, e acabou tendo um grande papel em sua vida. Andy estava decidido a fazer de Nina uma grande estrela, obviamente tirando proveito disso. Casaram-se. Com Andy cuidando dos negócios e empresariando sua carreira, a cantora atingiu a glória em pouquíssimo tempo. Logo estaria tocando no tão sonhado Carnegie Hall, um dos locais mais célebres do mundo, de franca predominância branca, com a casa lotada.

Andy foi INCLEMENTE, tanto como empresário quanto como marido. Marcava inúmeros shows, entrevistas e aparições, agendava projetos e fazia Nina trabalhar à beira da exaustão para garantir a ambos altos padrões de vida. Não havia folgas, feriados ou férias. Além da rotina de trabalhos pesados, Andy começou a ser violento com a esposa. As brigas do casal eram constantes e durante as discussões não era difícil ele perder o controle e surrar a mulher. O ápice aconteceu quando a cantora precisou se refugiar por uma semana na casa de um colega de banda por ter sido surrada na rua pelo marido, na saída de uma casa noturna. Mesmo assim, ainda continuaram juntos por longos anos. Definir Nina Simone como vítima é muito pouco. Isso é só parte de uma vida repleta de diferentes facetas.

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Eunice Kathleen Waymon, nascida em Tryon, na Carolina do Norte, em 1933, poderia ser chamada de muitas coisas. Mas eu, particularmente, gosto de chamá-la de “entidade”, uma presença que substituía qualquer ideia prévia que se pudesse ter dela. Preenchia. Bastava. Nina Simone transcendia. Sua época, seu trabalho, sua mensagem, a mera existência.

Tocava de tudo: jazz, soul, country, gospel, blues e pop music, sempre deixando impressa sua marca, o que fez dela uma intérprete ÚNICA na história da música contemporânea mundial. Mesclava música clássica ao jazz, emprestava arranjos de Bach a músicas de Cole Porter e isso soava diferente, espantoso e magnífico. Os bares, recintos de forte incidência branca, enchiam para assistir à virtuose no piano. Não demorou muito e um de seus patrões disse que se ela quisesse continuar a trabalhar no local, teria que cantar. E foi assim que pianista clássica passou a ser conhecida mundialmente por seus dotes como cantora e não somente por sua destreza ao piano.

Eu, Gabriela, a conheci tarde, na verdade, com vinte e poucos anos, quando comecei a escarafunchar o jazz por conta própria. Descobri juntamente com Miles Davis, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Duke Ellington, Chet Baker, entre outros contemporâneos. Me apaixonei por sua voz contralto, quase um barítono, cheia de personalidade e presença. Já Kelly, nossa Mina Nerd negra e criadora do grupo juntamente comigo, a quem pedi muito encarecidamente que me ajudasse com essa matéria, principalmente pelo ponto de vista da análise do papel da cantora no processo de direitos civis negros nos EUA, teve a cantora em sua vida desce cedo. “Eu cresci ouvindo Nina Simone, e definitivamente a melhor palavra para defini-la é PAIXÃO. A vida toda ela foi movida por paixões avassaladoras.” E foram justamente esses extremos que pautaram sua trajetória.

Aprendeu piano ainda muito cedo, aos 4 anos de idade, com a mãe, que era pastora metodista, tocando nos cultos da igreja. Eram os anos 40-50 e a maioria dessas igrejas eram na verdade missões itinerantes, tendas que migravam de cidade em cidade – e as reuniões eram muito animadas e cheias de música. Nina tocava hinos tradicionais, clássicos do chamado “spiritual” e da música gospel negra. Brilhava e protagonizava. Com tanto sucesso, sua mãe resolveu organizar um recital para arrecadar fundos para a igreja, no qual Nina, entre outras crianças, seria uma das atrações. Tratou de convidar sua patroa branca e esta chamou outras amigas. Uma delas foi a professora de piano judia Muriel Mazzanovich que, ao ouvir a menininha ao piano, logo teve certeza de estar diante de um talento puro e bruto. E resolveu lapidá-lo.

Foi durante esse recital que Nina disse ter tido seu primeiro contato com o racismo latente da época. Contou ela que acharam por bem colocar sua mãe longe dos primeiros lugares da plateia reservados aos brancos. A menina, com apenas 10 anos, disse que não tocaria se sua mãe não estivesse sentada ali na frente, com as outras mulheres 🙂

Por muitos anos ela permaneceu em uma espécie de limbo. Não se ajustava às demais crianças negras, pois estudava piano clássico com uma professora branca e se preparava para ser a primeira pianista clássica negra, coisa completamente fora da realidade de um negro sulista em 1948. Por outro lado, continuava a ser uma criança negra, de “cor de pele diferente”, assim também não fazendo parte da comunidade branca.

Criou um nome artístico e uma persona, para sobreviver à dura rotina de ser mulher, negra e pobre nas noites boêmias de grandes cidades, nas quais começou a tocar para sustentar seus estudos. O primeiro nome veio de um apelido carinhoso que um ex-namorado latino usava para ela: “Niña” (menina, em espanhol) e o segundo foi escolhido em homenagem à sua atriz predileta na época, a francesa Simone Signoret.

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Conforme foi se tornando conhecida, Nina acabou passando por um fenômeno que parece ser o caminho natural da cultura negra: de forma praticamente “imperceptível”, a sua voz impar foi transformada em algo “embranquecido”. A cantora passou a ser disputada por importantes casas de show como o Town Hall de Nova York, sempre com público predominantemente branco. Apesar da carreira bem sucedida, do dinheiro, da fama, sentia falta de um sentido maior e mais profundo no que fazia. Para ela, o papel de mera performer para entretenimento do público já não era o bastante. Não queria ser só mais uma negra tocando para alegrar brancos.

Foi quando estourou o massacre de 1963, um dos mais marcantes do mundo, quando quatro crianças negras foram mortas em um atentado racista Numa igreja batista da cidade de Birmingham, no Alabama, logo após o assassinato do ativista negro Medgar Evers, no Mississippi.

O alarme de Nina despertou. E ela usou toda sua força, genialidade e indignação para a causa negra e dos direitos civis nos EUA, compondo a estrondosa e chocante Mississippi Goddam (algo como Mississippi Putaqueopariu). Com uma letra raivosa e desesperada, retratava de forma crua a situação do negro dos EUA, o que contrastava completamente com seu repertório romântico conhecido até ali. Abalou estruturas e chamou a atenção da mídia nacional e internacional para a questão racial no país.

Foi nesse periodo também que Simone teve contato com os lideres do movimento pelos direitos civis e com a intelectualidade negra da época como o poeta Langston Hughes, que escreveu a letra de Backlash Blues. Nina tambem compôs uma musica baseada na peça To Be Young, Gifted and Black, da escritora teatral Lorraine Hansberry, de quem se tornou amiga intima e com quem aprendeu sobre filosofia, Lênin e Karl Marx. Assim, a cantora transformaria sua arte em política.

Foi nesse exato momento que Simone se aproximou do revolucionário Stokely Carmichael (Kwame Turé) e dos Panteras Negras e passou a declarar seu apoio às alas mais radicais do movimento.

Se existe um ponto no qual a narrativa do documentário tropeça de verdade, aliás, é quando associa o nome de Nina como apoiadora de atos terroristas atribuídos aos Panteras Negras. A edição peca ao ligar diretamente a leitura de um poema em um evento dos Panteras à violência, como se a cantora fosse responsável por um chamado aos ataques.

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O fato é que, ao tomar uma posição tão determinada como mulher e negra, passou a ser negligenciada por programas de TV e casas de shows. Mesmo seu público original, que em um primeiro momento havia se encantado pela voz feminina que entoava baladas românticas, se assustou ao ver que agora aquela voz cantava uma realidade que o mundo preferia ignorar. Criou tensão com parceiros de banda, gravadoras, marcas que a apoiavam – e até mesmo com Andy, que era totalmente contra a mulher tomar qualquer posição por medo que isso comprometesse sua profissão. Nina não quis saber e manteve-se firme ao seu propósito. Separou-se do marido e empresário abusador. Continuou apoiando a causa com toda paixão que lhe era peculiar.

A situação da luta racial nos EUA explodiu com o assassinato de Martin Luther King. Para Nina, meio que foi a gota d’água. A morte de King, sua carreira em franca derrocada, seu casamento acabando. Tudo isso foi o estopim para um esgotamento nervoso. Foi nessa época que decidiu mudar-se para Barbados e depois para a Libéria, na África. Abandonou a carreira e permitiu-se viver as longas e tão sonhadas férias que tanto havia pedido a Andy, vivendo de renda, ao lado da filha já adolescente (o resultado, com brigas homéricas e o posterior afastamento da garota, não foi exatamente o que ela imaginava).

Uma de suas voltas aos palcos, após ter saído do período maníaco-depressivo e ter declarado que grandes festivais de música eram “podres e mercantilistas”, deu-se justamente no célebre Festival de Jazz de Montreaux, em 1976. Foi um show extremamente celebrado e esperado por todos, lotado, e a prima donna o abriu com uma canção emblemática de Janis Ian, Stars, que resume praticamente tudo o que ela gostaria de ter falado sobre o estrelato e fama e a vida de celebridade:

Stars, they come and go
They come fast or slow
They go like the last light
of the sun, all in a blaze
and all you see is glory
But it gets lonely there
when there’s no one here to share
We can shake it away
if you’ll hear a story…

Mais tarde, já em idade avançada, lá pelos anos 1980, após ter declarado que nunca mais pisaria em um palco, que odiava tocar piano, ter caído em míséria e ter tido que contar com o apoio dos amigos para se reerguer, foi que a cantora descobriu que era portadora do Transtorno Bipolar. Em 1993, Simone estabeleceu-se perto de Aix-en-Provence, no sul da França. Sofreu de câncer de mama por muitos anos antes de morrer, dormindo, em sua casa em Carry-le-Rouet, Bouches-du-Rhône, em 21 de abril de 2003, tranquila, porém sozinha, devido a um autoexílio que resolveu se impor.

Intensa, controversa, mas NUNCA hipócrita ou negligente. Nina Simone viveu e deixou sua marca em tudo o que fez. Uma figura histórica. É simbolo de feminismo, de mulher negra forte e atuante, exerceu sua liberdade em tempos repressores e violentos, nos deixando lições incríveis. Quando questionada por um apresentador de TV sobre o que significava liberdade, a cantora sorriu de lado, olhou nos olhos do homem e respondeu: “Liberdade? Liberdade é não ter medo”.

Que belo show essa sua vida, Miss Simone.


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