O Menino e o Mundo é uma bela crítica à sociedade

É muito difícil ver algo brasileiro no Oscar. Alguns filmes até são reconhecidos em outras premiações, mas normalmente não vemos um filme nacional ser reconhecido como O Menino e o Mundo tem sido nos últimos tempos. No recente Annie Awards, a animação de Alê Abreu levou o prêmio de melhor produção independente, ganhando de filmes como As Memórias de Marnie.

Lançado no Brasil em 2013 e nos Estados Unidos em 2015, O Menino e o Mundo conta a história de um garoto que deixa a sua aldeia para ir atrás do pai, que vai para a cidade em busca de um emprego melhor. Com um pouco mais de uma hora de filme e sem falas, O Menino e o Mundo não é uma animação como a que estamos acostumados hoje, e oferece uma experiência bonita com uma proposta simples.

Em uma época em que todos os filmes de animação são digitais, ver traços que parecem ser feitos por uma criança, misturados com recortes de revistas, é algo que chama a atenção. Quando digo “feitos por uma criança” não é uma maneira de diminuir o filme; o desenho é bem feito e combina com a história que está sendo contada. Estamos falando sobre um menino que descobre o mundo e mostrar isso parecendo que ele mesmo está desenhando o que vê é artisticamente bem interessante.

Quando um filme não tem falas, a trilha sonora é muito importante e felizmente o trabalho feito em O Menino e o Mundo não decepciona. As músicas foram compostas por Emicida e encaixam muito bem com as críticas que o filme tenta fazer sobre a sociedade que o Menino está conhecendo.

É óbvio que nesse tipo de filme muita coisa fica aberta para interpretação da pessoa que assiste, o que acaba até enriquecendo a obra, mas, independente das variações, O Menino e o Mundo é uma crítica à nossa sociedade, ao jeito que o capitalismo explora as pessoas e ao que vivemos nas cidades grandes.

A princípio, é difícil para o Menino entender o que é aquela cobra metálica que engole o pai e o leva embora. Ele se assusta com os bares da cidade grande, ele anda pelos trabalhadores sem compreender porque eles passam por tudo isso, ele se encanta com a alegria das pessoas cantando na rua.

É sempre divertido ver essas críticas sendo feitas a partir do olhar inocente de uma criança; nós adultos já compreendemos por que muitas vezes trabalhamos com algo que odiamos, suportamos situações que não precisaríamos em outras circunstâncias. No fim do dia, todos temos contas para pagar e são poucos os privilegiados que podem evitar situações desagradáveis por questões financeiras.

Porém, não vejo o filme como uma forma de O Menino perder sua inocência, e sim de crescer. Apesar de O filme criticar o jeito como a sociedade funciona, o Menino aproveita sua jornada de autodescobrimento; os choques e conflitos são importante para seu crescimento. O longa não carrega nenhum tipo de mensagem pessimista em relação ao Menino.

Agora, além dessa jornada do protagonista, o cunho social em geral do filme é muito forte. Em certo momento, o Menino assiste A um pássaro que nasceu da poluição da cidade lutar contra um pássaro colorido que nasceu da alegria do povo. O segundo pássaro perde a luta e essa cena, pra mim, foi a mais forte. Na minha interpretação, o Menino estava assistindo A algum tipo de repressão policial. Também poderíamos interpretar essa luta entre os pássaros como uma crítica ao ritmo da sociedade, que oprime as pessoas e as deixa infelizes, ou até uma interpretação mais ecológica. São muitas alternativas e isso é muito enriquecedor.

Fico pensando o espaço que um filme assim tem nos dias de hoje. Apesar de não ter feito sucesso no Brasil, O Menino e o Mundo conquistou o público francês, ganhou inúmeros prêmios e agora está no Oscar, uma competição que, apesar das falhas, ainda é considerada a maior premiação de cinema. É um filme minimalista numa época em que, quanto mais tecnologia, melhor. É uma escolha artística perigosa e que pode não ser muito aceita, alguns podem ficar entediados com o filme, mas nesse contexto atual nosso eu diria que sim, é uma obra importante de ser vista. Acho difícil ele levar o Oscar, não só porque não acho que a Academia daria um prêmio para um filme brasileiro, mas porque esse ano ele está competindo com gigantes como a Pixar e o Studio Ghibli. Divertida Mente tem varrido quase todos os prêmios, e não é só porque vem da Pixar (apesar de isso ajudar), mas já comentei aqui no MinasNerds mesmo o quanto o filme é bom (e uma das minhas animações preferidas). As Memórias de Marnie também não é pouca coisa.

Independente de que prêmio o filme ainda venha a ganhar, eu achei O Menino e o Mundo muito bonito e uma experiência muito válida. Mais que merecido o reconhecimento que está recebendo e pra mim, que sou da área de audiovisual, é um orgulho ver um filme nacional mandar tão bem assim.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.