Álbum de família, de Amruta Patil: HQ completa e resenha

A primeira vez em que ouvi falar de Amruta Patil foi em uma conversa com uma amiga (a talentosa Desalineada) que tinha voltado há pouco tempo de Angoulême, a meca dos quadrinhos na França. Fiquei morta de curiosidade pra ler um quadrinho feito por uma mulher indiana, afinal, trata-se de uma cultura antiga, vasta e fascinante, mas também marcada pelo conservadorismo e pelo machismo.

amruta-patil-475x320O trabalho de Amruta Patil é especialmente envolvente por tratar justamente de temas como família, sexualidade e (i)mortalidade de um ponto de vista que mistura hinduísmo e vivências ocidentais. Nascida em Goa, antiga colônia portuguesa na Índia, atualmente ela faz residência artística na França e sua HQ Adi Parva foi selecionada como uma das melhores de 2012 pelo historiador Paul Gravett.

Na sua página na plataforma Marsam.graphics é possível ler algumas de suas obras online, e uma me chamou a atenção já pelo título: Family Album – Álbum de Família. Na capa, dois adultos e uma criança que poderiam compor uma família em qualquer parte do mundo, não fosse pelo característico bindi (aquele pontinho vermelho) na testa da mãe. A história, contada de forma não-linear, perpassa a infância, o casamento de conveniência e um aborto, e é enriquecida por um amálgama das mitologias hindu e cristã. A honestidade natural e quase brutal da narrativa nos torna rapidamente íntimos, cúmplices dela. Afinal, como não se identificar com uma mulher que revela seus questionamentos e certezas pouco convencionais sobre a instituição do casamento, não identificação com a família e outros tabus sociais?

Ao final da história, é revelado que ela foi escrita em um dia. 24 páginas em 24 horas, sem grandes preocupações com edição. Não é à toa que sentimos a realidade de cada palavra nos ossos.

Sem mais delongas, vamos à leitura dessa obra singela e tão, tão extraordinária (a tradução em português está abaixo de cada página):

00-Cover

Um Álbum de Família

Amruta Patil

01

No dia em que o bebê morreu, eu dormi o sono profundo dos inocentes. Talvez tenha sido porque parece mais com um pontinho de sangue do que com um bebê no primeiro trimestre. Ou talvez…

O homem com quem sou casada teve uma noite insone – eu podia senti-lo puxar o lençol e suspirar como um cachorro grande. Ele se pergunta por que eu estou tão em paz. Ele gostaria de pensar que eu estou em choque.

02

– Mais um ovo pra você?

– Não fica triste. Haverá outros.

Eu não respondo. Meu rosto não trai nenhuma emoção. Nas esculturas sagradas, apenas os seres inferiores e demônios tem paixão e emoções escritas em letras garrafais em seus rostos. Os Deuses são tranquilos até mesmo com uma cabeça decepada nas suas mãos e o mundo sob seus pés. Eu sei quais são as minhas crenças. Também sei que não haverá “outros”.

– Você é tão corajosa.

Não se engane. Eu amo este homem. Sei que ele é uma jóia. Ele é minha rocha. Eu sou o seu céu. Seremos companheiros pra vida toda. Mas a sua seleção genética não tem nada a oferecer. E a minha linhagem já atingiu o limite.

03

Quando eu tinha seis anos de idade, meus pais me levaram ao Forte de Amer, Jaipur. As nuvens estavam inchadas de chuva. Essa foi a primeira vez em que eu escolhi estranhos ao invés da família – e não seria a última.

– Não me solte, Mallika.

 

– Você!

 

– Espera!

04

A linda mulher não esperou. Ela se fundiu à multidão. E então as chuvas começaram. Nem sempre as pessoas que você reconhecem te reconhecem de volta.

– Espera!

– Ai, meu Deus! Aí está você! Pra onde você fugiu, meu bebê!

– Não chora. Eu sempre vou te encontrar quando estiver perdida.

– Espera! Eu te conheço!

Nos meus sonhos, eu seguia a linda mulher através das multidões. Eu dormia inquieta e o braço da minha mãe estava ao meu redor. Não dava pra deixar uma mãe saber que você não queria que ela te encontrasse.

05

Eu passei nove meses alojada no útero da minha mãe – amarrada em uma camisa de força, em concentração profunda. Nove meses de introspecção, mas não foi o suficiente para apagar os velhos encontros da minha alma. Eu não estava pronta. Eu disse a ela.

– Tenta entender

– Ha ha! Ela está tão ansiosa pra sair!

Ela era jovem e impaciente. Ela não estava ouvindo.

07

Eu sou ambiciosa demais para ser contida pelos meus pais. Ali, Papai – como um pássaro gigante ou bicho-pau – gentil, porém medíocre. Olhe para Mamãe – curvilínea e autocontida. Para eles, não há nada mais na vida além do que a sua vida é. É uma tranquilidade desconcertante que deve ser destruída. Eu jogo a minha rede ampla e distante, esperando me encontrar com meus ancestrais…

– A tumba do meu pai, Imperador Akbar! Ah, meu antigo parquinho!

– Que criança arrogante!

– Eu sou Hator, a Vaca Celeste!

– Muu?

– … e vocês são todos meus discípulos.

– Muu.

A história, com seu amplo seio de lendas e roupas dramáticas, é muito mais empolgante do que o Presente. Isso é algo de que luto para me desvencilhar – o passado é reconfortante, mas o meu campo de batalha é o Futuro.

08

Uma coisa sobre a História – eu fico a ponto de abraçar Darwin, mas decido não fazê-lo. Eu recomendaria ignorar o Neandertal e os primatas e, ao invés, acreditar no pó das estrelas.

 

Saia para a estrada aberta na calada da noite. Mije ao ar livre, olhe para cima para o pesado ceu coberto de joias. Acaricie a bola de medo irracional e solidão no seu estômago, na sua garganta. O céu coloca a vida em perspectiva. Ele te lembra de como é morrer.

09

Eu fiquei no limite ermo entre a vida e a morte mais de uma vez. É como estar no meio de um jogo de velocidade particularmente emocionante quando o seu carro virtual bate em um caminhão virtual…

FIM DO JOGO

FIM DO JOGO

-Droga.

-Droga.

-Droga.

JOGAR NOVAMENTE?

JOGAR NOVAMENTE?

JOGAR NOVAMENTE?

É tentador recarregar. Jogar de novo e de novo e de novo numa sala climatizada. É melhor do que sair e aprender a caminhar pelo campo. Nova pele. Novas coordenadas. Nova vida. Jogar.

10

-Analogia a videogame vindo de uma tecnófoba? Como pode?

-Um bom professor usa a linguagem do momento…

-Assim como um bom profeta…

Por vários motivos, fico feliz por ele ter dito isso e não eu.

-Eles são recém casados, mas se comportam como um casal de velhos.

-Ah, é um casamento de conveniência no fim das contas.

11

Uma vez por ano, nós fazíamos a viagem de 48 horas nas Ferrovias Indianas para encontrar os parentes distantes dela em Sangli. Era invariavelmente quente. E minhas mãos cheiravam a ferrugem.

-Você não está feliz de estar indo pra casa ver a vovó?

Não.

-Você pode brincar com Sumi e Amita!

-Não.

-Essa é a esposa do tio Rajesh, Manju.

-(Bocejo)

-Achei que a esposa do Rajesh era Sanglita.

Era um exercício se assegurar de que Papai e eu não diríamos a coisa errada e envergonharíamos a Mamãe na frente das pessoas. À noite, o céu inclinava-se sobre o trem e eu me aconchegava em Cástor e Pólux (NT: a constelação de gêmeos).
12

<Tio lascivo que eu gostaria de matar um dia.

<Tio cínico de esquerda e artista fracassado

<Vovó, cuja sacerdotisa e escrava é a nora n. 2

<Irmã da mamãe, uma versão cansada e gorda dela.

<Tio que fica tentando vender ao Papai o sonho da Amway (NT: Amway é uma multinacional norte-americana).

 

<Nora n. 1 que voltou dos EUA

<Mamãe

<Eu

<Prima gorda que não é autorizada a comer.

13

-Isso é um antro de cobras.

 

-Que jovenzinha arrogante

E era mesmo. Um antro de cobras. Ali mesmo eu senti o cômodo se dissolver em uma pilha de cobras – fervilhando, revirando-se, sibilando, rastejando para ficar no topo. As pessoas deveriam sair de seleções genéticas estagnadas logo que pudessem. Depois de ter me convocado ao seu útero, eu não conseguia entender por que Mamãe ainda encontrava consolo nesse rastejar.

14

Compreensivelmente, tais colocações não são bem recebidas em famílias cuja linhagem remonta ao Sol e à Lua…

SOL + LUA

3.000 A.C.

*ancestrais divinos

 

500 A.C.

1.900 D.C.

*ancestrais meio abaixo do padrão

 

VOVÔ + VOVÓ

MAMÃE + PAPAI

*parentes totalmente abaixo do padrão

15

Se eu tivesse que escolher minha linhagem, escolheria as deusas.

<bem-aventurada Eva, com rosto de lua

<Lilith, dos olhos de pó de diamante

Dentre Eva e Lilith, eu escolheria Lilith – escolheria o vôo ao invés da subserviência, escolheria a companhia dos animais das terras baldias ao invés do dominante Adão. Das deusas indianas, eu escolheria Kali – toda coração, toda lâmina.

<Lakshmi, culta e próspera

<Kali, valente e proativa

Aqui estou eu, jurando fidelidade às divinas espevitadas – e aqui estão eles, tentando prender minhas raízes em uma árvore genealógica absurda, baseada em sangue. Sangue é incerto. As raízes desta árvore estão tremendo.
16

-Ela pensa que é uma deusa?

-Vai se olhar no espelho, cabeça de abóbora.

-Criação desleixada.

 

-Hahah

-Ahahahah

-Cabeça de abóbota

-Desleixada, tô dizendo

-Deixem ela em paz, sim?

-Vai lá, tigresa!

Ela não “foi”. Isso foi o que ela disse na hora. Mais tarde:

-Por que você me envergonha?

17

De volta ao agora. Eu cheguei tarde a este relacionamento. Depois que os casos de amor de corações pulsantes, cartões inscritos, vai e vem atrás da porta, tatuagem no antebraço, um bilhete por dia, ruborizados e tímidos estavam terminados.

-He he

-(Resmungo)

Disseram-me que isso é resignação – assassina do amor. Eu discordo – não há cadáveres pelas paredes, tampouco há sangue pelo chão. Isso é amor como pão integral – o tipo de coisa que me deixa dormir à noite, que me deixa recuperar do dia para jogar minha rede em campos minados sem implodir. A fortaleza do meu eu está segura. Agora eu posso espiar o horizonte, procurar por ouro.

-O que é um casamento de conveniência, afinal?

-É aquele que é altruísta o bastante para deixar o outro ser. E fazer.

-E qual é a vantagem para você?

– Uma vista inspiradora.
18

Se o exato mesmo tipo de amor preenchesse toda vela, haveriam cem Rapunzéis, incontáveis homens na lua e um pote de ouro no fim de todo arco-íris.

 

Seriam histórias tão sentimentais.

19

-Meu bebê morreu…

-Agora você pode se concentrar nas coisas que realmente precisa fazer. Se assegure de que não vai desperdiçar a chance.

-Sou forçada a reconsiderar tudo sobre você!

Que pode ser uma das coisas mais fascinantes que se pode dizer a alguém depois de uma relação de 30 anos. Há uma ligeira possibilidade de que mamãe tenha ficado um pouco surda – nesse caso se pode atribuir a isso uma dessas impensadas coisas profundas que só as pessoas que a gente ama conseguem continuar inventando.

-Valeu a pena, Mamãe? 30 anos. O parto que quase a matou?

-Agora, pensando bem, eu diria que sim.
20

A esperança para os mais insípidos reside na honestidade brutal.

Eu tenho dormido bastante esses dias. Se estou acordada, então espero pelo sono para suavizar meus cantos ásperos. Eu durmo, e é um assunto sério. No sono, eu pondero sobre coisas que li – passo meus dedos sobre as rotas que devo traçar. Escalo em temperaturas abaixo de zero, luto contra o medo, me equilibro no precipício.

É no escapar do sono que eu consigo ver as impressões digitais na minha alma – marcas deixadas pelo uso e desgaste; pela navegação, boa e má; eu sou o testemunho borrado de onde estiveram meus ancestrais.

Pacientemente, com sabedoria, devo limpar as digitais. Chega de sujeira. Fim do jogo. Não vou jogar novamente.
21

-Mas e se você der “fim do jogo, não jogar novamente” antes de mim? Ah, bom, não responda isso.

-Olha a nossa pose! Ha ha

 

-Não tenha medo…

22

Tudo está imóvel e silencioso e branco.

Eu saio para procurar ouro.

Back-Cover

Obrigada a Amruta Patil por ceder a sua obra para ser traduzida para o português. Espero que os teus familiares em Goa curtam a leitura!


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.