Filmes que são sutilmente feministas sem querer… Ou querendo?

Outro dia me peguei assistindo pela milionésima vez O Sorriso de Monalisa com a queridinha da minha mãe, Julia Roberts. Aliás, o elenco desse filme é quase que inteiramente composto de grandes nomes, mas, como na época do lançamento eu pouco ou nada entendia sobre filmes, não me dei muito ao trabalho em prestar atenção nisso. E qual não foi minha surpresa ao me dar conta de que tinha deixado passar muito mais do que apenas o elenco?

Para quem não conhece a trama é sobre a personagem da Julia Roberts, uma professora, que vai dar aulas sobre História da Arte em uma renomada escola só para meninas. O longa se passa na década de 50 e ela é uma mulher dita liberal, enquanto os ensinamentos da escola e da cidade vão contra isso. Pregam que lugar da mulher é dentro de casa, cuidando da família e dos filhos e dane-se a continuação dos estudos. E ela tenta mostrar as suas alunas que podem fazer as duas coisas se quiserem ou apenas uma delas. São livres para escolher.

Pois bem, o post de hoje não é uma crítica do filme, mas a explicação foi necessária para ilustrar como minha cabeça explodiu depois que parei para pensar em quantos filmes já assisti na vida, que possuíam uma mensagem feminista de alguma forma e eu nunca havia reparado. Por isso decidi compilar mentalmente (sim, não fiz nenhuma pesquisa no Google do tipo “filmes feministas que não parecem que são” era para ser um desafio pessoal) alguns filmes que passam uma mensagem feminista sem necessariamente se vender assim.

Curvas da Vida – 2012

Adoro filmes que envolvam esportes. Seja qual for, estou assistindo. Talvez nutra uma insatisfação pessoal por não ser necessariamente boa em nenhum. Mentira. Jogava bem Basquete na escola. Mas, isso não vem ao caso aqui. Voltando… O foco do filme é o relacionamento conturbado entre Gus, personagem de Clint Eastwood e de sua filha Mickey vivida pela atriz Amy Adams. Adams é, vejam bem, a única mulher com falas quase que no filme inteiro e a ponte de ligação entre os dois núcleos do mesmo. Porém, mais do que isso, ela está tentando triunfar em dois mundos completamente masculinos: o corporativo e o dos esportes. Como advogada formada está lutando para conseguir se tornar sócia da firma na qual trabalha e que possui quase que exclusivamente homens em seu quadro de funcionários. Seu adversário é um colega de trabalho que prefere bajular os diretores. E ela é a melhor candidata a vaga, como fica comprovado depois. Do outro lado, está lutando para criar um laço afetivo com o pai distante e demonstra conhecer bastante da história do baseball, triunfando em mais um território masculino. A beleza é que é tudo feito de um modo tão sutil que não nos damos conta ao assistir pela primeira vez.

Chocolate – 2000

Outro título que não me liguei muito na importância da mensagem passada. A personagem de Juliette Binoche não apenas é uma mulher a frente de seu tempo, que acaba ajudando a todos na cidade a sair da caixa, como também é um tanto tradicionalista. É quase um paradoxo. Ao mesmo tempo que ela insiste para que as pessoas sejam livres de estereótipos construídos por aquela sociedade em que vivem, e que é vigiada com olhos de águia por Alfred Molina, também quer firmar que é diferente de todos, todavia, carrega o fardo de dar seguimento a uma missão que não é sua. Com isso, acaba negligenciando a si mesma e a própria filha. Aliás, o mesmo acontece com todos na cidade e não apenas com Vianne. Os personagens principais sentem que precisam estar a altura do que foram seus familiares, mas esquecem que as pessoas evoluem e que atitudes do passado devem continuar lá, no passado.

A Vida Secreta das Abelhas – 2008

Baseado num livro, o longa tem direção de uma mulher, Gina Prince-Bythewood e foi produzido, pasmem, por Will Smith e Jada Pinkett-Smith. Conta a história de Lilly, uma menina branca que se culpa pelo falecimento da mãe, é abusada pelo pai e decide fugir de casa. Ela acaba indo morar com as irmãs Boatwright que se chamam August, June e May. Acontece que as irmãs são negras e essa diferença racial vai acrescentar e muito na vida de todas essas mulheres. Além da questão racial há também o fato de que todas são mulheres e batalhadoras sendo retratadas em uma época que isso ainda não era tão bem visto. Especialmente no Sul dos Estados Unidos. August que é a irmã mais velha e vivida por Queen Latifah é Apicultora e passa seus ensinamentos a Lilly, tanto do trabalho como da vida. Elas acabam se unindo de uma maneira única, ultrapassando os falatórios externos e a barreira racial imposta a elas.

Tomates Verdes e Fritos –  1991 

Outro filme que perdi a conta de quantas vezes assisti e não, nunca havia parado para pensar. Aquela coisa que você meio que assiste no automático e só após algumas vezes que começa a prestar atenção no que está vendo. E também não ter conhecimento do assunto para poder aponta-lo dificulta um bocado. Creio que todos conheçam a história desse filme. A personagem da Kathy Bates faz visitas a personagem da Jessica Tandy que passa a lhe contar uma história do passado. A princípio parece ser apenas uma história qualquer e depois descobrimos que se trata da vida dela. Por ilustrar como ela e a amiga sobreviveram a diversas provações numa época tumultuada nos Estados Unidos, faz com que a personagem de Bathes também queira mudar de vida e deixar de ser a esposa submissa e que não tem voz dentro de casa. São várias pequenas lições que acalentam nosso coração.

Não consegui me lembrar de mais nenhum que tenha essa abordagem de uma forma sutil e não esteja listado como sendo feminista na internet. E, certamente, depois que comecei a entender melhor do assunto e, claro, a fazer parte do mesmo, passei a enxergar nuances que não via antes. Pequenos detalhes, diálogos, atuações que fazem toda a diferença.


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Melissa Andrade

Uma pessoa curiosa que possui incontáveis pequenos conhecimentos desde literatura a filmes a reality shows a futebol alemão. E sempre disposta a aprender muito mais. Por isso é Jornalista por experiência e vocação. Fotógrafa Profissional com muita paixão e um olhar apurado. Roteirista frustrada e uma Crítica de Cinema em ascensão.