Arte e ciência: conexões e reflexões

Por Isabelle Tancioni e Beatriz Blanco

 

Da antiguidade ao renascimento, arte e ciência, inspiradas pela criatividade caminharam com uma entidade única. Uma intensa interdisciplinaridade ocorreu  no renascimento artistas como Leonardo da Vinci usou de fisiologia e anatomia para fazer as suas imagens tão convincentes, mostrando que seus trabalhos eram produzidos através da investigação científica. Entretanto, como relata a famosa socióloga, Sara Lawrence-Lightfoot, a ciência e arte foram se desconectando aos poucos com o decorrer do tempo. O ambiente efervescente produzido pelo encontro de novelistas, filósofos, artistas e acadêmicos antes do século 18 praticamente se extinguiu.  Tanto artistas como cientistas formulam hipóteses, avaliam a estrutura e a composição de materiais e ambos são capazes de transformar o material utilizado para obterem resultados.

Na arte e ciência: Não há investimento, se o tópico não for considerado interessante.

O filósofo e historiador da ciência Thomas Kuhn escreveu em 1969 um ensaio chamado “Comentários sobre a relação entre ciência e arte” em que levanta alguns paralelos entre o trabalho do artista e do cientista. Para Kuhn, tanto o artista quanto o cientista produzem bens que serão utilizados pelo público, e ambos usam a própria percepção do mundo para guiar o seu trabalho, sendo que a diferença entre eles é que, se para o cientista a estética é um instrumento para a resolução de problemas técnicos (como o uso de imagens para estudo das partículas, por exemplo) para o artista a estética é o objetivo final de seu trabalho.

 

A ciência promovendo a arte. 

A arte sempre dependeu de tecnologias, quando consideramos tecnologia como tudo aquilo que o ser humano utiliza para a manipulação de seu ambiente (segundo essa definição o carvão das pinturas rupestres é tão tecnologia quanto os computadores usados pela animação 3D). A relação entre arte e tecnologia é tão antiga e forte que os gregos usavam a palavra techné para se referir à arte.

Os artistas sempre estudaram as melhores técnicas para conseguir os efeitos desejados. Na antiguidade clássica já existiam estudos de anatomia com o objetivo de criar a mais bela representação possível dos corpos humanos. Posteriormente, o estudo da óptica euclidiana resultou nos jogos de lente e câmeras escuras que levaram ao desenvolvimento da perspectiva durante o Renascimento, possível por causa do conhecimento da teoria euclidiana de que a luz se propaga em linha reta.

Teoria euclidiana
Câmara Obscura. Fonte: http://camera-obscura.co.uk/camera_obscura/camera_history.asp

Com o surgimento da fotografia e do que Walter Benjamin chamou de reprodutibilidade técnica, evidenciou-se a importância da tecnologia na arte. Ela abriu caminho para o cinema, a televisão, a videoarte, a web arte… e muitas outras apropriações dos meios tecnológicos para a criação artística.

 

Ciência e tecnologia na criação da arte.

Se a arte e as tecnologias caminham juntas, elas acabam se misturando e se influenciando mutuamente. Os artistas acabam absorvendo recursos científicos como o processamento de imagens, as fotografias de alta definição, manipulação e moldagem de materiais, processamento de computadores… coisas criadas a princípio como recursos para a pesquisa científica e que se tornaram ferramentas puramente estéticas na mão dos produtores de arte.

O vídeo abaixo é um exemplo de arte generativa, um exemplo de intersecção entre ciência e arte. A arte generativa é feita através de algoritmos, que criam imagens, músicas e o que mais o artista desejar através de sua programação. A obra aqui é o próprio código, que possibilita a criação das belas imagens que podemos ver no vídeo.

Se você é uma “pessoa de exatas” que gosta de arte, saiba que as coisas não se excluem, pelo contrário! Existem coletivos de arte formados por matemáticos, engenheiros, cientistas da computação e pessoas de todos os tipos de área. Elas são essenciais para alguns campos de produção artística, que dependem de conhecimento tecnológico especializado para a finalização de obras. Promover essa reflexão sobre a proximidade entre arte e ciência é essencial para que resgatemos uma coisa muitas vezes esquecida nas universidades: a interdisciplinaridade. Quando áreas trabalham juntas, conhecimentos são trocados e pesquisas avançam.

Alguns exemplos de intersecção entre arte e ciência:

 

A representação da arte no cotidiano do cientista.

Arte nos ensina a admirar o que observamos. Antes da existência da máquina fotográfica, assim como artistas, cientistas passavam muito tempo rascunhando e desenhando o que viam ao seu redor. A precisão dos desenhos foram essenciais para transmissão do conhecimento dos mundos macroscópicos e microscópicos para uma audiência ainda maior. Anatomia, fisiologia, botânica, zoologia, astronomia se beneficiaram muito com os cientistas com dotes artísticos ou com a integração de desenhistas como colaboradores. É sofrível ver ilustrações onde as leis da proporção não foram respeitadas.

Para alimentar as demandas da carreira, atualmente, cientistas estão mais isolados e para produzir resultados e publicá-los, e assim garantir o financiamento da continuidade dos seus projetos. Esse cenário conhecido publish or perish (publicar ou perecer, em português), resultou como um feedback negativo para criatividade no meio científico. Além disso, cientistas trabalham em seus silos e não possuem tempo para interagir com outros profissionais. Muitos deles possuem companheiros cientistas e para agravar esse isolamento, a maioria dos amigos trabalham com ciência. Para alimentar o ciclo da ciência – resultados – publicação- financiamento, precisamos respirar ciência e não temos tempo para refletir sobre a importância da conexão da ciência com outras áreas como a arte.

Você admira seus resultados? Mesmo aqueles que não foram fundamentais e não contribuiram para a conclusão de sua hipótese?

Exposições com materiais obtidos a partir de experimentação científica são realizadas e certamente aquele ensaio de imunofluorescência que rendeu muitas fotos para sua publicação podem ser vistas de outra maneira. Ainhoa Mielgo faz compilações de suas fotos e atualmente recebeu um prêmio pela arte de seus resultados (infelizmente não posso colocar a foto premiada, pois ainda não foi publicada). O trabalho de Erik Demaine, que mostra a integração da dobradura de papel e matemática foi incorporado na exibição permanente do MoMA (recomendo assistir o documentário “Between the folds” que mostra o processo artístico de vários mestres de origami).

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Compilação de imagens de fluorescência que mostram células em vários estágios na divisão celular. Foto cedida pela autora: Ainhoa Mielgo (cientista da Universidade de Liverpool)

Cientistas precisam exercitar diariamente a nossa criatividade. Mesmo para fazer uma apresentação, são poucos que ousam a serem mais criativos. Agimos com receio de muitas críticas. Assim mesmo, pensamos em como produzir uma determinada reação da audiência, da mesma maneira que o artista faz com seu público. Para aqueles que não tem dotes artísticos: simples, há desenhistas especializados em produção de figuras para ciência. Colaborações entre profissionais é sempre bem-vinda!

Apesar de um artigo científico não ser considerado arte, precisamos saber de técnicas básicas de desenho e saber de combinações de cores para produzir uma figura esquemática. É tão libertador quando você sabe desenhar. Aliás, artigos científicos, geralmente, são muito padronizados, anulando o estilo único de expressão do autor através da escrita. São poucos artigos científicos que contém uma linguagem que mostra o estilo do autor. Um dia perguntei para um destes autores se ele gostava de arte e a resposta foi: “Arte é indispensável”. Por outro lado, o neurocientista, Oliver Sacks, em seus livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, relata as histórias de seus pacientes como personagens com distorções visuais, auditivos e cognitivos, uma fusão de sua investigação científica, trabalho clínico que mostram as diferenças na percepção. Além disso, a arte pode despertar novas hipóteses. As aulas de desenho 3D ajudou Donald Ingber a entender como a tensão sobre o esqueleto celular moldava o formato da célula. Isso mostra como a arte nos liberta, promovendo um melhor entendimento sobre os fenômenos científicos.

 

Como colocar mais arte na sua vida

Inspire-se! A foto Pale Blue dot (ponto pálido azul, em português), que poderia ter sido pintado por um artista, mostra a terra há 6 bilhões de quilômetros. A reflexão desta foto foi captada pelo cientista Carl Sagan que descreve um texto de uma forma tão delicada e poética sobre a nossa irrelevante existência (vídeo em português).

Pale_Blue_Dot
Pale Blue Dot. Terra como um minúsculo ponto (branco-azulado no meio da extensão da faixa marrom) observada por uma distância de aproximadamente 6 bilhões de Quilômetros.

Nunca é tarde! Faça aulas de desenho, pintura, escultura, designer gráfico… Exposição de arte são ótimas para liberar sua criatividade. Se você tiver oportunidade, conheça Inhotim, você terá oportunidade de sentir, ouvir e ver como arte e ciência são representadas e conectadas em um local onde a natureza mostra sua magnificência.

 

Links úteis:

Texto de Beatriz Blanco: http://minasnerds.com.br/2016/01/19/afinal-o-que-e-entender-arte/

 

Fontes:

Clique nas palavras em negrito

Imagem de destaque: Arte da Microscopia: Ariana Pientka e Anne Wilks. Fotos de várias amostras: como placenta, intestino, rins, bactéria e viroses.

 

Agradecimentos:

Helen Cristina Miranda pela revisão de texto.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.