Como Lightning Returns me fez entender a minha depressão

Aviso: Este texto contém spoilers da série Final Fantasy XIII. O que coloco aqui não são ‘fatos científicos/clínicos’, apenas um ponto de vista de quem está convivendo com essa doença.

Aviso²: Este será um post longo 🙁

Aviso³: Muito depois de tirar todas as screens, eu notei o ponteiro do mouse aparecendo =( Vai ficar preliminarmente assim.

Hoje vou falar sobre algo completamente diferente dentro do campo anime/manga (a não ser que você queira considerar essas cores e cortes de cabelos maravilhosos da Lightning e da Vanille como algo bem ‘animesco’) pra contar um pouco sobre uma experiência que fez com que a minha vida mudasse definitivamente.

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Snow e Lightning travando uma batalha no início do jogo.

O que me fez acordar de vez e abraçar a minha situação e entender que isso de fato existe dentro de mim, foi lembrar de uma conversa de muito tempo atrás, assim atoa, em que eu comentei ‘nossa, parece que a Lightning tá passando por depressão no Lightning Returns”. Achei a metáfora interessante mas não tinha levado muito a sério e não estendi o assunto também. Até recentemente.

Eu comecei a relacionar coisas que estavam acontecendo comigo com o que acontecia com a Lightning dentro da história. Parece muita loucura, e talvez seja, mas vou explicar melhor o meu ponto de vista. Aguenta firme, vou explicar direitinho! Vou listar tudo o que percebi no jogo que me fez relacionar com os principais estágios de um processo depressivo.

Depressão pode simplesmente acontecer por motivo nenhum, é um desequilíbrio químico. Ou ele pode ter um mega gatilho que te desequilibra também da mesma forma, e isso afeta seu metabolismo, sua química interna, e pode ser pro resto da sua vida. Uma grande perda, seja de alguém ou de alguma coisa, é um ponto muito comum.

O gatilho

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Lightning recebe no mundo dos mortos a alma de Serah
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Me prometa, Lightning. Me prometa que você irá se lembrar de mim.

Lightning havia perdido sua irmã Serah. Serah era sua motivação para seguir em frente, era sua alegria e única família que ela ainda tinha.
Com a morte da irmã, no final de Final Fantasy XIII-2, Lightning se cristaliza no trono de Etro, a Deusa da Morte, a fim de preservar com ela a memória da alma da irmã. Um tiro no escuro, para tentar salvar o último fio de esperança que ela tinha em trazer sua irmã de volta.

 

 

A culpa

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Foi você. Você é a culpada por esta perdição.
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Para mim, não há nada… Não há esperança.

Ela passou 500 anos cristalizada, e dentro desse sonho, ela foi se tomando cada vez mais pelo sentimento de culpa e responsabilidade pelo que aconteceu a sua irmã. De desde antes da irmã ter sido presa pelo Fal’Cie Anima (o semi-deus que marca o início de toda a jornada de Final Fantasy XIII), a maneira como ela destratou sua irmã no dia do seu próprio aniversário, a todas as vezes que ela não quis escutar algo importante que ela tinha a dizer. Isso vai bombardeando a cabeça de Lightning em flashs contínuos desde o primeiro jogo. Ela tinha esperanças de conseguir retomar tudo isso, de retificar seus erros, de conseguir ser feliz novamente junto de sua irmã, e isso foi o que a levou a desafiar deuses e terras em sua primeira aventura. Mas todos os seus esforços foram em vão. As pequenas centelhas de esperança estavam se apagando, até o ponto dela se encontrar em escuridão total.

A falha

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A morte de Serah é feito seu.

Saber que você fez tudo o que podia, tudo o que estava ao seu alcance, e ainda assim ver estampada na sua cara o tamanho da sua falha, não é fácil. Você não se perdoa, você fica o tempo inteiro pensando onde foi que você não se esforçou o suficiente, o que foi que você fez errado, onde foi a curva que era a direita e virou a esquerda e acabou parando em Albuquerque, e acima de tudo, como você pode ter errado com algo que era a coisa mais importante da sua vida. De todas as coisas para você errar, você falhou justamente nessa? Que incompetência é essa sua? Que tipo de pessoa você é? Você não vale o oxigênio que você gasta!
Esse é o never ending cicle de pensamentos que passa na sua cabeça, todos os dias, todos os minutos, todas as horas. Não importa alguém falar que não foi sua culpa. Você “sabe” que foi. E não aceita um cenário diferente.

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Por mais que Serah diga que tudo que ela fez, ela fez porque quis, e que a consequência nada tem a ver com sua irmã, Lightning não deixa de considerar isso como uma falha.

– Light falhou em ter pedido ajuda a irmã no início de Final Fantasy XIII-2 -> Serah decidiu por ela própria ajudar a irmã na esperança de reencontrá-la um dia.
– Light falhou em não ter sido boa o suficiente para derrotar Caius, o grande vilão de Final Fantasy XIII-2 -> Caius é imortal, ele só poderia morrer caso a deusa Etro morresse também. É algo mais complexo que não vem ao caso.
E tantas outras coisas. Não importa qual seja o fato real, a sensação de falha se perpetua e a mágoa vai tomando conta de seus pensamentos, mesmo que você realmente não tenha falhado. E para ela, ela falhou. Falhou com a pessoa que mais amava. E junto disso, falhou com todo um planeta que daí entrou em caos constante. Não há coração de pedra que resista para ficar ok depois de tudo isso acontecer.

A apatia

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Quando eu olhei no rosto de Serah… Quando eu escutei a sua voz e quando eu vi a promessa de seu retorno, eu devia ter sentido algo. Uma onda de alegria ou compaixão…
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Mas ao invés disso, eu senti nada dentro de mim. E estranhamente, eu não me importei.

Há uma parte do jogo em que Lightning vê a imagem da irmã depois de uma das missões realizadas. Ela sabe que essa Serah quem fala com ela não é real, e a conversa flui de uma maneira muito estóica. Ao acabar, Light pensa que mesmo sabendo que aquela não era a Serah de verdade, que ela deveria se animar com o que viu. Que ela deveria sentir seu coração encher de esperança de novo. Que ela deveria tratar aquela imagem com mais carinho e conforto. Mas ela não faz nada disso. Ela apenas fica apática. E saber que ela deveria se animar e não o faz, a irrita. Light encontra em sua jornada pessoas que lhe são queridas, e a presença delas não lhe traz conforto. Não lhe traz alegria. Não lhe traz nada. Ela fica apenas apática. Não sente. A não ser, irritação por saber que ela está assim e não deveria, ao mesmo tempo que ela não se importa.

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Ela está me dizendo que algo está faltando em mim.

E irrita mesmo. O que você faz que deveria te alegrar, não traz mais alegria. Se as coisas que eram boas para você ainda se remetem ao gatilho que levou todo o processo depressivo, é ainda pior. Você sente que mudou e não sabe onde. Não sabe como. Nada parece fazer o sentido que fazia antes. E isso leva até um problema de auto reconhecimento, pois você olha no espelho e não sabe de quem é aquele reflexo. Não se identifica com você próprio e isso é extremamente desgastante e triste. Tentar ser o que era antes fica artificial, pois o que você fazia, como você agia, onde você ia, com quem você estava, tudo remete à sua tristeza. Você não consegue ser você mais. E não sabe ser outra pessoa ao mesmo tempo. É como se fosse a cobra que morde a ponta do próprio rabo.

Light diz algo como “I don’t know what I am, I’m not even human anymore” Tradução: Eu não sei o que eu sou, eu não sou nem humana mais. Ou algo assim, perdão da memória falhar neste momento (aliás, isso é algo recorrente nessa situação…). Ok, ela está falando sobre o fato dela ser o anjo da morte enviado por deus, que leva a alma das pessoas para a salvação em um novo mundo. Mas isso também remete ao fato de ela não saber mais quem ela é. Ou o que ela é.

A esperança

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Lightning reencontra seus amigos um a um. Aqui temos Fang.
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Snow: Diga o que quiser, Lightning. Nada vai mudar o fato de que eu jurei fazer Serah feliz e ao invés disso eu não consegui nem evitar que ela morresse.

Snow entra em um processo de pensamento meio niilista. Entre o segundo e terceiro jogo, Snow decide ajudar na construção da cidade de Yusnaan. Os moradores dessa cidade decidiram tornar Snow seu líder, mas ele, tomado pela dor da morte da noiva, decide que pelos outros ele fará o possível para que sejam felizes até o fim de seus dias, mas para ele, o correto seria ele voltar ao nada. Enquanto seus ‘súditos’ se divertem e aproveitam o tempo que lhes resta, Snow está em um marasmo. Nada mais trará o antigo Snow de volta, pois ele quebrou sua promessa e não salvou Serah. Seu único desejo é que Lightning tire sua vida, pois assim ele sentirá que terá pago o preço correto pela morte de Serah e então ele terá um mínimo de paz.

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Fang e Vanille estão separadas há dez anos, por conta de um desacordo entre elas. Elas são colocadas aos cuidados da ordem religiosa da cidade de Luxerion e Vanille começa a desenvolver poderes de escutar o que as almas penadas, aquelas que não podem mais reencarnar. Lá, elas recebem tudo do bom e do melhor, mas Fang acha tudo muito estranho e descobre que os sacerdotes pretendem usar os poderes de Vanille para um ritual que limpará o caos de todas as almas penadas, salvando-as por destruí-las. E que para tal, Vanille também será sacrificada no processo. Fang fica alarmada com o que acontece e decide fugir com Vanille de lá. Mas o pior é que ela não tinha idéia que Vanille sabia sim de seu sacrifício. Mas a sua incapacidade de ser feliz por ela própria (afinal, ela e Fang estavam finalmente juntas) enquanto há tantas pessoas ao redor dela sofrendo, fez com que ela decidisse ser o mártir de tudo isso e morrer pelo “bem maior”, de forma a pagar pelos seus pecados cometidos no passado. Elas brigam e Fang fica tão nervosa com tudo isso que decide sair por conta própria para achar um meio de impedir este ritual de acontecer, mesmo que isso signifique ficar longe da pessoa que ama.

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Lightning dá a Snow esperança de que ele verá Serah novamente.

No desenrolar do jogo, Lightning se envolve em todos os acontecimentos e daí tudo ‘se resolve’ de alguma forma. O amor de Snow por Serah e o amor entre Fang e Vanille a motivam a ter algo porque lutar, além de tentar trazer sua irmã de volta. Ela não sabe se isso irá acontecer, mas ela precisa acreditar que irá acontecer, junto de seus amigos que agora estão lhe ajudando. E nisso, tanto Snow quanto Fang começam a achar seu brilho interior novamente. Snow entende que um dia ele poderá ver Serah de novo, se a missão de Lightning for bem sucedida, e Fang sente que poderá ver Vanille novamente, sem que haja uma culpa entre elas.

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Juntas elas conseguem salvar todas as almas e levá-las para serem reencarnadas.

Na criação do conceito de Lightning Returns, a palavra ‘dark’ foi chave. Isso está escrito nos livros de pré-produção do jogo e até mesmo nas entrevistas dos criadores e demais responsáveis pelo jogo. Parando para pensar, é uma carga negativa muito grande que todos lidam, inclusive o jogador, mas diferente de Mass Effect 3, em que ele começa pós Mass Effect 2 num nível de esperança total e sendo jogado no chão missão após missão em que tudo da errado, todo mundo morre ou sei lá o quê e não resta mais nada e dane-se o final, a história de Lightning Returns se passa de uma forma em que as pessoas precisam acreditar que haverão dias melhores no final. Em algum momento. Nem que seja um único minuto final. Por mais triste que seja, você se sente motivado a jogar mais para ver se é possível conseguir encontrar um foco de luz dentro de tanta escuridão. E é muito motivador, por mais clichè ou exagerado que seja. É uma motivação importante pois quem está nessa situação, precisa se agarrar em alguma coisa para ter de onde tirar forças.

O desespero

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Não me abandone.

Mais para o final da história, Light começa a sentir esperança de novo, como se fosse uma melhora de toda a sua tristeza, mas tudo lhe é tomado de uma vez só, em um único golpe do traiçoeiro deus Bhunivelze. Ela perde seus amigos, seu poder, sua força interior e toda a esperança que ela havia conseguido juntar nesta última jornada.

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Eu preciso de você… me ajude.

Ela não sabe o que fazer. Ela esta derrotada e presa em um lugar que não consegue sair e começa a desesperar. Até que então, ela vê uma ponta de luz e pede por ajuda. Light, tão orgulhosa, tão cabeça dura, tão auto suficiente, pedindo por ajuda, quem diria. Mas foi a melhor decisão que ela poderia tomar. E essa luz a envolve e ela consegue sair de onde está, e acima de tudo, ela reencontra a parte dela própria que estava faltando. Lembra quando falei de não nos reconhecermos mais? Com isso, ela se sente completa novamente, e pronta para lutar e vencer.

Para fechar esse pacote todo

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Acredite, você não está sozinho
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Light recebe ajuda de seus amigos, que não desistiram de seus objetivos e acima de tudo, de estar com ela até o final

Todos esses parágrafos que citei sobre a jornada de Lightning foram situações em que eu pude me identificar. Cada uma delas, os altos e baixos e mais altos e mais baixos. E então eu comecei a entender melhor o que estava acontecendo comigo e o que é estar dentro de um processo de depressão. Mesmo já tendo recorrido à ajuda profissional antes de pensar profundamente sobre isso, as coisas são muito confusas e complexas para você. Não é como se você não quisesse entender, você simplesmente não consegue. Até ter essas pequenas dicas aqui e acolá que fazem você cair na realidade. E foi assim que eu entendi melhor o que havia acontecido comigo. E o que eu poderia fazer a partir daí. Ainda estou procurando minha ponta de luz, mas já admiti que preciso sim de ajuda. E foi o que fiz, procurei essa ajuda. Agora é perseverança, paciência e dar tempo ao tempo para eu ter energias para poder me achar novamente.

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Juntos são capazes de resolver tudo.

A todos que leram isso, agradeço a paciência. Se você se identificou também, se você sentiu também, eu recomendo muito que você busque uma terapia. Sabe, as pessoas acham que terapia é só pra quem ‘já tá doente’. Não é, isso é conversa pra boi dormir. E eu já pensei assim muitos anos atrás, então eu sei que é ilógico pensar dessa maneira. Procure um psicólogo bacana com quem você se sinta a vontade e siga em frente. As vezes nem é uma depressão, as vezes é, as vezes é outra coisa. O que importa é que você saiba que isso não é algo que acontece só com você. Existem milhões de outras pessoas na mesma situação. As vezes podem ser até pessoas muito próximas, como foi o caso da Lightning. Sozinho/a você nunca está, tenha certeza disso e siga em frente. É como eu estou fazendo para seguir, juntando forças para acreditar nisso. Não é uma jornada fácil e muito menos glamourosa. Mas lembre-se, antes de tudo, da coisa mais importante: você não está sozinho.

 

Você também vai sorrir de novo. Acredite.
Você também vai sorrir de novo. Acredite.

Agradecimentos à Daniela Rigon pela brotheragem para que eu postasse sobre isso <3


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Rach Asakawa

Amazona em treinamento na ilha de Themyscira, publicadora de abobrinhas do RachAsakawa.com e co-host do podcast Cast 42. Sempre ansiosa pelos próximos capítulos de Akame ga Kill! e Tamen de Gushi.