Entrevista com Linoca: ilustração, arte de rua, cabelos crespos e periferia

A arte de rua, desde os anos oitenta, tem sido o caminho de diversos artistas até as galerias. Hoje, temos galerias que são especializadas em street art, aliás. Acredito que esses artistas, pelo menos do meio das artes, superaram o status de marginais, no sentido mesmo da contravenção que o estado continua impondo na repressão e na manutenção das paredes limpas.

Linoca é uma ilustradora que começou a se expressar artisticamente nas ruas. Conheci seu trabalho no site do coletivo feminista Nós, mulheres da periferia, que recomendo muitíssimo, e decidi bater um papo com ela sobre arte, arte de rua e artes na periferia. Este não é um texto sobre uma história de superação, ou esse tipo de lenda da meritocracia, mas sobre uma mulher que decidiu trabalhar com artes, mesmo com tudo contra, e encontrou apoio em sua família, em coletivos e em parceiras e parceiros, além da sua própria força de vontade e talento.

Quando você descobriu que queria trabalhar com artes?

Desde pequena eu sempre busquei lidar com coisas que ajudassem a explorar a minha criatividade, então passei na infância por experiências de criar as roupas das bonecas até desenhar muito em qualquer papel ou parede e enlouquecer minha mãe (risos). Porém, no ensino público, em geral, isso é pouco explorado, na escola eu tive poucos meios de desenvolver práticas artísticas. Com o passar do tempo e com alguns cursos que fui fazendo, fui me redescobrindo e conhecendo meios de ativar essa criatividade interna.

Mas posso afirmar que em 2008, quando comecei a pintar na rua e fiz alguns workshops com grafiteiros, me senti tocada a transmitir coisas para outras pessoas e a desejar estar dentro do ambiente das artes. Nesse período passei a participar desse círculo, de certa forma, a rua sempre me inspirou muito e ainda inspira! Depois cursei a ETEC, primeiro estudei Design de Interiores e depois Comunicação Visual. Em Comunicação Visual, no ano de 2012 até 2013, eu consegui desenvolver meu trabalho de modo mais íntimo, já conhecia algumas técnicas e me sentia mais livre para aplicá-las, foi quando surgiu a fanpage Linoca, inclusive.

Linoca
Linoca

Quais as dificuldades que quem quer trabalhar com artes e mora na periferia enfrenta?

São várias, especialmente por ainda ser difícil falar de arte na periferia, o diálogo é difícil e não condiz com a realidade daquele lugar, a periferia ainda não tem um acesso direto ao universo artístico e a objetos de arte. Embora existam museus abertos aos finais de semana e gratuitos, não há estimulo para conhecê-los, a maior parte dos acervos são distantes ou hostis e se limitam a um público específico que é a menor parte da população e que tem mais poder aquisitivo. Então, viver na periferia e trabalhar com artes é passar diariamente por um processo doloroso, às vezes parece que a sua cabeça vai explodir, a maioria das pessoas que estão na periferia não querem saber se o Hélio Oiticica fez uma bandeira com o cara de cavalo morto, elas querem sair logo do trabalho que as joga em uma rotina absurda e cansativa e ver TV em casa para poder esquecer que precisam voltar ao batente no dia seguinte. Outros problemas são ligados aos valores, materiais de arte são caros, tintas, pincéis, suportes, e aqui só cito três coisas, e você precisa conhecer técnicas para se descobrir na arte e para isso vai precisar gastar. Quem trabalha com street art também não fica atrás, uma lata de spray barata custa em média dez reais. A distância dos espaços artísticos também compromete o artista quando falamos de mobilidade, em São Paulo a mobilidade urbana nos favorece, pois hoje podemos chegar de uma ponta a outra da cidade, mas isso não ajuda quando você só poderá produzir e ser reconhecido no meio das artes se provavelmente precisar se mudar ou estar em constante diálogo com as pessoas de bairros como a Vila Madalena, onde está uma parte das galerias. É ótimo ter um bairro onde se cheire a arte, mas isso também precisa se espalhar para outros locais. Alguns dos artistas que vieram da periferia acabam se mudando para o centro da cidade ou locais de mais fácil acesso ao metrô por conta disso. Ateliês coletivos ou espaços para se montar um ateliê são mais fáceis de serem encontrados na zona central. Atividades que possam dar visibilidade e reunir outras pessoas, cursos, e todo esse habitat do artista ainda está afastado da periferia. Me lembro que quando prestei FUVEST eram exigidos alguns livros de leitura obrigatória para a prova específica, apenas dois estavam disponíveis nas bibliotecas próximas de casa, os outros estavam na região central, os cursos que fiz voltados para a arte eram e ainda são quase todos na região central. Me lembro que em 2009 ao me inscrever para a prova e consultar os cursos eu me perguntava: Por que é que ETEC deixa apenas cursos como Administração ou Secretariado para a periferia mas colocam Design de Interiores ou Gráfico (na época) para o centro?

Linoca em ação
Linoca em ação

É importante se organizar (em coletivos, grupos ativistas, etc) para superar essas limitações?

Sim! Ninguém é obrigado a participar de nada, eu mesma não participo atualmente de nenhum coletivo, mas dialogo com vários grupos e aprendi com muitas pessoas e parceiros, desde que comecei a lidar com arte. A forma que o outro trabalha, se organiza e lida com suas dificuldades ajuda muito e influencia o seu trabalho. É bom ter alguém para dividir opiniões, alguém que possa te ouvir, sugerir e criticar.

Hoje, vejo o quanto aprendi ao conhecer as meninas do Sarau Antene-se, o Coletivo Livros ao Vento, o Espaço Comunidade, Casa das Crioulas, a galera da Revista Vaidapé, Editora Capão Redondo, Programa Empoderadas e outros grupos ativistas e artistas. São parceiros ou pessoas com quem tive parceria e ainda me ensinam muito diariamente. É importante estar aberto à troca.

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ilustração de Linoca

Como foi sua jornada até conseguir sua formação?

Eu estudei no ensino público até o curso de Comunicação Visual, então passei por três escolas durante o período de ensino fundamental e médio, a última escola era uma escola considerada escola modelo entre algumas públicas e isso foi bom para que eu conhecesse outras pessoas e outros universos diferentes do meu, me abriu também para o convívio com o espaço acadêmico posterior. Quando cursei Design de Interiores era bem difícil, felizmente, por ser em uma instituição pública, o curso era grátis, mas os materiais eram bem caros, eu trabalhava e estudava, chegava mais tarde devido ao trânsito e os finais de semana eram os dias que me restavam para me dedicar aos trabalhos, então meu rendimento era menor que o dos outros alunos. O curso também tinha muito de exatas e eu tive um pouco de dificuldade, eu tranquei no último semestre e fiquei pelos meses seguintes estudando sozinha, todas as semanas visitava museus e exposições, adquiri livros, lia revistas e artigos, queria tudo o que podia me colocar mais próxima do design e da arte, voltei no semestre seguinte e me senti mais solta e próxima do curso, o ambiente ficou menos hostil e consegui concluir. Meu TCC não foi bom, mas eu me sentia mais ligada àquilo tudo e, felizmente, consegui enfim entender de matemática (risos). Em 2012, comecei Comunicação Visual, no primeiro semestre foi difícil, porque o trabalho da época era muito puxado e eu estava constantemente com a imunidade baixa, então isso tirava o foco das aulas e eu acabava faltando devido ao cansaço. Depois desse semestre mudei de emprego e o período que estudei anteriormente me ajudou muito. Mesmo trabalhando e estudando, consegui ter um bom rendimento ali até a conclusão do curso. Atualmente curso Artes Visuais na Belas Artes e sou uma das poucas alunas da sala que trabalham, o meu rendimento é muito bom, acredito que isso se deva às experiências anteriores e aos estudos, workshops e cursos que venho fazendo desde Comunicação Visual. Provavelmente se hoje esse fosse meu primeiro curso e/ou estivesse nas situações dos trabalhos anteriores eu seria uma péssima aluna e motivada a desistir…

ilustração de Linoca
ilustração de Linoca

Qual é o principal foco ou tema do seu trabalho? Quais são suas influências?

Hoje meu trabalho aborda a representatividade feminina e afro-brasileira mas quero conseguir ir além e explorar também a cultura indígena dentro disso, até por ter raízes dentro dela.

Antigamente citaria influências que seriam basicamente de artistas de street art, hoje isso mudou um pouco, vejo que as influências que tenho vão desde os clássicos como Picasso, Frida Kahlo, Egon Schiele, especialmente o Egon que me influencia e me ajuda a lidar com o corpo humano de outra forma, e Basquiat. Fora desse universo tenho no Brasil o Carybé, Mestre Didi, o Rubem Valentim.

Dentro da street art vejo muitas coisas da Miss Van, ela me inspira muito pelos traços e a Lady Pink pela sua atitude, gosto dos Gêmeos, da Magrela e venho acompanhando muito da produção do Derlon.

Mas olha, tenho conhecido muitos artistas que lidam com temas semelhantes aos meus e estou passando por um momento de bombardeio artístico diário, tá uma loucura, tem muita gente boa produzindo coisas mundo afora.

ilustração de Linoca
ilustração de Linoca

Quais os suportes que você usa? Pretende fazer quadrinhos?

Atualmente faço pintura em parede, tela, madeira e papel e também desenvolvo alguns trabalhos de serigrafia, espero poder utilizar outros materiais como tecido e fazer algumas colagens futuras. Eu fiz um fanzine, que se chama pecados capitais, foi uma experiência bacana, adoro HQ’s mas a minha experiência com quadrinhos foi diagramando, eu gostei bastante mas ainda não pensei em ilustrar um, mas é uma possibilidade que nunca excluí, quem sabe um dia. Talvez algo numa linha infanto-juvenil se encaixasse bem com o que produzo.

street art
street art

Quais são seus projetos no momento?

Além dos meus trabalhos, atualmente estou seguindo com o Projeto Ayomide, onde por um ano vou receber relatos de pessoas sobre a relação delas com seus cabelos, a ideia é inspirar outras pessoas a se sentirem livres com seus cabelos, sem padrões impostos e a usá-los naturais ou até mesmo com química, desde que seja por vontade própria e não por uma imposição social. No ano que vem haverá uma atividade para o público como encerramento do ciclo. E estou no processo de desenvolvimento da minha primeira exposição individual nos próximos meses.

ilustração de Linoca
ilustração de Linoca

Quem quer conhecer ou adquirir um dos seus trabalhos, onde consegue?

Na fanpage é possível acessar os trabalhos e adquirí-los: www.facebook.com/linoca.art

Também tenho postado muita coisa no Instagram, lá eu deixo processos do que vou produzindo, oficinas e um pouco da vida pessoal também: www.instagram.com/linoca.art

E há um blog, que vinculo com o facebook, onde posto textos sobre meu trabalho, a questão da mulher afro-brasileira e outros temas: www.linocasouza.wordpress.com

Que outras meninas você indicaria com trabalho semelhante ao seu ou que você admira?

Recomendo os trabalhos da Mag Magrela, Panmela Castro, Criola, Crica, Negahamburguer, Laís Gomes da Umbigo Sujo, Carolzinha Teixeira, Micha Oliveira do Teenage Micha, a grafiteira Fôlego, Sista Katia…

Consigo lembrar delas agora, mas há muitas outras mulheres incríveis produzindo diversos trabalhos, espero conhecer muitas outras!

ilustração de Linoca
ilustração de Linoca

Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Roberta AR

Gosto de escrever (o que acabou virando trabalho) e de café. Participo da cena de quadrinhos independentes desde 2007, atuando principalmente na divulgação e na produção. Também sou zineira e escritora.