Resenha: Fronteiras do Universo, de Phillip Pullman

Uma série infantojuvenil com uma protagonista memorável e muito a oferecer aos adultos.

Texto de Val Ivonica.


Capa de A bussola de ouro, de Phillip Pullmann. O rosto de um urso-polar paira sobre uma paisagem de gelo e neve em tons de azul.
Capa de A Bússola de Ouro, de Phillip Pullman.

A trilogia Fronteiras do Universo, de Phillip Pullman, começa em um mundo parecido com o nosso: o mundo de Lyra. Nele, as pessoas têm um daemon (dimon, em algumas edições), uma representação animal da sua personalidade e consciência, que as acompanha por toda a vida. Esse mundo é governado pelo Magistério, instituição que controla a vida das pessoas por meio da política e da religião.

Lyra vive com seu tio, Lorde Asriel, acadêmico e explorador abertamente contra o Magistério. Quando Lorde Asriel parte em uma expedição para estudar um misterioso “Pó” avistado no norte do planeta e um amigo de Lyra desaparece, ela se lança em uma aventura muito maior do que imaginava quando fugiu da Universidade de Oxford, onde vivia.

Ao longo dessa jornada, ela conhecerá personagens incríveis em vários mundos diferentes: ciganos, bruxas, animais falantes e, pasmem, pessoas que não têm daemons! Encontra também Will, um menino do nosso mundo e, ao longo dos capítulos, eles percebem o quanto seus caminhos estão entrelaçados. Mas resumos dos livros você acha facinho no Google. Minha intenção, aqui, é mais falar do que eu achei deles.

Apesar de serem classificados como infantojuvenis, são o tipo de livro que tem muito a oferecer aos adultos. Através de uma narrativa fluida, envolvente e bem amarrada, Pullman descreve sociedades e caráteres com extrema competência, e esses paralelos podem se perder para os mais jovens. O Magistério e a Autoridade (O “Criador”) mesclam ciência e religião para manipular as pessoas. Quem questiona o Magistério sofre sanções de diversos tipos.

Aliás, foi justamente essa crítica às religiões que acabou causando polêmica quando anunciaram um filme baseado em A Bússola de Ouro, o primeiro livro da trilogia. Grupos religiosos se revoltaram, alegando desrespeito à “instituição da Igreja”, apesar de os livros não especificarem que religião é essa. No fim, o roteiro foi bem alterado, as críticas religiosas foram extremamente abrandadas e, talvez por isso, o filme não fez lá muito sucesso quando foi lançado em 2007.

Capa de A Faca Sutil, de Phillip Pullmann. O rosto de um gato paira sobre uma paisagem misteriosa em tons de verde.
Capa de A Faca Sutil, de Phillip Pullman.

Fica também uma dica: leia os livros (ou pelo menos o primeiro) antes de ver o filme. Além de conseguir vivenciar muito melhor esses universos todos com as descrições dos livros, é muito, muito difícil não imaginar Lorde Asriel sem a cara do 007 (Daniel Craig) e a Senhora Coulter morena, depois de vê-la encarnada pela Nicole Kidman loira. Por outro lado, pode ajudar a ver como seria um urso de armadura. 🙂

Meu lado nerd deu pulinhos imaginando os vários mundos. O mundo de Lyra, como praticamente todo “mundo alternativo”, tem uma pegada meio steampunk: dirigíveis no céu, tecnologia avançada lado a lado com aspectos mais antigos, principalmente os arquitetônicos. Presença forte da magia, junto com o desejo de alguns de suprimi-la. Esses mundos são geograficamente muito parecidos também, então, seriam dimensões diferentes? Estariam nos mesmos lugares, mas em “frequências” diferentes? E as passagens que a Faca Sutil abre, seriam portais interdimensionais? Aliás, que faca é essa, que corta qualquer coisa feito manteiga? De onde veio? Seriam os daemons os espíritos protetores que aparecem na cultura dos indígenas de vários países? E esse Pó, que se parece com as nossas auroras boreal e austral? São esses questionamentos, e muitos outros, que passam batido pelos adolescentes (que, teoricamente, são o público-alvo original) e só quem tem um pouco mais de vivência e conhecimento consegue fazer, enriquecendo a experiência como um todo.

Por outro lado, meu lado mãe ficava de coração apertado ao ver crianças de 11, 12 anos (12 anos é criança, digam o que quiserem) sozinhas pelos mundos, tendo que lidar com situações para as quais não estão, obviamente, preparadas. Mas que sim, elas conseguem superar, e aprendem com a experiência (e a dor).

Capa de A Luneta Âmbar, de Phillip Pullmann. O rosto de um grande felino paira sobre uma paisagem misteriosa em tons quentes.
Capa de A Luneta Âmbar, de Phillip Pullman.

E a Lyra? Heroína da melhor estirpe. Não no sentido físico, como temos nos acostumado a ver nos filmes e quadrinhos de super-heróis. O destaque não é para a força, mas para inteligência, bondade e caráter. Para tentar buscar a solução mais acertada, apesar de às vezes ser difícil, muito difícil não ceder à tentação do “caminho mais fácil”. Ouvir a intuição, a consciência, e decidir o que fazer. Ter ajuda dos amigos, sim, mas tomar as rédeas da própria vida. Decidir o próprio destino e, às vezes, o destino dos outros. Tudo isso às vezes parece ser pressão demais em cima de uma pessoa só, mas, se isso não é o que chamamos de vida, eu não sei o que é.

Trilogia Fronteiras do Universo:

1 – A Bússola de Ouro

2 – A Faca Sutil

3 – A Luneta Âmbar

Autor: Philip Pullman

Tradutoras: Eliana Sabino (volumes 1 e 2) e Ana Deiró (volume 3)

Editora Objetiva


Val Ivonica é tradutora, nerd, geek, mãe, química, porquinha prática (sabe o porquinho da casa de tijolo? Então!), fã de livros, filmes, séries, tecnologia, tudoaomesmotempoagora. Mantém o site Tradução via Val, onde fala principalmente de tradução e tecnologia.


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