Mulheres no cinema: Vamos contar as nossas histórias

Infelizmente, ser mulher em qualquer área de trabalho significa ter que ficar provando sua capacidade profissional o tempo todo. A área de audiovisual não é diferente: não só eu tinha que batalhar muito mais por coisas que meus colegas homens conseguiam fácil como o conhecimento deles e suas ideias eram levados mais a sério.

Óbvio que essa é a minha experiência pessoal e pequena em relação ao mundo todo, mas sinceramente não me surpreende que, quando olhamos para a indústria de cinema no mundo, vejamos algo parecido. Por isso eu fiquei extremamente feliz em saber da criação da produtora We Do It Together.

A produtora é uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo produzir filmes que promovam as mulheres no cinema, além de fazer pressão para que a indústria cinematográfica como um todo tenha mais diversidade. Queen Latifah e Jessica Chastain estão entre as fundadoras, junto com Kátia Lund, brasileira e codiretora do filme Cidade de Deus.

Sempre fico muito feliz em ver como nos últimos anos essas questões e debates estão ganhando cada vez mais espaço, como nomes importantes do cinema realmente estão tentando fazer alguma coisa para mudar as coisas, mesmo que ainda não seja o suficiente.

Todo ano procuro assistir pelo menos a boa parte dos filmes mais premiados. Enquanto fazia isso, vi muitas mulheres reclamando de que muitos dos filmes feitos neste último ano eram sempre histórias sobre homens brancos contadas de várias formas diferentes. É engraçado porque, quando pedimos mais representação de mulheres, ouvimos todo o tipo de desculpa, sobre como criar mulheres é mais difícil, mas Hollywood conseguiu até colocar um homem branco em Marte plantando batata e fazer o filme ser convincente.

Enquanto assistia a alguns dos “melhores filmes” de 2015, tive a impressão de que já tinha visto aquilo. Isso é porque já vi inúmeras histórias do mesmo tipo de personagem e isso me cansa. Quando comento sobre isso, as pessoas acham um absurdo, ainda mais por eu ser da área de audiovisual. Elas me dizem que preciso aprender a gostar do filme independente de os personagens serem homens brancos, que eu preciso olhar o todo do longa.

Acontece que eu tenho feito isso minha vida toda. Sempre falam para as mulheres que elas devem aprender a gostar de filmes independente de o protagonista ser um homem. Agora dê um papel de destaque para uma mulher e você verá vários homens incomodados. Lembram quando saiu Mad Max e vários homens reclamaram de a Furiosa ser uma personagem “muito forte” e “ofuscar o Max”? Lembram quando anunciaram Star Wars e vários fãs ficaram incomodadíssimos, não só com a Rey ser a principal, mas também pelo Finn, um personagem negro? Minorias estão acostumadas a gostar de histórias que não necessariamente as representam porque nós dificilmente temos outra escolha – são os privilegiados que geralmente não conseguem entender que no mundo há tipos diversos de pessoas.

Vamos usar como exemplo a bola da vez: O regresso. É complicado falar desse filme, quase um crime dizer que não se gosta porque “você não entendeu a arte do filme”. Eu gostei e acho que Iñárritu já fez filmes bons, 21 gramas foi um que me marcou muito, mas eu não acredito que ele acerte sempre, como foi o caso de Birdman. Um dos maiores problemas aqui é que, assistindo ao filme, tive a impressão de estar assistindo a mais uma história de homem branco em sua aventura. Por mais que eu tenha me divertido, isso é tão batido que parece que Hollywood não consegue criar coisa nova. A grande aposta também se encaixa aqui; apesar de eu ter gostado de vários aspectos técnicos do filme, a sensação é a de que eu já tinha visto coisas muito parecidas com aquilo, tanto que não demorou muito para o filme ser conhecido como “O Lobo de Wall Street parte 2”.

É extremamente importante que as mulheres tomem esse espaço na indústria do cinema, em todas as áreas. Não me venham com papo de “não tem tanta mulher nessa área” porque tem, o problema é que sempre preferem os homens porque “eles entendem mais”. Precisamos de mulheres de todos os tipos: negras, lésbicas, bissexuais, transexuais etc. Precisamos de personagens mulheres sendo mais que estereótipos de gênero. Eu posso sim gostar de uma história de um homem branco, mas cansei, quero ver histórias com protagonistas diferentes, histórias diversas, coisas novas. De que serve uma indústria que não se renova? Que não entende que os tempos mudam e é preciso se adaptar?

Por isso que, no meio de uma premiação tão falha, por inúmeros motivos já discutidos, foi importante ver ontem a equipe de Mad Max, boa parte composta de mulheres, ser premiada como foi, desde maquiagem até edição. Por isso foi incrível ver Sharmeen Obaid-Chinoy levar o prêmio de melhor curta documentário por A Girl in the River e ainda dizer no final de seu discurso: “É isso o que acontece quando mulheres determinadas trabalham juntas”. Por isso a apresentação de Lady Gaga não emocionou só a gente que estava em casa, mas várias mulheres na plateia.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.