Somos mais que nossa diversidade!

Quando me indicaram pra esta coluna fiquei meio insegura a inicio, em parte por que minha forma de falar sobre diversidade sempre foi considerada branda ou paciente demais, mas principalmente por que eu não consumo tanto material sobre diversidade.

“Mas você é trans, não seria natural se interessar por material diverso?” sim e me interesso, o problema é que também sou nerd e minha vida é muito mais sobre ser nerd do que sobre ser trans e lésbica – e seria ainda mais se a sociedade lidasse melhor com estas questões.

O fato é como já falei no texto conjunto com a querida da Tomoyo-chan eu sou lésbica, mas não tenho muito interesse em histórias yuri, não é por que eu não me interesse por romance entre meninas, eu adoro, e claro, sinto falta disso nas coisas que consumo… mas eu gosto de guerra também, de naves, robôs gigantes, magia, aventura, fantasia… e aí me vejo tendo de escolher entre uma história unicamente sobre romance lésbico onde isso seja o centro de tudo ou uma história cheia de casais hétero e gente cis, mas que me preenche nos outros pontos.

Claro que temos tido mais representatividade, mas a coisa é tão pingada que quando algo transgride os padrões todo mundo fala/escreve sobre. E sim, eu tenho pautas sobre nerdices agendadas pro futuro, incluindo entrevistas, mas antes de entrar nelas eu queria muito falar sobre o por que não estou animada com A Garota dinamarquesa por exemplo, o por que ainda não me interessei em ver Azul é a cor mais quente ou ler os respectivos livros.

Acho que é parecido com o que falei sobre a poison ano passado… ser fora dos padrões torna nossas associações tão restritas que quando você diz ser homo/bissexual ou trans as pessoas buscam logo uma referencia conhecida pra puxar assunto. Não chega a ser algo ruim ou feio por parte das pessoas, mas é sim uma prova de que nossa cultura e sociedade não nos vê além destes rótulos.

E em geral obras que falam especificamente sobre os dramas e relacionamentos diversos tendem justamente em focar tanto no drama e no fato dessa diversidade nos tornar oprimides que outros pontos de plot tornam-se pouco importantes.

Não estou dizendo que não é bom falar das opressões, dos problemas e de toda a dureza que passamos, se eu achasse não estaria escrevendo aqui. Apenas devemos lembrar que nossa vida vai além disso, que temos pessoas diversas no meio nerd, na polícia, na ciência, nos esportes, praticando hobbies diversos. Então talvez devêssemos escrever sobre diversidade pensando numa atleta que por ventura é trans, e não numa trans que calha de ser atleta só por que precisavam dar uma pano de fundo pra ela.

Também acho importantes as obras baseadas em eventos reais como a Garota Dinamarquesa, mesmo com toda a questão de não colocarem uma atriz trans quando deveriam, e apesar de não estar super animada como muitas pessoas cis tem esperado que eu esteja, ainda pretendo assistir (não no cinema pois só vou pra cinema ver Star Wars e já fazem uns bons anos isso rs gosto de ver meus filmes na privacidade do lar pra poder comentar em voz alta) mas verei sim.

Só que eu como eu disse, sou uma nerd que por acaso também é trans e lésbica e não uma translésbica que eventualmente é nerd. Na pratica ser trans só define algumas coisas na minha vida que me diferenciam de uma moça cis, e ser lésbica só muda por quem me atraio. Mas meus gostos, minhas atividades, meu trabalho e meus hobbies não estão atrelados a estes fatores.

Por isso digo: somos a diversidade, mas também somos muito mais.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3