Investigação do caso do paciente humano com células tumorais de outro ser

Pensar que seu corpo possa abrigar outros seres com aparência de alienígenas como vermes, ou apresentar células tumorais pode ser assustador. No entanto, imaginar que seu organismo possa conter focos de células tumorais pertencentes de outro ser (definição do latim para alien) é muito mais que horripilante. Este paciente poderia ser investigado por uma equipe mista composta pelo Dr. House e integrantes do Arquivo X.

Este caso foi publicado no final do ano passado na revista científica de grande destaque na área medica, New England Journal of Medicine. Nesta publicação, uma equipe composta de cientistas e médicos dos Estados Unidos e da Colômbia descreveram pela primeira vez um homem com câncer originado de células tumorais não humanas. Os focos tumorais foram detectados em diversas regiões da cavidade torácica e também no fígado e na glândula adrenal de um paciente portador do vírus da AIDS. A maioria dos nódulos não aumentaram de volume, com exceção do nódulo presente no linfonodo na região do pescoço. O paciente recebeu medicação anti-helmíntica, antifúngica e antiretroviral. Infelizmente, o paciente apresentou insuficiência renal e faleceu após 4 meses da manifestação dos sintomas.

 

Histórico e descrição do caso:

Um homem colombiano de 41 anos, diagnosticado com AIDS há 9 anos, apresentou sintomas de perda de peso, febre, tosse e cansaço.

O sangue do paciente continha um baixo número de linfócitos T CD4+ (células que são afetadas pelo vírus da AIDS) e alto número de cópias do vírus, indicando a progressão da doença que leva a imunossupressão. O exame de fezes constatou ovos de Hymenolepis nana e de cistos de Blastocystis hominis que indica que o paciente está infestado com verme e ainda possui infecção por protozoário. Hymenolepis nana é um parasita que vive no intestino de humanos e é considerado uma tênia anã. Não tem hospedeiro intermediário, assim a larva penetra na mucosa humana e assim forma o cisticerco que se desenvolve no verme adulto que é liberado no intestino. Resultados de tomografia mostraram nódulos no pulmões e fígado. O linfonodo cervical removido apresentou massas nodulares de aspecto anormal. Análise da biópsia dos nódulos localizados no pulmão mostrou infiltração de células atípicas, pequenas (células menores que glóbulos vermelhos) e algumas células com mais de um núcleo. Foi possível visualizar através do exame do tecido, a presença células proliferativas (figuras mitóticas) e invasão de algumas destas células em vasos sanguíneos e linfáticos, indicando propriedades infiltrativas. Além disso as células presentes nos nódulos pareciam mais com células tumorais, uma vez que invadiam o tecido do hospedeiro.

 

De quem são aquelas células pequenas? Como o mistério foi desvendado.

Estas células foram consideradas negativas em relação à expressão de proteínas que são altamente expressas em células tumorais humanas, como vimentina e citoqueratina.

Inicialmente suspeitou-se de infecção por Myxogastria. No entanto, essa possibilidade foi descartada, uma vez que exames de histoquímica demostraram que o tecido foi positivo a reação com anticorpos que reconheciam várias proteínas de tênia, indicando que aquelas células eram do verme. Embora não havia nenhuma semelhança com cistecerco (estágio de desenvolvimento do verme).

Análises de sequência de DNA das células presentes nos nódulos mostraram ser da tênia Hymenolepis nana. Os pesquisadores ainda identificaram a presença de mutações no DNA destas células. Infelizmente, os pesquisadores não conseguiram cultivar as células dos nódulos in vitro, material precioso, que possibilitaria mais investigações científicas. A existência de um tecido desorganizado, com presença de células atípicas, proliferativas e com características de agressividade (infiltração) e alterações genéticas indicam fortemente o diagnóstico de câncer (neoplasia).

 

Câncer não é exclusivo de humanos

Não só humanos, como animais (cães, pássaros, tartarugas, peixes…) e até invertebrados (planárias, hidra…) podem ser diagnosticados com câncer.  No entanto, este foi o primeiro caso descrito sobre tumor proveniente de uma tênia.

Implantações de células tumorais de uma espécie em outra (modelos xenográficos), como por exemplo, a injeção de células humanas em camundongos com o sistema imune comprometido, são realizados com frequência em testes que avaliam a ação de drogas antitumorais.

Isso mostra que um organismo pode albergar células tumorais de outras espécies quando o sistema imune não está funcionando bem. Em um organismo que o sistema imune está intacto, as células tumorais são eliminadas. Neste caso, o organismo do paciente portador do vírus da AIDS, que provoca imunodeficiência, não foi capaz de promover a regressão das células tumorais alienígenas. Além disso, os autores discutem a possibilidade da falha do sistema imune propiciar um ambiente instável, promovendo a transformação de células normais em células tumorais. Eles ainda verificaram que o tratamento com anti-helmíntico não foi capaz de promover a regressão das células tumorais, mostrando ser ineficaz às células transformadas da tênia.

Muitas perguntas ainda precisam ser respondidas: As células tumorais presentes no verme invadiram o paciente humano ou as células do cisticerco se transformaram? Quantos outros casos podem existir? Será que há erros de diagnóstico e casos como este, podem não ser tão raros assim? Muito provavelmente, muitos Drs. House e cientistas espalhados pelo mundo irão fornecer essas respostas. A verdade está lá fora e também dentro nós!

 

Fontes:

Clique nas palavras em negrito.

Link para o artigo que descreve o caso: http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1505892#t=article

Imagem destacada: http://thegeekiary.com/wp-content/uploads/2016/02/X-Files.png

Agradecimento:

Helen Cristina Miranda pela revisão de texto.


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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.