O que você precisa para ser um(a) cientista?


 

Foi com essa pergunta que me dirigi pela primeira vez às meninas da sexta série de escolas públicas aqui de San Diego, Califórnia. O evento foi criado por um amigo, em colaboração com o Fleet Science Center com o objetivo de inspirar meninas entre 11 e 13 anos que desejavam tornarem-se cientistas.

Quando faço essa pergunta às crianças a resposta é quase sempre a mesma: “Tem que ser inteligente!”. Na verdade a pergunta é mais complexa do que aparenta. A pergunta correta seria: que características intrínsecas você acredita que alguém deve possuir pra se tornar um cientista? A resposta simplista: “inteligência” é tão comum e natural quanto é incorreta. A resposta é sempre a mesma, diversas vezes me dirigi a grupos de crianças como a mesma indagação e nunca falha. Por esta razão tenho sempre na manga uma “contra-pergunta”: Mas a inteligência é de nascença (genética) ou é adquirida?

Existem vários estudos dedicados a esclarecer esse possível determinismo biológico da inteligência. O consenso, porém, é que inteligência é entendida como uma herança multifatorial, ou seja, trata-se de uma característica que sofre influencias tanto genéticas quanto ambientais.

 

Defina Inteligência

Comumente usa-se a definição da Dra. Linda Gottfredson: “Inteligência é termo genérico que representa a capacidade mental que, entre outras coisas, envolve a habilidade de raciocínio, planejamento, resolver problemas, abstrair, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e aprender a partir de experiências. Não se trata meramente de aprendizado de livros, da limitação a habilidades acadêmicas, ou do talento para se sair bem em provas. Ao invés disso, é um reflexo de uma ampla e profunda capacidade de compreender os nossos arredores, fazer sentido das coisas a nossa volta, e descobrir o que fazer.”

Portanto, se considerarmos essa definição muito mais ampla de inteligência, como medi-la? No livro “A falsa medida do homem” (The mismeasure of man) de 1981 – revisado em 1996 – o autor Dr. Stephen Jay Gould, faz um histórico sobre o desenvolvimento de estudos na área de avaliação de inteligência. Gould, apresenta uma discussão detalhada de diferentes métodos estatísticos e a evolução dos estudos do intelecto. Neste livro, Gould também faz importantes críticas aos motivos culturais por trás de diversos estudos sobre determinismo biológico intelectual. Historicamente, é conhecido que estudos tendenciosos foram publicados com o objetivo de justificar diferenças socioeconômicas. Principalmente entre diferentes grupos sociais em relação à gênero, raças e classes, na tentativa de demonstrar que estas distinções seriam herdadas e nossa sociedade seria um reflexo direto da biologia.

 

Vamos falar de estereótipos

Apesar de muitos desses estudos já terem sido desqualificados, inclusive por estudos posteriores que apontaram suas falácias, ainda impactaram negativamente velhos conhecidos estigmas sociais que reforçam estereótipos. No livro “Whistling Vivaldi: How Stereotypes Affect Us and What We Can Do (Issues of Our Time)” de 2011 o autor, psicólogo Dr. Claude M. Steele aborda como os estereótipos, principalmente racial e de gênero, afetam nosso dia-a-dia e nossa performance acadêmica. Por exemplo, um estereótipo conhecido é de que mulheres são “piores” em matemática do que homens. Interessante, quando meninas são confrontadas com testes em matemática avançada, o simples fato de “lembrá-las” que elas pertencem ao sexo feminino antes do teste (como marcar “sexo: *feminino X masculino” no topo da prova) faz com que sua performance seja pior que a de indivíduos do sexo masculino. Se por outro lado, a característica “gênero” não for salientada, a performance das meninas passa a ser igual ou melhor que a dos meninos.

Este fenômeno é chamado por Steele de “ameaça do estereótipo”. Segundo Steele, todos nós temos consciência da nossa identidade social, sabemos o que a sociedade espera de nós. Essa identidade é baseada em nosso gênero, raça, classe social por exemplo e diretamente influenciada pelos estereótipos sociais que essas características carregam. Em “Whistling Vivaldi”, Steele descreve estudos que correlacionam o pior desempenho acadêmico das minoras norte-americanas com os estereótipos atribuídos a estas minorias. Um exemplo disso foi discutido pelo físico e apresentador da série cosmos o Dr. Neil DeGrasse Tyson que diz em um vídeo que as pessoas o desmotivavam, quando ele dizia que queria estudar astronomia, uma vez que o esperado de um jovem negro seria jogar basquete.

 

Como se “tornar” inteligente?

Estereótipos, formação educacional, ambientes familiares são apenas alguns dos exemplos de influências ambientais sobre a inteligência. As formas de medir essa inteligência como: fator geral de inteligência (fator g) ou o famoso, quociente de inteligência (QI), também já foram alvo de diversas críticas. Por isso, ainda é valida a premissa de que, sim, existem pessoas com diferentes níveis de inteligências, mas o que determina o sucesso intelectual do indivíduo é o quanto este indivíduo investe e se aprofunda no que deseja se especializar.

Voltando à pergunta do título, que neste momento pode até ser reformulada para: “O que você precisa para ser um(a) especialista (em qualquer coisa)? Minha resposta às crianças é sempre a mesma: precisa ser curiosa(o)! Para garantirmos nossa futura geração de cientistas, precisamos estimular a curiosidade natural das nossas crianças. Em outro vídeo Neal deGrasse Tyson se dirige a uma garotinha de 6 anos que pergunta como alunos de primeira série podem ajudar o planeta. Tyson a encoraja a dizer aos pais, quando a proibirem de brincar na poça d’água por exemplo, que este é um experimento cientifico e que ela quer se tornar cientista quando crescer. A mensagem é simples, que deixemos as crianças satisfazer sua curiosidade natural afim de que a alimentem e se tornem ainda mais curiosas.

 

De especialistas a gênios

Minha resposta aos adultos: curiosidade e paixão! Todos nós somos apaixonados por algum assunto, alguma matéria, alguma coisa. Nossa paixão por algo nos leva a dedicação. Todos os cientistas geniais que tive o prazer de conhecer até hoje me provaram isso. Todos se revelaram apaixonados pelo que fazem e descreveram milhares de horas de dedicação ao que nós chamamos de trabalho.

Para nós cientistas, este trabalho nada mais é que a satisfação da nossa curiosidade natural, da nossa paixão por conhecimento sobre determinado fenômeno, que nos leva a dedicação. Às vezes dedicação de uma vida inteira, para contribuir com mais conhecimentos a cerca do fenômeno em questão.

Portanto, por uma sociedade com mais conhecimento, mais ciência e mais especialistas, vamos estimular a curiosidade, valorizar a dedicação, alimentar a paixão da nossa população ao invés que tentar estratificar as pessoas por medidas arbitrarias de inteligência.

 

Quero saber mais

Deary IJ. Intelligence. Curr Biol. 2013 Aug 19;23(16):R673-6. doi: 10.1016/j.cub.2013.07.021.

Gould SJ. A falsa medida do homem (The mismeasure of man). 1996

Steele CM. Whistling Vivaldi: How Stereotypes Affect Us and What We Can Do (Issues of Our Time). 2011

 

Agradecimento

Isabelle Tancioni  pela revisão do texto

 

 

 


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/
cientista de profissão