Assédio sexual no meio acadêmico

Nos corredores, nos laboratórios, nas pesquisas de campo, nos escritórios de Universidades e Institutos de Pesquisas ao redor do mundo, o assédio sexual acontece até com certa regularidade. Quem de vocês não presenciou, escutou ou até sofreu assédio nesse meio? Da mesma forma que foi observado pela campanha meu primeiro assedio, muitos casos o assediador é uma pessoa próxima da vítima.

Qual é a incidência?

Pesquisas mostram que comentários e ações inapropriadas de colegas, estudantes, mentores, orientadores e professores acontecem com certa frequência. Um estudo com 124 participantes da área de antropologia, realizado pela  Dra. Kathryn Clancy (professora assistente de Antropologia da Universidade de Illinois) mostrou que somente 22% de mulheres nunca sofreram algum assédio sexual. Nesse mesmo estudo, mostra que o assediador na maioria dos casos estão em cargos mais altos que a vítima.

Para expandir essa análise, um outro estudo realizado pelo mesmo grupo, analisou as respostas de 666 de pessoas (aproximadamente 80% eram mulheres). Esse estudo foi publicado na revista PLOS one e mostrou que 64% das pessoas já tinham vivenciado assédio e 22% disseram ter sofrido algum tipo de agressão física.

A maioria das vítimas foram alunas e pós-doutorandas, e assim como no primeiro estudo citado, na maioria dos casos, o assediador foi um homem com uma posição mais sênior. Resultados desse estudo foram destaque na revista científica Nature e no New York times (versão em português). Endende-se hoje que o assédio sexual deve ser tratado como uma preocupação urgente aos que trabalham em áreas da ciência que exigem trabalho de campo, como os cientistas climáticos.

Assédio, estupro, medo e retaliação

Em outros textos que abrangem este assunto, vítimas de assédio relatam que orientadores não renovaram  a bolsa após a aluna não ceder a comentários com cunho sexual. Outro pediu para que a aluna fosse sua amante fixa, como forma de ingresso no mestrado. Há também casos de estupro, como ocorreu durante festas organizadas pela faculdade de Medicina (FMUSP), onde estudantes relatam que foram estupradas por funcionários ou colegas de faculdade.

Outras denúncias de estupro foram reportadas na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e na faculdade de Veterinária no campus da USP de Pirassununga, neste último, o assediador teria sido o próprio colega de turma da vítima.

Em muitos casos, o simples fato da vítima recusar as investidas do assediador pode resultar em retaliação da vítima. A retaliação acontece quando o assediador tem poder, é importante e conhecido no departamento, na Universidade e na área. Dependendo da influência, o assediador pode prejudicar a carreira da vítima e até promover o encerramento da carreira.

Uma cientista na área de física disse que sua recusa a um pesquisador assediador, rendeu anos de artigos negados. Ela soube por intermédio de colegas que o assediador era responsável pelos obstáculos em sua carreira.

Além do assédio ser a mais grave das causas que determinam um menor número de mulheres na ciência, a retaliação é uma das atitudes que com certeza pode colocar um obstáculo imensurável na carreira da vítima.

O medo faz com que vítimas demorem a denunciar, como foi o caso da estudante da UFScar que fez a denúncia após 2 anos do episódio de assédio. Vítimas ainda podem desenvolver problemas de saúde como síndrome do pânico e transtorno obsessivo compulsivo devido ao estresse decorrente do assédio.

Assédio na ciência nacional e internacional

Após denúncia, o assediador para se defender muitas vezes coloca que a responsabilidade na vítima. Bastante comum, o assediador dizer que a vítima usa roupas provocantes. Vítimas ainda contam que a rede de professores e a Universidade ainda abafem o fato.

Infelizmente, treinamento do corpo acadêmico e estudantil que objetiva a abordagem desse tema na ciência não são realizados no Brasil.

Seminários sobre assédio sexual, quando ministrados, são homens e por vezes pedem para as mulheres usarem roupas mais adequadas para evitar assédio. Funcionários, professores, estudantes e pós-doutorandos da Universidade da Califórnia, onde trabalho, são obrigados por lei a assistir uma aula e recebem um treinamento a cada 2 anos sobre o assunto. Com este material, entendemos como identificar, ajudar a vítima, como como proceder e denunciar.

No entanto, mesmo com procedimentos para combater o assédio sexual, um escândalo devido a denúncia de assédio sexual ocorreu ano passado na Universidade da Califórnia Berkeley. Geoffrey Marcy, astrônomo famoso e conhecido como “Planet Hunter”, pediu demissão após a pressão de muitos acadêmicos e estudantes com a campanha #fireMarcy no twitter. Geoffrey Marcy tinha uma posição vitalícia na Universidade e pelas suas descobertas, seria um possível candidato ao Prêmio Nobel. Ele foi responsável por assediar mulheres estudantes de doutorado e graduação por quase 10 anos. Até então, as pessoas conheciam a fama do professor por conversas em congressos e reuniões.

Interessantemente, no código de conduta ou política relativa a assédio sexual da Universidade da Califórnia não contém punições severas como demitir o assediador após a confirmação de assédio sexual. O fato da saída do professor ter se dado de forma voluntária e não pela consequência de sua demissão gerou grande indignação no ambiente acadêmico das Universidades da Califórnia. Dessa forma, foi criado um  abaixo-assinado que reivindica a implementação de mudanças imediatas ao código de conduta relativa ao assédio sexual das Universidades da Califórnia. Com isso, espera-se erradicar o assédio e agressões físicas e também promover a igualdade de gêneros na Universidade.

No final de janeiro deste ano, a organização National Science foundation (NSF) publicou em nota que não vai mais tolerar assédio sexual nas instituições financiadas pelo órgão. Dessa maneira, eles pretendem prevenir o assédio e erradicar discriminação baseada em gênero na ciência.

Mesmo o assédio sendo considerado crime no Brasil, fica claro que o assédio no meio acadêmico não é tratado com seriedade pela comunidade científica brasileira.

A falta de um código de conduta relativa a assédio que contenha procedimentos e leis sobre assédio na ciência no Brasil, deixa caminhos abertos para atitudes inapropriadas de colegas brasileiros e também de cientistas estrangeiros visitantes.

A nossa cultura “onde aqui se permite tudo” compromete o desenvolvimento de mulheres no ambiente acadêmico brasileiro. Lembre-se que paquera em congresso ou em outros ambientes acadêmicos é diferente de assédio! Consentimento e bom-senso são palavras-chaves para não confundir as duas coisas.

O que fazer? Como lidar? Como erradicar?

Converse com colegas do trabalho sobre a diferença de assédio e paquera. Converse com orientadoras mulheres e mentoras sobre o assunto. Quando presenciar e sofrer assédio diga imediatamente para o assediador que esse comportamento é inapropriado. Discuta e fale com colegas sobre isso. Saiba que você pode denunciar a Universidade e também processar assediador. Reivindique para a comissão de graduação, de pós-graduação, ou superiores de seu Instituto abordarem o tema. Por exemplo: seminário obrigatório como treinamento para todos.

Exija um código de conduta relativa ao assédio que contenha leis e procedimentos claros que expliquem o que assédio, como identificar e como prosseguir. Escute suas colegas que foram vítimas, dê apoio quando precisarem. Crie grupos nas Universidades para debater o tema. Fale sobre professores e orientadores que já cometeram assédio, para evitar que outras mulheres tenham uma má experiência. Converse com colegas homens que pensam que assédio é elogio. Nós precisamos mudar essa cultura. Assédio é crime e não devemos tolerar!

Recomendo a leitura do texto de Gabriela Francohttp://minasnerds.com.br/2015/11/19/somostodasjessicajones/

Fontes:

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Fonte da Imagem de destaque: Wikimedia Commons. Composição utilizando-se 2 imagens: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Study_of_Arms_and_Hands.jpg https://commons.wikimedia.org/wiki/File:DrawingIntellectGirl.svg

Agradecimentos:

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Helen Miranda pela revisão de texto.


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.