A diversidade das carreiras científicas

 

Por Jackie Ward

Eu cresci acreditando no estereótipo de cientista, o tipo Einstein, brilhante em se tratando de assuntos complexos como partículas subatômicas, porém completamente incapazes de socializar com pessoas “normais” ou discutir assuntos fora de seus especialidades. Felizmente, quando me envolvi mais com ciência no meio acadêmico, eu percebi que este estereótipo estava bem longe da realidade. Cientistas são mulheres e homens de todas as idades, envolvidos nas diversas especialidades e com os mais variados interesses fora da ciência. Os cientistas que conheço são apaixonados por surf, história em quadrinhos, cozinhar ou viajar por exemplo. Eles raramente são pessoas de uma nota só, tanto em seus hobbies quanto em suas habilidades. Essa diversidade se estende também para suas carreiras.

Na faculdade, eu acreditava que cientistas eram aqueles que trabalhavam na bancada do laboratório em busca das novas descobertas científicas. Afinal de contas, este é o principal exemplo que temos destes profissionais. Durante o doutorado, eu passei a me informar sobre pessoas que haviam deixado a bancada em busca de outras carreiras científicas. Isto não significa que eles deixaram a ciência; apenas passaram a aplicar seu treinamento científico em diferentes maneiras. Nosso treinamento tradicional, entretanto, não nos dá muitas experiências necessárias para outras áreas. O que segue são alguns exemplos das várias trajetórias científicas, em que jovens cientistas possam trabalhar para desenvolver habilidades necessárias para essas carreias. (Apesar das carreiras científicas terem sido descritas do ponto de vista americano, muitas dessas carreiras podem ser transferidas para o Brasil.)

Muitos cientistas que conheço fizeram a transição da academia para a indústria. Este é um termo genérico que pode abranger desenvolvimento de fármacos, fabricação de dispositivos médicos, ou mesmo desenvolvimento de softwares, entre outras coisas. Vários cientistas que escolheram por essa carreira expressam o desejo de trabalhar em um projeto de pesquisa mais definido e estar mais próximo de um produto final. Aqui nos EUA estes empregos são normalmente mais bem remunerados que os empregos na academia. Enquanto o treinamento científico é muito importante para essas vagas na indústria, também é importante entender de administração. Cursos de administração de empresas, estágios em alguma companhia na área de interesse, e conhecer e conversar com pessoas que já trabalham na indústria podem estabelecer o caminho para o seu sucesso nessa carreira.

A maioria dos cientistas vai lhe dizer que em algum momento de suas trajetórias houve um professor que os inspirou a seguir a ciência. A carreira de professor pode variar entre dar aulas no segundo grau, Faculdades particulares, Universidades públicas, ou mesmo dar palestras em centros de pesquisas de grandes universidades. Esses cargos são muito diferentes entre si, mas todos eles requerem habilidades em comum para garantir sucesso profissional. Se você gosta de comunicar ciência básica e se interessa por instruir a futura geração de cientistas, essa carreira pode ser uma boa opção. A experiência de orientar outros alunos no laboratório, estagiar com docentes em disciplinas específicas, ou mesmo se envolver com divulgação científica em escolas de segundo grau podem ajudar a construir as habilidades necessárias para ministrar.

Existem diversas maneiras pelas quais as leis influenciam a ciência e vice-versa. A maioria do financiamento para pesquisa vem do governo, e existem certos regulamentos que acompanham esse dinheiro. Nos Estados Unidos, nós tivemos leis que limitaram as pesquisas com células-tronco, vírus perigosos, e até leis que limitavam o ensino da teoria da evolução. Além disso, produtos científicos comercializados são normalmente acompanhados por patentes – um complicado sistema governamental que requer tanto conhecimento legal quanto científico. Alguns cientistas são adequadamente capacitados para navegar entre essas complexas interações entre ciência e leis. Alguns cientistas até voltam a universidade para cursar direito. Para seguir essa carreira, é importante conhecer como o governo e a legislação funcionam. Manter-se atualizado com os acontecimentos científicos, instruir políticos, e até estagiar em gabinetes de políticos ou escritórios que lidam com patentes em instituições acadêmicas são ótimas maneiras de ganhar experiências nas áreas governamentais e legais.

Atualmente, a comunicação é um grande componente de diversas áreas da ciência. Cientistas devem ser capazes de comunicar seu trabalho e a importância para o publico efetivamente. Aqui nos Estados Unidos, a comunicação científica bem sucedida e financiamento para pesquisa possuem uma relação interligada. Existem cientistas que adoram falar ou escrever sobre, ou ate ilustrar ciência, e existem aqueles que o fazem com imensa carga. Aqueles que amam divulgar ciência podem achar seu nicho realizando este tipo de trabalho por outros. Trabalhar com freelance ou trabalhar para uma companhia ou ainda no setor de comunicação de uma instituição acadêmica são boas opções. Trabalhar voluntariamente nesses setores pode ser um começo para adquirir experiência na área. Escrever para sites (aham, como MinasNerds!) ou em blogs pessoais, fazer cursos dedicados ao jornalismo cientifico também podem exercitar suas habilidades comunicativas.

Apesar do cargo de professor em uma universidade pública para pesquisa e docência ainda ser o mais almejado para muitos cientistas, nunca é cedo demais para conhecer outras opções de carreira. Às vezes essa transição para algumas dessas carreiras requer muito esforço e treinamento, mas pode ser compensatório se for uma mudança de carreira benéfica. O termo “cientista” pode implicar em uma forma de pensar e um treinamento especifico, mas isso pode se estender a diferentes áreas – que desempenham papeis importantes no mundo de hoje.

 

JW lab photo screen shotJackie Ward é aluna de doutorado no programa de Ciências Biomédicas da Universidade da California, San Diego. Jackie também trabalha meio período como escritora para a organização Americans for cures. Ela espera (cruzando os dedos!) terminar o doutorado no final desse ano. Atualmente, o foco do seu trabalho é mecanismos envolvidos em causa e efeito em formas hereditárias de neurodegeneração. Originaria de uma cidade pequena no estado de Kentucky, Jackie se formou em Bioquímica e Biologia Molecular na Universidade de Rhodes College em Memphis, Tennessee. No passado, ela trabalhou em laboratórios em Rhodes, na Universidade de Kentucky, Universidade de Harvard, e realizou trabalho de campo no Centro Nacional de Recherches Oceanographiques em Madagascar.

 

Tradução:

Helen Miranda e Isabelle Tancioni

 

Imagem em destaque alterada de:

thetaxhaven

 

TEXTO ORIGINAL:

I grew up with the stereotype of a scientist as an Einstein-like character who was brilliant when it came to esoteric subjects like particle physics, but completely unable to socialize with “normal” people or discuss anything outside his field of expertise. Fortunately, as I got more involved in academic science, I realized this stereotype was far from reality. Scientists are men and women of all ages, and are involved in many interests and pursuits outside of the nitty gritty of their field of expertise. The scientists I know love surfing, comic books, cooking, and travel. They are hardly one-note in their hobbies or their skills. This diversity extends to our careers as well.  

As a college student, I thought of a “scientist” as someone working at the bench pursuing pure scientific truth. This is, after all, the main examples we have in our professors. In graduate school, I became more aware of people leaving the academic lab bench to pursue other types of scientific careers. This doesn’t mean they stopped being scientists; they just use their scientific training in different ways. Our traditional training though, does not give us much background in the diverse skill sets necessary in other fields. The following are a few examples of various scientific career trajectories, and what young scientists can work on outside of the lab to develop skills fit for those jobs.

Many scientists I know have moved on from their academic positions to pursue jobs in “Industry.” This is a diverse term that could involve pharmaceutical development, medical device manufacturing, or even software development, among other things. Many scientists who have moved in to this career trajectory express the desire to work towards a more distinct research question and be closer to an actual product coming to fruition. It doesn’t hurt that it is often accompanied by an increase in pay. While your scientific training is very important in industry jobs, it is also important to understand how business works. Taking business classes, interning at a company in your field of interest, and getting to know people who already work for companies can set you up for industry success.

Most scientists will tell you that there was a teacher at some point along the way who got them excited about science. Teaching-based careers can range from being a teacher in high school, private college, community college, or becoming a lecturer at a large research university. These roles can be very disparate from each other, but they all include some of the same skills to success. If you like communicating the basics of science and want to give back to the upcoming generation of scientists, teaching is likely a good fit. One-on-one mentoring in the lab, working as a teaching assistant, and even doing outreach to K-12 students are all good ways of building teaching skills.

There are many ways the law influences science and vice versa. The majority of scientific funding comes from the government, and there are certain regulations that accompany that money. In the US, we’ve had laws that limit the research on stem cells, dangerous viruses, and even the teaching of evolution. In addition, commercialized scientific products are usually accompanied by patents—a complicated governmental system that requires intimate knowledge of both the law and the science. Some scientists are well suited to navigating these complex interactions between science and the law. Some even go on to get a law degree in addition to their scientific background. In order to pursue these fields, it’s important to understand how government and the legal system work. Being up to date on current events, advocating policy makers, and even interning in the policy or patent offices at academic institutions are good ways of getting experience in the area of government and the law.

Communication is a big part of any kind of science these days. Scientists must be able to talk about what they do and its importance. Successful science communication and science funding are an intertwined relationship. There are scientists who love talking about, writing about, or even illustrating scientific ideas, and there are those who do it only begrudgingly. The ones who love communicating science may find a good niche in doing this work for others. Freelance work or working specifically for a company or academic institution’s communications department are just two options. Reaching out to those offices for volunteer work is a good place to start to get experience. Writing for science websites (ahem, MinasNerds!) or on your own personal blog and taking courses dedicated to science writing will also teach you communications skills.

While becoming an academic research professor is still the ideal choice for many scientists, it’s never too early to understand other types of career options. It often takes more effort to seek out the training in these other types of skills, but the payoff could be a beneficial career move. The term “scientist” connotes a way of thinking and training, but that can extend to a number of different areas—that are important roles in today’s world.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/ cientista de profissão