Uma princesa nada indefesa

História de princesa… já deu, né? Calma. Não diga isso antes de ler Ela está em todo lugar, de Cherie Priest!

May e Libby se conhecem na escola e se tornam as melhores amigas. Até aí, nada de novo: quantas grandes amigas não se conheceram na escola? O que há de mágico aqui, além da própria amizade, é que as adolescentes formam uma dupla criativa. May escreve histórias e Libby as desenha. Mergulhadas num universo particular, elas enchem páginas e mais páginas com as aventuras de uma certa Princess X, personagem que criaram logo em seu primeiro contato: a jovem que governa o reino de Silverdale com um vestido rosa bufante, cabelos longos e azuis, All Stars vermelhos e uma katana nas mãos.

Nem May nem Libby fizeram muitos outros amigos, especialmente porque elas não precisavam de outros amigos. Jogavam videogame juntas, liam muitos quadrinhos, assistiam TV e comiam toneladas de porcaria. (…) Uma fazia o dever de casa da outra, e ambas ficavam acordadas até muito tarde com lanternas embaixo dos cobertores (…). Mas, mesmo ocupadas com todas aquelas coisas da vida real, ainda encontravam tempo para se dedicarem à Princess X, carregando seus fichários pesados para a cafeteria, e espalhando as anotações pela mesa e fazendo perfis detalhados de personagens para todos os mocinhos, vilões e as muitas outras figuras que povoavam a terra de Silverdale. A princesa, assim, se tornou o alter ego, o avatar delas e uma nova amiga. [grifo meu]

Capa do livro "Ela está em todo lugar", da escritora Cherie Priest. Uma garota adolescente caminhando pela rua ao lado de um muro com pôsteres da Princess X. Arte de Carol Oliveira.
Ela está em todo lugar, de Cherie Priest. Capa de Carol Oliveira.

O vínculo que se forma entre elas é comovente e fascinante para qualquer pessoa que já teve – ou já quis ter – uma amiga-irmã, ou uma adolescência – solitária ou não – recheada de muita fantasia e arte. É difícil descrever. Nem me identifiquei, né?

Chama a atenção o contraste entre as meninas. May é baixinha, usa óculos fundo-de-garrafa, acabou de chegar a Seatle, vinda de Atlanta, e mora com os pais num apartamento pequeno num prédio velho. Já Libby “parecia uma modelo da Forever 21 mesmo quando tinha apenas 12 anos”. Alta, bonita, talentosa com desenho, endinheirada e estilosa, ela é tudo que May não é, e isso não importa nem um pouco. Em nenhum momento da história vemos qualquer tipo de comparação entre as duas, rivalidade ou insegurança. Elas são diferentes e tudo bem.

O problema é que, logo no primeiro capítulo, Libby sofre um acidente de carro com a mãe, o carro cai de uma ponte e as duas morrem afogadas. É.

Por anos, May sonhou que Libby tinha escapado; que, de alguma forma, teria chutado o vidro do carro que afundava e se libertado, e se arrastado com unhas e dentes para a superfície, em meio à água escura como o breu da noite, com as luzes da cidade cintilando sobre ela como estrelas. (…) Era quando May acordava de súbito, tremendo e chorando, porque nada daquilo tinha acontecido.

Os corpos são encontrados. Há um funeral. Pouco depois, os pais de May se divorciam e ela volta a morar em Atlanta com a mãe. Antes disso, porém, ela visita a casa de Libby uma última vez, apenas para descobrir que o pai da amiga, arrasado, pediu demissão, mudou de estado e doou tudo o que havia na casa – inclusive o conteúdo dos armários da filha, onde estavam guardadas todas as aventuras que May e Libby criaram juntas.

Libby tinha morrido. A Princess X tinha desaparecido.

May continuava perdendo a sua melhor amiga. De novo, e de novo e de novo.

Anos depois, de volta a Seatle, ela vê o primeiro sinal de que essa história ainda não acabou: um adesivo com a figura inconfundível da Princess X. E outro, e mais outro, espalhados por toda a cidade.

Retrato da Princess X. Arte de Kali Ciesemier.
Princess X. Arte de Kali Ciesemier.

Determinada a descobrir quem poderia estar reproduzindo os desenhos da amiga, há tanto perdidos, ela encontra o site www.eusouaprincessx.com, que publica uma webcomic da personagem. A arte não tem assinatura. O site não tem campo de contato. Não há nenhuma pista sobre quem poderia estar usando a personagem, nem por quê. Ou será que há?

A trama dessa popular webcomic não tem nada a ver com as que as duas amigas criavam anos atrás. É uma história nova, sombria, cheia de estranhos símbolos e pontos de contato com a história da própria Libby – e o rosto da princesa é inegavelmente uma cópia do seu. Nem May nem nós, lendo o livro, podemos deixar de pensar: e se Libby não morreu? E se estiver viva em algum lugar, escrevendo essa história? E, se for verdade, por que não se revela como autora? Estará foragida? Estará em perigo? Estará tentando contar o que realmente aconteceu a alguém… a May?

Retrato da Rainha Fantasma. Arte de Kali Ciesemier.
A Rainha Fantasma. Arte de Kali Ciesemier.

Para ajudá-la a descobrir a verdade, a garota recruta Patrick, ou Trick, um hacker atrapalhado que deve ir para a faculdade no ano que vem – só não sabe com que dinheiro. Aos poucos, os dois começam a seguir no mundo real as pistas fornecidas pela webcomic, acreditando que elas os levarão até Libby. No caminho, porém, terão de enfrentar um inimigo desconhecido, muito parecido com o Homem Agulha – o vilão que, na ficção, mata a rainha e sequestra a princesa. May e Trick percebem que terão de ser mais rápidos e espertos se quiserem chegar à verdade antes de se tornarem vítimas.

Mas não estão mais sozinhos. Serão auxiliados de longe por outro hacker, ainda mais habilidoso e subversivo que Trick, identificado, na darknet, como passaroferido ou passaropretobranco – enquanto, na webcomic, a princesa é ajudada pela misteriosa Gralha branca.

Retrato do Homem Agulha. Arte de Kali Ciesemier.
O Homem Agulha. Arte de Kali Ciesemier.

Apesar de se tratar de uma busca por uma princesa perdida, a trama não recorre à ideia da fragilidade. A Princess X da webcomic se defende como pode enquanto vê a rainha assassinada, o rei exilado, o reino em ruínas e seus antigos aliados contra ela. Sai pelo mundo munida apenas da katana, uma boa dose de coragem e a figura etérea da mãe, que se torna sua conselheira fantasma. Os temas centrais são a amizade e a busca pela verdade. May não desiste de Libby nem mesmo quando tudo aponta que a amiga está morta. É em memória de tudo o que compartilharam que ela arrisca a própria vida.

Esta é a primeira incursão de Cherie Priest na literatura para jovens. Longe de ser principiante, ela é autora de diversos livros de ficção científica e terror, com destaque para Boneshaker, um romance steampunk com zumbis indicado aos prêmios Nebula e Hugo, e ganhador dos prêmios PNBA e Locus em 2010. Boneshaker chegou a sair no Brasil com tradução de Fábio Fernandes pela Editora Underworld, mas esta fechou as portas em 2013.

A narrativa de Ela está em todo lugar é ágil sem ser superficial. Não há nada fora de lugar, nem uma única linha que não movimente a história. O estilo é acompanhado com perfeição pelo trabalho da ilustradora Kali Ciesemier, responsável pelas páginas desenhadas do livro. A arte monocromática é de uma simplicidade encantadora, no mesmo tom de roxo em que todo o livro é impresso (inclusive as letras). Acho o desfecho da trama um pouco trôpego, mas nada que estrague a experiência.

O site eusouaprincessx.com não existe, mas você pode visitar iamprincessxbook.tumblr.com, ver algumas das ilustrações do livro e baixar seu próprio adesivo da princesa. E você precisa ver o site da Kali. Virei fã.

A Editora Gutenberg caprichou na edição. Vamos torcer para que ela traga mais obras da Cherie ao Brasil.


Ela está em todo lugar, Cherie Priest, 265 páginas, Editora Gutenberg, 2015. Tradução: Rodrigo Seabra; ilustrações: Kali Ciesemier.


Esse livro foi cedido pela editora para resenha

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Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro "Reino das Névoas, contos de fadas para adultos". Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.