O balanço da décima temporada de Arquivo X

Seis episódios exibidos em cinco semanas – passou rápido.  Valeu a pena desenterrar Arquivo X depois desse tempo todo?

Os dois primeiros episódios acordaram o fanboy dentro de mim, mas uma coisa me decepcionou: Mulder e Scully foram reapresentados como eram no começo da série, sem evolução alguma em suas personalidades. Mas o terceiro veio e foi todo calcado em como Mulder absorveu um pouco ceticismo da Scully e em como ela está mais aberta ao inexplicável.

No quarto episódio (Home again), vimos duas storylines: a primeira seguindo o monstro da semana, o Trash Man, um ser materializado da imaginação de um artista e que extermina os responsáveis pelo sofrimento de pessoas que vivem à margem da sociedade. Foi um ótimo monstro da semana e extremamente atual, evocando Bansky e sua arte que analisa a sociedade capitalista de hoje. Num determinado trecho, o artista diz:

As pessoas na rua, os sem-teto, eles não têm voz, certo? Eles são tratados como lixo. Quer dizer, lixo de verdade. É assim: você joga fora seu copo de café, ou sua garrafa de refrigerante, na lixeira certa debaixo da pia. Recicláveis aqui, lixo ali. Você fecha o saco de lixo, leva pra fora, coloca nas lixeiras corretas. Dá um tapinha na cabeça, você é uma boa pessoa, certo? Você fez a coisa certa, lutou contra o aquecimento global, você ama todos os animaizinhos. Sexta vem, talvez quarta, o lixeiro leva embora o lixo. Não é seu problema mais. Mágica! Mas é problema seu, porque tudo vai empilhando no aterro. E o plástico libera toxinas na água e no céu. Mas se você não vê o problema, não existe problema, certo? Pessoas tratam pessoas como lixo.

Trash Man: Horripilante

A segunda storyline focou em Scully quando ela recebe a notícia de que sua mãe está em seus últimos momentos, mergulhada num coma. Questões relativas à sua própria maternidade emergem e a direcionam ainda mais para o seu filho perdido, William. Foi interessante a convergência das duas tramas na ideia de que Scully descartou seu filho como lixo e queria afastá-lo como um problema inoportuno.

O quinto episódio (Babylon) brincou ainda mais com as personalidades de Mulder e Scully ao colocar os dois para interagirem com versões jovens deles mesmos. Fomos apresentados à agente Einstein (Lauren Ambrose – sim, a Claire de Six feet under!), uma ruiva cética, e ao agente Miller (Robbie Amell), bem mais aberto ao sobrenatural.

A trama sobre um atentado terrorista é apenas um pretexto para vermos dois times tentarem resolver o mesmo problema com abordagens diferentes: Scully e Miller pelo lado da ciência, Mulder e Einstein pelo viés metafísico. A chave para solucionar o atentado e impedir outro seria tentar falar com um terrorista que está em coma. O time da ciência quer monitorar as ondas cerebrais e buscar respostas nelas. O time metafísico quer usar poções xamânicas para atingir um estado alterado e conversar diretamente com o terrorista.

A história também é um pretexto para uma longa cena de alucinação de Mulder, que prova que a série veio mesmo para fazer fan service ao mostrá-lo em situações engraçadinhas, além de resgatar personagens queridos (os Lone Rangers). Ao final, também se mostra um episódio atual, filosofando sobre religião e terrorismo.

Assim chegamos à finale, que foi bem ousada e totalmente diferente do que eu esperava.

Uma doença começa a se espalhar e o primeiro a dar o alarme é o apresentador de TV, Tad O’Malley, que conhecemos no 1º episódio desta temporada. Ninguém lhe dá ouvidos porque ele é um conhecido propagador de teorias conspiratórias. Mas Scully já teve provas de que existe algo de verdade no que ele fala, e começa a investigar o que seria o começo de uma epidemia global ao mesmo tempo em que procura Mulder, que está desaparecido.

Sua busca acaba cruzando caminho com a agente Reyes (Annabeth Gish), que foi uma dos titulares dos Arquivos X quando David Duchovny e Gillian Anderson se afastaram da série Mulder sumiu e Scully se afastou do trabalho no FBI. Ela, que agora está envolvida com o supervilão Canceroso, revela que a epidemia global é real e que havia se iniciado aos poucos em 2012 (a data da invasão revelada na série, há mais de uma década).

Ei ei, você se lembra da minha voz? Ela continua a mesma, mas meu nariz…

O episódio é prejudicado pela longa parte expositiva, em que Reyes explica didaticamente os detalhes da epidemia, bem como o que aconteceu ao agente Mulder. Uma mudança na forma como este episódio foi estruturado resultaria num timing bem melhor (por exemplo, revelar Monica aliada ao Canceroso bem antes, lançando dúvidas sobre o seu caráter; mostrar Mulder sendo confrontado pelo emissário do Canceroso, para só depois ele revelar suas intenções, etc).

Vendo um episódio em que uma epidemia apocalíptica está acontecendo, fiquei com a impressão de que, no final, a produção ficou sem orçamento. Quase todo o episódio é filmado em poucos cenários e a proporção do começo do fim do mundo só é percebida nos diálogos e nas cenas de hospital cheio de gente doente. Somente no finalzinho vemos algumas cenas de uma Washington caótica.

Outro defeito: a forma rápida como Scully e Einstein encontram uma solução e fabricam a vacina, com processos de replicação de DNA alienígena que não parecem ser tão simples e imediatos como apresentados. Depois, com Mulder quase morto, Scully ainda solta um: “Ah… pelo jeito vamos ter que localizar nosso filho que não vemos há uns 15 anos, e depois fazer um transplante de células-tronco em você, tudo isso em no máximo algumas horas.”

Assim chegamos ao ápice da trama: a epidemia, o caos, a “invasão” prometida pela série. E não apenas isso, no meio de milhares de pessoas, em plena Washington DC, um OVNI faz uma aparição.

Esse foi a aposta mais ousada de Chris Carter até agora – não é à toa que ele deixou para o final. Durante toda a série, as aparições de OVNIs e as provas de suas existências sempre se limitaram a poucas testemunhas, que desapareciam ou não contavam o que viram. Essa aparição da última cena é um total game changer na série e foge de tudo o que já havia aparecido até então.

Mais ainda: promover um verdadeiro apocalipse através da disseminação de uma doença (trama já usada em outra série de Carter, Millennium, mas perdoamos você, Chris) é contar ao mundo o que Mulder sempre quis revelar: a conspiração alienígena (com aliens ou homens usando tecnologia alien). Esse clímax trouxe aquilo por que esperamos durante toda a série. Mas não faço a mínima ideia dos rumos que a trama vai tomar a partir de agora e seus reflexos nos comportamentos dos personagens; especialmente Mulder que tinha todo o seu heroísmo baseado na descrença das pessoas e até na sua ridicularização. Será que depois disso tudo ele ainda será chamado de “Spooky”?

Fazendo uma análise mais geral da temporada, Chris Carter pesou a mão no fan service, especialmente no excesso de cenas de zoação e nos diálogos pobres escritos sob medida para introduzir bordões clássicos da série. Mas, apesar dos defeitos que todos os episódios em maior ou menor grau tiveram, valeu muito a pena essa volta. No início ela apenas requentou plots e introduziu novamente os personagens em aspectos maniqueístas, mas ao longo da temporada Mulder e Scully mostraram sua evolução e se desenvolveram ainda mais; os “monstros da semana” foram criativos e atuais; o episódio de autoparódia foi excelente (o melhor da temporada); a mitologia foi resgatada (com a associação às ideias do nazismo e sua purificação da raça), bem trabalhada e jogada para a frente, culminando com a “invasão”: um final ousado e com um belo cliffhanger.

Se no começo eu achei um tanto estranha a atuação contida da Gillian Anderson, ao longo da temporada ela cresceu e assumiu seu posto de melhor atriz da dupla principal. David Duchovny talvez tenha exagerado um pouquinho na sua caracterização cool de Mulder, parecendo um tanto quanto no piloto automático.

Gillian arrasou, como sempre.

O gancho final na trama é providencial. O que vem pela frente? Uma nova minitemporada? Um filme? Porque, como eu falei acima, um apocalipse precisa de um bom orçamento. O certo é que, pela audiência que a série conquistou, a emissora com certeza vai querer continuar (a série foi líder da noite na faixa demográfica de 18-49 anos em todas as noites em que foi exibida, e dentre todas as séries da Fox só perde para o hit Empire), e parece que todos os outros envolvidos também estão abertos a esta possibilidade. Com certeza é só uma questão de tempo até a continuação ser anunciada. A mensagem postada ontem na página do David Duchovny no Facebook é a maior prova disso:

[Imagens: Reprodução/Fox]


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