Seu personagem é macho?

Saindo do automático na hora de criar

 

O sexo da criança

Calma. Antes de responder ao título, saiba que não estou perguntando se o personagem tem semelhanças com os de Chuck Norris, Bruce Willis, Sylvester Stallone e outros durões cujos nomes denunciam a minha idade. O que quero saber é: o personagem central da sua história é do sexo masculino? E os coadjuvantes?

Mais importante que isso: se eles são, por quê?

Sério, existe uma razão especial para que sejam homens?

Pois quase sempre parece necessário ter uma razão especial para que eles não sejam homens, ou para que não sejam homens brancos, cissexuais, heterossexuais, padronizados. Tudo bem, sei que a menção a esse combo de características já cansou um pouco. Mas sabe por que cansou? Porque ele continua sendo repetido de forma inconsciente, e a gente continua precisando discutir o porquê disso.

Só para o texto não ficar interminável, vou me concentrar na presença — ou ausência — de personagens femininas.

A escritora medieval Christine de Pizan está sentada a uma mesa com um livro aberto, dando aulas a quatro homens que a observam de pé. A gravura é de 1413 e foi produzida no scriptorium de Christine. Autor desconhecido.
Christine de Pizan ensina uzômi, quer dizer, os homens. Gravura de 1413 produzida no scriptorium de Christine. Autor desconhecido. Fonte: (c) The British Library Board. Harley 4431, f.259v.

Lugar de mulher

Já li algumas vezes que um autor decidiu que um personagem seria mulher “porque a história pedia”. Tenho calafrios toda vez que alguém diz isso. Que tipo de história “pede” uma mulher?

Vamos ver. Há um certo número de papéis nos quais os autores se sentem desconfortáveis para encaixar homens, ou mesmo impossibilitadas de fazê-lo. Por exemplo, o papel da mãe será diferente do papel do pai (ou a maioria das pessoas parece acreditar que tem de ser). O papel da mocinha no filme de terror não será dado a um homem, pois não aceitaríamos ver o cara correndo, chorando e pedindo “por favor, não me mate” — a não ser que ele fosse um personagem descartável ou o alívio cômico. Já a mulher, sim, pode se mostrar frágil e emotiva, mesmo que vença no final. O interesse romântico de um protagonista masculino não seria outro homem, a não ser num filme “de nicho” (pois, supostamente, pessoas que não sejam gays não gostariam de ver filmes com personagens gays). O papel da pessoa sedutora que manipula e corrompe outras por meio do sexo não será dado a um homem (afinal, Eva era mulher). E, quando quisermos que um personagem passe por um trauma desencadeador de mudanças, se ele for homem, raramente pensaremos em fazer com que esse trauma seja um estupro. No caso da personagem feminina, essa ideia surgirá de maneira quase automática, com o respaldo da vida real.

Já li algumas vezes que um autor decidiu que um personagem seria mulher “porque a história pedia”. Tenho calafrios toda vez que alguém diz isso.

Então, basicamente, os papéis que “pedem” mulheres são os de mãe, interesse romântico/sexual e vítima. Dentro deles temos os subtipos da mãe batalhadora, que faz tudo pelos filhos; a mãe castradora, que só atrapalha a vida (do homem); a personagem que não tem filhos, mas desenvolve sentimentos maternais por outrem; a garota divertida e original, conhecida como Manic Pixie Dream Girl, que existe na história para inspirar e incentivar (o homem); a donzela em perigo que deve ser salva (pelo homem); a mulher durona que só não é mais durona que o protagonista (o homem); a sedutora irresistível que só vive para causar problemas (para o homem); a vítima cuja morte/estupro deve ser vingada (pelo homem).

Assim, temos um bando de mulheres que quase sempre são alguma coisa para o homem, raramente são protagonistas e, quando o são, passam a fazer parte de uma obra de nicho, feita “para mulheres” (isto é, metade da população do mundo), da qual os homens são instruídos a manter distância.

 

O personagem padrão

Então, se você escreve histórias, e se não for necessário que o personagem central das suas histórias seja mulher, há uma grande chance de ele ser homem. E, sim, branco, hétero e cissexual.

Esse é o personagem padrão, automático, neutro. É a base que cobriremos com as demais características para torná-lo único. É o pensamento — inconsciente — de boa parte dos escritores e roteiristas. Se não houver nenhum motivo especial para que o personagem seja mulher, ou não branco, ou não hétero, é isso que ele será.

Os personagens secundários, cuja história não acompanhamos de perto, podem até ser diferentes disso. Mas o protagonista? Se ele for negro, ou indígena, ou mulher, ou gay, ou transexual, ou portador de uma deficiência, ou qualquer outra coisa fora do padrão, a história será sobre isso, não sobre qualquer outra coisa. Será uma história sobre sair do armário. Ou sobre superar as limitações de sua condição física. Ou sobre vencer o preconceito racial. Etc. (E é ótimo que existam obras discutindo e retratando essas questões. Mas é preciso lembrar que a vida de uma pessoa diferente não é composta só por aquilo que a torna diferente — ou que a faz ser vista como diferente, pois tal pessoa é mais comum do que os autores de ficção em geral parecem dispostos a mostrar.)

Com raras exceções, parece haver um consenso mudo quanto a isso. Todo mundo conhece a história do homem padrão, e ela é fácil de acompanhar.

À esquerda, quatro mulheres estudam um livro. À direita, duas mulheres assentam os tijolos de uma muralha. Gravura do livro "Cidade das Damas", de Christine de Pizan, séc. XV, autor desconhecido. Fonte: Wikipedia.
A mulherada estudando e enchendo laje. Gravura de Cidade das Damas, livro de Christine de Pizan, séc. XV, autor desconhecido. Fonte: Wikipedia.

 

Os tipos de sempre

Listei aqui alguns tipos de personagens que são criados como homens de forma frequente e automática:

Figuras de autoridade: imperador, rei, ditador, general, governador, político, líder da rebelião, presidente da empresa, chefe da aldeia, diretor da escola, professor, pai.

Ajudantes e conselheiros: melhor amigo, tutor, parceiro de trabalho, assistente, escudeiro, criado.

Visionários, criadores e catalisadores: inventor, pintor, engenheiro, arquiteto, matemático, cientista, ativista político, hacker.

Caçadores da verdade: detetive, jornalista, escritor, estudante, agente do FBI, aprendiz de feiticeiro.

Personagens de ação: soldado, policial, matador de aluguel, agente secreto, artista marcial, guerreiro, cavaleiro, super-herói.

Agora, pense nos livros e HQs que leu, nos filmes e séries de TV que viu. De quantos homens você consegue se lembrar nesses papéis?

E quantas mulheres?

 

A solidão da protagonista feminina

Mesmo nos livros e filmes de hoje, com o público exigindo maior representatividade da mulher em mídias como literatura, cinema, TV, games, etc., noto uma ausência de personagens femininas. Muitas vezes cria-se uma protagonista bem construída, dá-se a ela uma boa dose de garra, um conjunto de habilidades e uma missão difícil… só para jogá-la num mundo habitado por homens!

Ela é a única mulher interessante da história, ou a única que toma decisões, mesmo quando vive num universo fictício no qual não se fala em sexismo ou patriarcado. As outras mulheres são apenas citadas, servindo como motivação para outros personagens. A mãe morta que se torna uma cara lembrança. A mulher que está na trama só para engravidar, porque o bebê será importante. A distante esposa de um homem poderoso, que está ali (ou nem isso) só para justificar a existência de herdeiros. A coadjuvante notável, mas breve, que logo morre para mostrar que ninguém está seguro. A moça bonita que é o motivo para viver, matar e morrer de outra pessoa (adivinha o gênero desta pessoa?).

Muitas vezes cria-se uma protagonista bem construída, dá-se a ela uma boa dose de garra, um conjunto de habilidades e uma missão difícil… só para jogá-la num mundo habitado por homens!

De resto, todos os personagens relevantes, por padrão, são pensados como homens. Todas as figuras de autoridade, os ajudantes e conselheiros, os criadores, etc. A protagonista não tem irmã, mãe, melhor amiga, mentora, inimiga, nada. É uma ilha de mulher num mar de homens. Chega a ser triste pensar na vida dela sem nenhuma referência feminina.

Nesses casos, o autor adota, em geral sem perceber, o Princípio Smurfette. Quando percebe, cria mais uma personagem feminina num núcleo com vários personagens masculinos e acha que fez uma grande coisa. Os personagens não discutem essa ausência de mulheres, não a enxergam. Ninguém avisa que alguma doença matou nove décimos da população feminina do mundo e agora há muito mais homens do que mulheres, ou coisa assim. A questão não é abordada de forma crítica. Não é abordada de forma alguma.

E isso também acontece em obras escritas por mulheres. Após uma vida inteira consumindo histórias que não saem desse modelo, nós também estamos em piloto automático.

Gravura do século XV mostra uma rainha e seis damas de companhia entrando na Cidade das Damas em trajes medievais. Fonte: Manuscrito Harley 4431, fol.323, Londres, British Library.
Rolê cazamiga! A rainha e suas seguidoras entram na Cidade das Damas. Gravura do livro Cidade das Damas, séc. XV, autor desconhecido. Fonte: Manuscrito Harley 4431, fol.323, Londres, British Library.

 

O tríplice problema

Assim, o problema que dá título ao texto se multiplica em três:

  • O personagem central é homem;
  • Os coadjuvantes do núcleo central são todos homens, se não for necessário que haja mulheres;
  • A rara protagonista feminina vive num núcleo igualmente povoado por homens.

Nenhuma dessas coisas seria um problema se não fossem todas recorrentes. Uma obra protagonizada por um homem não é um problema. Um só texto no qual o núcleo tenha um bando de homens mais a Smurfette não é um problema. Uma protagonista feminina cercada de homens não é um problema. O problema é a repetição: a extensa quantidade de obras que repetem esse padrão artificial, ditando que precisamos de uma boa razão para uma personagem ser mulher.

E se a gente perguntasse o contrário?

Existe uma boa razão para essa personagem não ser mulher?

***

Não citarei nomes nem títulos porque não me interessa apontar dedos — e tenho certeza de que, se parar e pensar, você lembrará alguns nos quais o padrão dá as caras.

Prefiro falar dos bons exemplos: obras excelentes cujas histórias têm mais de uma personagem feminina bem construída e relevante.

 

Literatura

Trilogia Millenium, de Stieg Larson

A atriz Noomi Rapace caracterizada como a personagem Lisbeth Salander, de "Os homens que não amavam as mulheres", versão cinematográfica de 2009 do livro homônimo.
A atriz Noomi Rapace como Lisbeth Salander em Os homens que não amavam as mulheres, filme de 2009 baseado do livro homônimo. Fonte: http://dragontattoofilm.com/.

A série da icônica Lisbeth Salander tem várias personagens femininas que mal couberam nas versões cinematográficas (sério, leia os livros). Lisbeth é uma hacker inteligentíssima, antissocial e subversiva, que não confia em autoridade e faz justiça com as próprias mãos — e com códigos de programação. Embora ela sofra um dos estupros mais pavorosos da literatura, rejeita o papel de vítima, pune o estuprador e ainda sai em busca da verdade sobre outros crimes contra mulheres, ao lado do jornalista Mikael Blomkvist. Os dois interagem com personagens como Erika Berger, editora de uma revista de jornalismo investigativo, Miriam Wu, universitária e kickboxer, e Sonja Modig, detetive, entre outras. O autor conseguiu abordar a desigualdade entre os gêneros e a violência sexual, e, ao mesmo tempo, construir uma trama recheada de mulheres interessantes.

 

Trilogia Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

A atriz Patina Miller caracterizada como a personagem Comandante Paylor no filme The Hunger Games: A Esperança, Parte 1. Fonte: http://www.jabberjays.net/.
A atriz Patina Miller como a Comandante Paylor no filme The Hunger Games: A Esperança, Parte 1. Fonte: http://www.jabberjays.net/

Além da protagonista Katniss Everdeen e das outras garotas que enfrentam os Jogos, como Rue e Johanna, temos várias mulheres em posições de ação e autoridade: soldados, médicas, duas comandantes, Paylor e Lyme, e a presidente, Alma Coin, líder da resistência contra a Capital. Isso, sem contar os figurantes e os personagens descartáveis, ou semidescartáveis, que muitas vezes são pensados como homens porque sim, e que aqui aparecem, na mesma medida, como mulheres. O sistema político em que Katniss vive é autoritário e extremamente cruel, mas pelo jeito não é sexista… Mais uma vez, se você quiser conhecer melhor os personagens, vale ler os livros mais que ver os filmes.

 

Desenho animado

Avatar: A Lenda de Korra, de Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko

Retratos das várias personagens femininas do desenho animado Avatar: A Lenda de Korra. Montagem feita por The Cynical Slayer: http://thecynicalslayer.
As várias personagens femininas de Avatar: A Lenda de Korra. Montagem feita por The Cynical Slayer: http://thecynicalslayer.com/.

Korra é o Avatar, a encarnação de uma força que tem o dever de manter o equilíbrio entre o mundo humano e o mundo espiritual, dominando a fogo, a terra, a água e o ar, enquanto as pessoas comuns só dominam um elemento (ou nenhum). Korra está longe de ser perfeita: é molecona e impaciente, e muitas vezes paga o preço por sua impulsividade. Tem uma personalidade sólida e coerente. Não bastasse a protagonista de um desenho de aventura e ação ser uma garota, temos outras que roubam a cena. Asami é a mulher que, sem dominar elemento nenhum, aprendeu a lutar e pilotar todo tipo de veículo. Jinora tem dez anos, é inteligente, sensata e uma das maiores dominadoras (ou dobradoras) de ar da época. Lin é a chefe de polícia linha dura, uma dominadora. Sua irmã, Suyin, é uma ex-delinquente juvenil que se torna fundadora e líder de uma cidade. (SPOILERS LEVES) Na terceira temporada, há um grupo de dissidentes políticos com duas mulheres e dois homens, todos igualmente poderosos. E, na última, conhecemos Kuvira, a dobradora de metal que se torna ditadora! (FIM DOS SPOILERS) Os personagens bem desenvolvidos e o enredo complexo tornam o desenho muito atraente para adultos. (Antes de Korra, vale conferir Avatar: A Lenda de Aang, série na qual esse universo é explorado pela primeira vez e também conta com personagens femininas fantásticas. Pessoalmente, gosto mais de Aang, mas Korra tem mulheres mais diversificadas e em maior número. Ignore o longa-metragem.)

 

Séries de TV

The Fall, de Allan Curbitt

A atriz Gillian Anderson caracterizada como a investigadora Stella Gibson na série de TV The Fall, da BBC. Fonte: http://www.thedailybeast.com/
Gillian Anderson é Stella Gibson em The Fall. Fonte: http://www.thedailybeast.com/.

Stella Gibson é a investigadora da polícia encarregada de descobrir a identidade do assassino que anda matando mulheres em Belfast, Irlanda do Norte. Serial killer, mulheres mortas… nenhuma novidade, certo? Errado. The Fall, produção irlandesa e inglesa, é violenta e não economiza nas cenas de brutalidade contra mulheres (passa do ponto, aliás), mas inova não só no protagonismo como também nos questionamentos. Stella é inteligente, arrogante e solitária. Porém, longe de cair no estereótipo da profissional bem-sucedida que não tem sorte no amor, sua solidão parece muitas vezes uma escolha. Ela vive sua sexualidade livremente, transando quando quer. Não tem paciência com os homens: vai logo cortando o sentimento de posse que eles parecem nutrir ao criar intimidade com ela. A série adota um tom crítico ao machismo em muitos diálogos e coloca as mulheres não só como vítimas, mas em posições importantes, como médicas e policiais. Parece, na verdade, inverter o padrão: os personagens só são homens quando necessário; quando não, são mulheres. Não gostei de alguns rumos do roteiro e ainda não sei se quero ver a terceira temporada. Mas experimente, veja Stella em ação. Vale a pena.

 

Borgen, de Adam Price

A atriz Sidse Babett Knudsen interpreta a primeira-ministra Birgitte Nyborg na série de TV dinamarquesa Borgen. Foto de Mike Kollöffel em http://politiken.dk/.
A atriz Sidse Babett Knudsen interpreta a primeira-ministra Birgitte Nyborg em Borgen. Foto de Mike Kollöffel em http://politiken.dk/.

A série acompanha a ascensão e a turbulenta carreira de Birgitte Nyborg, primeira-ministra (fictícia) da Dinamarca, casada e mãe de dois filhos. Na trama de intriga política, chamam atenção o tratamento muito humano dado à personagem — que parece uma pessoa de verdade, fazendo malabarismo com a vida pessoal e a carreira exigente — e o fato de que ninguém estranha o cargo mais importante do país ser ocupado por uma mulher. Também não se estranha a presença de muitas outras mulheres que, na trama, atuam na política e no jornalismo. Se em The Fall os homens parecem primitivos e tolos em comparação às mulheres, inteligentes e racionais, em Borgen os gêneros trabalham em pé de igualdade, sem que uns precisem ser ofuscados para que as outras brilhem — e vice-versa. A condição de Birgitte como mulher e mãe só é questionada uma vez, por um inimigo político cuja personalidade é feita sob medida para ser detestada pela audiência — mostrando que só gente muito tosca pode achar que mulher não serve para liderar. A série também aborda temas como maternidade, aborto e separação sob um olhar moderno. Da primeira à última temporada, uma das melhores séries que já vi.

 

Frisando o óbvio

O que todas as obras citadas têm em comum?

Simples: nelas, a mulher proeminente não é exceção.

Não há só uma mulher num grupo de pessoas importantes. Há muitas, e não existem na trama apenas para preencher papéis na vida de um personagem masculino. É claro que podem ser mães, esposas, filhas, irmãs, amigas, namoradas, colegas de trabalho ou inimigas de um homem. Mas existem para si mesmas, não só para ele. Têm qualidades e defeitos, sucessos e fracassos, objetivos diversos que não incluem apenas encontrar o amor. São gente como a gente.

Quando eu era bem criança, ao ver um desenho animado ou ler um gibi, costumava pegar meus personagens preferidos — em geral, homens — e trocá-los mentalmente por mulheres. Embora não soubesse identificar isso, já na época eu sentia falta de ver mais figuras femininas interessantes na ficção que eu consumia. Queria ver aventuras vividas por mulheres, aventuras tão legais quanto as dos homens.

Então, hoje, este é o exercício que gosto de propor a quem quer trabalhar mais com personagens femininas: pegue sua história, troque o gênero de todos os personagens que existem nela e veja o que muda. Ou melhor, pergunte-se: muda alguma coisa? Os objetivos podem permanecer os mesmos? Se não podem, por quê? A interação dos personagens uns com os outros terá que mudar também? Por quê? Quando criou a primeira versão, você se apegou sem perceber a esterótipos de gênero? Está limitando seus personagens à toa?

As mulheres não são, é claro, homens de saia. Mas vale a pena refletir se as diferenças que acreditamos que estão lá são reais ou apenas imaginadas, passadas adiante pelo senso comum, que de bom senso não tem nada.

Agora, experimente pegar o personagem masculino padrão e mudar a cor da pele dele. A origem étnica. A orientação sexual. A vida dele será igual? Os outros personagens o verão da mesma forma?

Essas são perguntas divertidas e estimulantes. Mais que isso, são necessárias. Se vivemos num mundo cheio de pessoas de gêneros, origens, cores, tamanhos, capacidades, nacionalidades e formações diferentes, não é justo, nem realista, nem interessante que as obras de ficção contenham menos que isso. Não faz sentido concentrar-se num só tipo de ser humano como o único protagonista possível.

Ah, deixa disso, você pode dizer, é só ficção! Na verdade, a ficção é um espelho. Reflete nossas crenças, desejos e medos. Por meio dela, os autores se expressam e retratam os ideais da sociedade em que vivem, e os receptores — todos nós — absorvem, compreendem e replicam esses ideais. A obra de ficção não é um evento isolado. Não existe sem conexão com a cultura na qual é produzida. As histórias que consumimos nos dizem: a vida é assim. Então, nenhuma ficção é “só” ficção.

Seu universo ficcional pode ter magos e elfos num cenário vagamente baseado na Idade Média europeia, mas não mulheres em posições de poder?

Mas, você ainda pode argumentar, em certos mundos não há espaço para mulheres como chefes de estado, cientistas, guerreiras! Eu lhe pergunto: por quê? Sério mesmo, por quê? Seu universo ficcional pode ter magos e elfos num cenário vagamente baseado na Idade Média europeia, mas não mulheres em posições de poder? Como é que imaginamos mundos onde a magia impera, mas não conseguimos imaginar mundos sem sexismo? Você quer que seu leitor aceite a existência de dragões, mas acha difícil convencê-lo de que existe uma sociedade com igualdade entre os gêneros?

Agora, talvez sua história não seja de fantasia. É uma história realista que se passa na nossa época? Melhor ainda! Há um sem-número de mulheres da vida real nas quais você pode se inspirar, se precisar. Sabe o investigador que caça o assassino? Pode ser uma mulher. Sabe o assassino? Ele também pode ser ela. O jornalista que descobre uma conspiração por trás das mortes? Também. O presidente da grande corporação que quer abafar o caso? Idem.

Meu pedido a você, pessoa que escreve, é que olhe mais para os lados. Não só para as pessoas próximas a você, mas para a diversidade de inspirações que o mundo tem a oferecer. Enriqueça seus personagens com características que não venham automaticamente. Não crie a equipe de homens brancos com só uma mulher e um “étnico” — como se gente branca também não pertencesse a alguma etnia. Explore a presença de um portador de deficiência física ou condição psiquiátrica no seu núcleo de personagens. As possibilidades são infinitas.

A ficção é capaz de abarcar tudo isso e mais. Não a limite. Expanda-a. Deixe que ela nos fale não só da sua vida, mas da vida daqueles que não são você. Saia do automático!


Texto publicado originalmente aqui.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro "Reino das Névoas, contos de fadas para adultos". Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.