Deadpool é divertido, mas…

Eu sei, a grande maioria amou Deadpool, todo mundo foi ver e comentou por todos os lados sobre o filme e eu não quero parecer a “diferentona que só gosta de filme cult” (até porque gosto de filmes de super-herói), mas não posso negar que saí um tanto quanto decepcionada do cinema, com uma sensação de “Foi legal, mas não entendi a hype“. Decidi assistir porque li várias pessoas falando que era o “melhor filme de super-herói” e encontrei um filme que sim, me fez dar risada, mas… Parecia que estava faltando alguma coisa.

O filme, como o título indica, conta a história de Deadpool. Através de vários flashbacks, vemos a história de como Wade Wilson se tornou Deadpool e depois tenta buscar vingança contra o cientista que o torturou, Ajax.

Eu nunca li nenhum quadrinho do Deadpool, o que eu sabia é que ele era um anti-herói e que seus quadrinhos eram conhecidos pelas críticas que faziam, além do personagem fazer piadas bem pesadas e falar muito palavrão. Há quem diga que quem não achou o filme ótimo foi porque não leu os quadrinhos e isso é exatamente o meu primeiro problema com o filme: o roteiro.

Muitas críticas disseram que Deadpool era diferente, que veio pra inovar, mudar os filmes de super-heróis… O que eu vi foi um roteiro muito básico: Cara que quer vingança e precisa salvar a namorada do vilão, junto com uma dose de clichê de “ela não vai me aceitar assim”. Os flashbacks não são tão bem usados, normalmente eu gosto do recurso de flashback/flashforward e no começo do filme funciona, mas depois aparecem tantos que não é difícil se confundir na linha do tempo. De certa forma, me pareceu que a quantidade de flashbacks foi maior do que o necessário para incluir mais conteúdo em um roteiro que não tinha muito.

Ouvi de algumas pessoas que eu não “tinha entendido a história” porque “não li os quadrinhos”. Acontece que as adaptações não foram feitas só para os fãs dos quadrinhos, o filme é produzido para quem leu e quem não leu, portanto precisa funcionar para os dois. Se o filme parece incompleto sem eu ter lido os quadrinhos, isso mostra que os roteiristas falharam ao adaptar a história original.

O protagonista é legal, eu curti o “herói” que fala palavrão o tempo todo, faz piada, etc. Nós pudemos ver um Deadpool com inseguranças, tanto em relação a Vanessa quanto à notícia do câncer, e acho que isso ajudou o personagem, mas parece que ele é o único que teve chance de ter algum desenvolvimento. Todos os outros personagens são muito simples, acabam ficando rasos ou servindo de alívio cômico, até caindo em alguns estereótipos. Seria muito interessante se o filme criticasse esses estereótipos do gênero de super-heróis e do cinema em geral, mas não é bem isso que acontece. Nós sabemos um pouco sobre Vanessa e Ajax, mas sobre os outros é tão pouco que mal dá para se importar com eles. Negasonic e Colossus quase parecem nem se encaixarem direito na trama.

Vamos falar sobre as piadas. É, eu sei: “O Deadpool faz piada problemática mesmo!”, “Isso vem desde o quadrinho!”, etc. Afinal, Deadpool é o engraçadão, ele tem que fazer piada de tudo ou o filme não teria graça, né? Então, na verdade, não. Não dá para falar “O personagem é assim mesmo” e bola pra frente, até porque enquanto tem gente que não se ofendeu, outros vão achar ofensivo – não é porque o personagem é um anti-herói que suas piadas não devem ser problematizadas.

Sempre insisto que o humor não precisa ofender para ser bom e o próprio Deadpool prova isso. Todas as quebras da quarta parede e piadas sobre o assunto eram ótimas, isso foi um dos grandes motivos que fez eu me divertir, apesar dos defeitos. Wade Wilson consegue ser engraçado e ter sua atitude de “não levar nada a sério” sem ativar o trigger de ninguém. Ao mesmo tempo em que Deadpool tenta brincar com os clichês, como nos momentos de músicas de efeito, o filme consegue também cair em vários estereótipos que poderiam ser criticados (eu sei que muita gente diz que a Vanessa é uma crítica da “mulher que precisa ser resgatada”, mas não vi o recurso como crítica).

O filme é divertido, o personagem é engraçado, Ryan Reynolds encarna o papel, há momentos que fazem rir sem serem ofensivos e muita gente adorou o filme, mas para mim Deadpool erra quando quer viver só de um personagem legal e piadas: precisa ter história, um roteiro que funcione e não pode ficar no “se você tivesse lido o quadrinho…”. A adaptação precisa se manter sozinha.

Para algo que se apresenta como “um filme de super-herói diferente”, Deadpool acaba sendo muito igual em vários aspectos. O filme tem seus acertos e diverte, mas não consegui entrar no trem da hype.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.