Não quero flores, nem batom e nem quick massage

Querida empresa que me emprega,

Há anos, no dia 8 de março, chego ao meu local de trabalho e ganho flores, um batom, um esmalte, um bombom, um vale quick massagem.

Há anos que “no meu dia” você tenta me amansar com brindes indulgentes; e há anos neste dia você também vem à público dizer que me respeita me admira como se eu fosse um pequeno animal exótico dentro de sua casa, que supreendentemente demostra inteligência, competência e comprometimento com o trabalho, tanto quanto…os homens.

Querida empresa, hoje (e nos outros dias) gostaria que você trabalhasse para que eu tenha um ambiente seguro, para que eu possa trabalhar com:

# Óbvio, equalidade salarial. Não me venha com flores quando homem e posições até abaixo da minha ganham o mesmo ou até um salário maior que o meu. E não me diga que tudo foi resultado de uma negociação – ou você tem um padrão de remuneração, ou você não tem.

# Estabelecimentos de cultura e politicas que repreendessem colegas quando estes fazem piadas insinuando que tenho um caso com colegas e/ou chefes. Acredite, não é legal ser chamada de “putinha” pelas costas só porque você é competente e não é homem. Isso não é piada, é assédio.

# Garatia que meu lugar nas filas de promoções e reconhecimento não tenha interferência sobre meu gênero.

# Repreendimento às “brincadeiras” como o “Raking das mais gostosas/gatas”. Reforço, não sou um animal exótico em exposição no ambiente de trabalho. Não me venha com a desculpa do “ah, é brincadeira de homem”. Talvez gastar num bom treinamento para eles seja um melhor investimento do que me comprar maquiagem. E isso vale para os altos executivos também.

# Não controle meu ciclo menstrual e nem pergunte sobre o meu uso de contraceptivos ou dos meus planos de engravidar, ou casar. O corpo é meu e não do seu negócio.

# Inclusive, não ache que porque estou em vias de casar ou ter filhos que não tenho ambições aqui na empresa. Tenho e são imediatas.

#E se eu não quero casar, ou não tenho um relacionamento, também não é da sua conta. O balanço entre vida pessoal e profissional é meu também. Pare de especular ou colocá-lo na conta para decidir que recebo o reconhecimento ou promoção que mereço.

#Se eu não tenho o corpo ou estilo conforme “os padrões de beleza”, faça com que isso nunca seja um obstáculo ou motivos de comentários e piadas – aliás, trabalho não é local para “piadas” – para trajetória profissional dentro da empresa; assim como meu credo, cor, opiniões e orientação sexual.

Por favor, no “meu dia” e em todos os outros trate-me como uma profissional e trate-me como mulher e não como “a menina”, “a mina”. Eu tenho nome, cargo competências, opiniões e ambições. E respeito por tudo isso que quero ganhar todos os dias quando entrar pela porta da empresa.

Grata,

Sua funcionária.

 


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Sylvia Ferrari

Relações Públicas formada pela Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo com especializações em Branding e Gestão Estratégica de Negócios pela Fundação Getúlio Vargas. Escreve e fala sobre seriados intensamente aqui nos MinasNerd e em sua newsletter The S Files.