Projetos exclusivos de mulheres: em pleno 2016, precisamos mesmo deles?

Vamos começar esse texto com um rápido flashback: em 2014 foi lançado o Zine XXX, uma obra coletiva que compilava quadrinhos feitos exclusivamente por autoras. Os temas eram os mais variados possíveis e as artistas, conhecidas ou iniciantes, não importava. A chamada pra envio de trabalhos era pública e a proposta era clara: mostrar o trabalho das minas pro mundo. Foi nessa época que comecei a fazer minhas primeiras tirinhas, e muitas das minhas atuais colegas quadrinistas também.

Quadrinho de Laura Lannes que fazia parte do Zine XXX
Quadrinho de Laura Lannes que fazia parte do Zine XXX

O lançamento consistiu em um bate papo com algumas autoras e organizadoras em uma biblioteca pública de São Paulo. No final do evento, um cara levantou a mão. Ele perguntou se elas não achavam que, ao restringir o seu projeto só a trabalhos de mulheres, estavam sendo injustas com os homens, que tinham tantas dificuldades hoje em dia pra se estabelecer no cabuloso mercado de quadrinhos nacionais.

Agora, avancemos no tempo pra 2015. Foi o ano em que o HQ Mix, que se pretende a maior premiação do quadrinho nacional, lançou uma campanha de divulgação que trazia mulheres seminuas em poses sensuais por trás da frase “vamos bombar” e, como se não fosse o bastante, teve só 13% de finalistas mulheres. Foi também o ano em que a antologia O Fabuloso Quadrinho Brasileiro de 2015 incluiu apenas quatro mulheres dentre os 37 autores publicados.  Alguns meses depois, em 2016, o tradicionalíssimo Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, na França, anunciou seus 30 finalistas para o Grande Prêmio, dentre os quais nenhuma mulher.

As mulheres do meio não se calaram, assim como as autoras brasileiras não se calaram diante do fiasco HQ Mix, e tiveram o apoio dos autores indicados, os quais retiraram suas candidaturas.

Depois de tanta repercussão, tanto a nível internacional quanto interno, era de se esperar que a mídia especializada tivesse aprendido a não mais ignorar a produção de quadrinhos pelas autoras brasileiras, certo?

…Bom, mas não foi isso o que aconteceu.

Alguns meses adentro de 2016, começam a surgir as listas de melhores quadrinhos de 2015. Nessas listas, uma constante é o baixíssimo número de mulheres citadas. Ao serem questionados sobre isso, os responsáveis respondem sempre o mesmo: “Nossas listas refletem o que lemos em 2015. Não temos culpa se não houve produção expressiva de mulheres nesse período. O problema é a baixa quantidade de lançamentos feitos por mulheres no ano passado”.

… Será mesmo?

Esta é uma foto dos lançamentos de autoras mulheres que eu adquiri ano passado, durante o Festival Internacional de Quadrinhos:
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Repito, isso foi o que eu comprei e troquei. Não chega nem perto de ser o total da produção feminina do ano passado. Teve muita, muita, muita coisa que eu não consegui comprar porque esgotou, como foi o caso da HQ Beco do Rosário, da Ana Luiza Koehler.

Certamente não parece ser uma questão de quantidade. Isso fica ainda mais claro quando ampliamos os critérios de quadrinhos impressos para todo o quadrinho produzido por mulheres em 2015, inclusive online (dá uma olhada nas nossas listas aqui, aqui e aqui). Dizer que as mulheres não estão sendo contempladas por premiações e críticas porque não estão produzindo é desculpa esfarrapada e, na melhor das hipóteses, preguiça mental (na pior, desonestidade pura).

Por isso, eu quero voltar praquele dia, em 2014, em que o sujeito disse que as publicações exclusivas de mulheres eram injustas para com os homens, e dizer pra ele: meukirido, injusto é esse mercado retrógrado e a sua crítica supostamente especializada. As mulheres não estão se apoiando mutuamente na produção e publicação de quadrinhos porque produzem menos ou em pior qualidade em relação aos homens, e sim porque elas sequer têm chance de competir quando são sistematicamente ignoradas em convocatórias para publicações e premiações.

E é por isso que, finalizando este texto, vamos falar sobre as melhores publicações coletivas exclusivamente femininas de 2015!

Revista RISCA!

A RISCA! foi organizada pelas mesmas autoras do Lady’s Comics, um site especializado na pesquisa e divulgação da produção feminina nos quadrinhos. A revista reúne entrevistas com autoras, textos e quadrinhos originais sobre mulheres negras e trans na HQ, tema políticos atuais e relevantes como aborto e a história de artistas da época da ditadura. Um trabalho lindo de pesquisa e valorização das quadrinistas de ontem e hoje!

Revista RISCA! acompanhada dos brindes para os colaboradores da sua campanha de financiamento coletivo. Imagem retirada do Instagram do Lady’s Comics (@ladyscomics)

Revista Farpa

A Farpa nasceu com a clara proposta de oferecer às artistas um espaço onde pudessem se expressar livremente por meio da fotografia, da ilustração, do quadrinho, da poesia e do artigo. Segundo a introdução do seu primeiro volume, lançado em 2015, “(…) E é por isso que nós queremos – precisamos de! – uma revista inteiramente e coletivamente feita por mulheres (…). Reconhecemos as dificuldades que a produção de nossas irmãs encontram ao se submeterem a um mercado predominantemente masculino. Não fechamos os olhos para todas as vezes em que o nosso trabalho é minimizado, tratado como coadjuvante, que nossa voz é silenciada, nosso sucesso deslegitimizado, nosso protesto taxado de vitimização”.

O mais interessante de notar foi que a Farpa recebeu mais de 600 inscrições de trabalhos para a sua primeira edição, mostrando mais uma vez que o problema não é a falta de produção feminina, e sim os entraves à sua difusão.

Imagem retirada do Tumblr da revista Farpa
Imagem retirada do Tumblr da revista Farpa

Spam

A Spam é uma coletânea de trabalhos de 5 quadrinistas: Cynthia B., Samanta Flôor, Camila Torrano, Germana Viana e Cátia Ana. A proposta do livro, organizado pela Zarabatana Books, é escapar à representação da mulher construída e produzida no registro masculino.

Mulheres nos Quadrinhos

Os dois volumes do livro Mulheres nos Quadrinhos, originados de uma comunidade do Facebook voltada para a divulgação de tirinhas feitas por mulheres, reúnem histórias curtas e em cores de 22 autoras e dois coletivos.

Capas dos dois volumes do livro Mulheres nos Quadrinhos.
Capas dos dois volumes do livro Mulheres nos Quadrinhos.

Menção honrosa: Antologia Mês 2015

A MÊS, coletivo composto por três autores de Brasília, abriu uma convocatória pública para reunir histórias curtas produzidas em 2015. Dos 22 autores selecionados, 10 são mulheres e um é um coletivo feminista, mostrando novamente que o problema não é a falta de material produzido por mulheres, e sim uma avaliação mais justa desses trabalhos em convocatórias mistas.

Capa da Antologia MÊS 2015. Imagem retirada da página de Facebook da Revista MÊS.
Capa da Antologia MÊS 2015. Imagem retirada da página de Facebook da Revista MÊS.

Vale ressaltar que quatro dos cinco projetos citados acima foram financiados coletivamente, ou seja, arrecadaram os fundos para a sua impressão através de pré-venda na Internet. Essa é só mais uma prova de que existe produção de quadrinhos por mulheres e também interesse em consumi-la. Falta só as editoras, críticos e organizadores de premiações abrirem os olhos pra isso!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.