A Bruxa | As mulheres vistas como monstros

A Bruxa, dirigido por Robert Eggers, conta a história de uma família que, por diferenças religiosas, teve que sair da vila em que morava. O casal William e Katherine possui uma visão bem extrema do que está escrito na Bíblia e passa esses ensinamentos para os cinco filhos. A situação toda de viver longe de outras pessoas já é complicada, mas tudo piora quando a filha mais velha, Thomasin, está tomando conta de seu irmão recém-nascido e ele some misteriosamente.

O que mais perguntam é se o filme realmente dá tanto medo. Terror é algo muito pessoal, várias pessoas ficaram apavoradas com O bebê de Rosemary e eu dei risada, mas um filme como Jogos mortais, que busca chocar pela tortura, é algo que me deixa noites sem dormir. A Bruxa não usa do gore nem do susto, a atmosfera de terror é toda criada pela arte e pela trilha sonora. As cores são todas acinzentadas e com planos mais fechados do que gostaríamos, o que nos dá uma sensação de sufocamento, de medo do que vai acontecer quando a câmera apontar para o que o personagem está olhando. Quando fechava os olhos com medo do que ia aparecer, a trilha sonora não me dava descanso e pra mim foi uma das partes técnicas mais bem usadas durante o filme.

Outra coisa que traz o terror de A Bruxa é a própria história. O terror do filme não está no que se esconde na floresta, mas sim nas atitudes daquela família. O roteiro pega muito em dois pontos: o papel da mulher e o da religião. Apesar de os diálogos parecerem um pouco incômodos, as atuações vão destacando esses pontos importantes da história.

Caso você seja aquela pessoa que tem muito medo de qualquer filme de terror ou esse estilo de A Bruxa incomode você mais do que coisas mais gráficas, talvez seja o caso de evitar ir ao cinema; caso contrário, acho que você não terá problemas. Para mim, porém, não são necessariamente os momentos de medo que vão ficar marcados e sim as mensagens que o filme busca passar.

Aviso de spoilers do final do filme.

A Bruxa não necessariamente fecha todas as suas pontas: muito vem de simbolismo e fica aberto para interpretações. Talvez a mensagem mais gritante seja como aquela família foi alienada de uma tal forma pela religião que seus membros começaram a se voltar uns contra os outros. É verdade que, de fato, havia uma bruxa na floresta, que vemos bem no começo, mas é a família que se destrói, eles que começam a apontar o dedo uns para os outros baseados em crenças que nunca pensaram em questionar.

A filha mais velha, Thomasin, é constantemente acusada por praticamente tudo que acontece na casa. O público vê que ela não podia ter feito nada para salvar seu irmão mais novo, mas a mãe a culpa mesmo assim. Quando Caleb tem a ideia de ir para a floresta e vai se perdendo pelo caminho, Thomasin é novamente considerada culpada e quando ele morre, ela é inclusive acusada de bruxaria – afinal, não só tinha encontrado o irmão, como também, de acordo com a mãe, estava começando a seduzi-lo. Fica bem óbvio no filme que Thomasin nem tinha ideia de que o irmão começava a prestar atenção no corpo dela.

É a velha história que todas já ouvimos: Foi estuprada? Abusada? Assediada? Estava provocando, olha esse decote, essa saia, esse short! O mesmo serve quando Thomasin é culpada pelo que acontece com seus irmãos: afinal, ela é a irmã mais velha, pouco importa se é adolescente; é da “natureza” da mulher tomar conta da família, não? Quando acontece algo com uma criança, sempre cobram da mulher e nunca do homem.

O filme se passa no século XVII, o que torna toda a mensagem ainda mais trágica. Tudo que de que Thomasin era injustamente acusada são coisas que as mulheres sofrem até hoje. Sempre somos culpadas pela sociedade sobre como esta vê nossos corpos. Começamos a ser inconvenientes? Tudo bem, vamos nos livrar dessa mulher, assim como os pais queriam fazer com Thomasin. Moças ainda precisam arrumar a casa enquanto seus irmãos podem brincar do lado de fora de casa.

No final, já cansada e numa situação que sabia que pouco importava o que realmente tinha acontecido, o que ia ficar era o que os outros pensavam (o que resultou na morte de toda sua família, inclusive), Thomasin vira a tal bruxa que tanto era acusada de ser. A personagem que passou o filme todo com uma expressão fechada termina o filme sentindo prazer com a nova condição. Depois que se liberta, mesmo que de forma traumática, das correntes conservadoras de sua família, ela vira o tal monstro que todos temiam e parece muito feliz com isso.

Dá para tirar muitas interpretações aqui, mas para mim o que mais fica é a reflexão sobre o que seria o tal monstro da história. Muitos filmes de terror fazem das mulheres monstros por simplesmente fugirem do padrão que a sociedade impõe a elas, que é basicamente o que Thomasin faz ao final. Mas em A Bruxa, quando Thomasin decide abraçar a tal da monstruosidade, ela acaba ficando realmente feliz, talvez porque no final ela não tenha virado monstro nenhum, apenas entendido que pode ser uma mulher livre. Não se encaixar nos padrões e tentar rompê-los não torna nenhuma mulher um monstro, mas talvez uma mulher livre seja exatamente o que a sociedade mais tema.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.