Pagu Comics, o selo de quadrinhos feitos 100% por mulheres

Muito tem se falado, em tempos recentes, sobre a necessidade e a conveniência de se organizarem projetos de quadrinhos exclusivamente com autoras mulheres. Nós aqui do Minas já demos os nossos dois centavos sobre a questão. A Gabi Lovelove6, que é uma das autoras mais destacadas da cena brasileira atual, também já deu a sua opinião sobre o caráter excludente dos projetos encabeçados por homens e em favor do fortalecimento mútuo das minas, no que foi apoiada pelas quadrinistas da Revista Capitolina e pela artista Renata Nolasco.

Nessa esteira, recebemos neste dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a notícia de que a quadrinista Ana Recalde está lançando um selo de trabalhos feitos exclusivamente por autoras mulheres em parceria com o Social Comics! O selo se chamará Pagu Comics, em propícia homenagem à escritora, jornalista e militante comunista que também fez charges em jornais na década de 30.

O anúncio trouxe reações variadas, do apoio incondicional à desconfiança de que a iniciativa possa relegar ainda mais os quadrinhos feitos por autoras mulheres a um nicho específico dentro do mercado.

Diante disso, chamamos a Ana para responder a algumas perguntas sobre o selo e sobre o momento vivido atualmente na cena de HQ nacional:

Ana Recalde
Ana Recalde

Oi, Ana! Antes de tudo, quero que tu saiba que é um prazer falar contigo. Já li alguns trabalhos teus que me impressionaram muito, como Beladona. Enfim, o que te levou a crer que um selo exclusivo para trabalhos feitos por autoras mulheres era necessário dentro da cena brasileira atual de quadrinhos?

Oi, Laura. O prazer é todo meu! Adoro o site Minas Nerds e faço parte do grupo, então me sinto super honrada de falar com vocês.  A necessidade veio de algo bem concreto, no Social Comics apenas 7% dos autores independentes com obras ativas são mulheres e quando a plataforma foi lançada, apenas 5% das leitoras eram mulheres. Hoje esse número aumentou um pouco, cerca de 12%. Esses dados chamaram a atenção dos diretores que entenderam que isso não representava o mercado real de quadrinhos no Brasil. Por isso o diretor marketing, Marcelo Bouhid, me chamou para conversar durante a CCXP.

A intenção era chamar uma mulher que já tivesse alguma experiência e estivesse inserida no mercado de HQs, e como a Beladona sempre teve uma boa quantidade de leitores no Social Comics, eu sabia como funcionava o sistema deles. Vi que esse projeto tinha potencial.

Durante a FIQ de 2015 vi que vários coletivos femininos estavam fazendo obras apenas com mulheres, o que também me incentivou a tocar o projeto.

Para além dos números, vejo que vários dos meus colegas homens tem destaque que minhas colegas não tem. Algumas delas conseguem passar essa barreira e são aceitas no clube, eu me vejo como uma delas inclusive. Mas observando melhor, sempre vejo tantas quadrinistas talentosas não ganharem o destaque que merecem. Fazer um selo assim também é uma tentativa de dar uma atenção e valor à essas criadoras.

Tu estás sabendo do manifesto feito pela Gabi Lovelove6, que foi apoiado pelas autoras da Revista Capitolina? Tu achas que isso, assim como as várias iniciativas compostas apenas por autoras que temos visto recentemente (Revista RISCA!, Revista Farpa, dentre outras), é um sintoma de um mercado que marginaliza as mulheres?

Eu li o post bem na semana que estava convidando as autoras para o selo, então não acompanhei bem a repercussão. Entendo que os quadrinhos não são separados da sociedade e a sociedade brasileira em 2016 marginaliza as mulheres. Isso é um fato que tem diversos dados para comprovar e centenas de blogs, youtubers, que denunciam essa realidade.

Somos acostumados, e digo somos pois me incluo nessa realidade, a menosprezar as mulheres e seus trabalhos como artistas e autoras. Isso vem desde o berço. Quantas escritoras lemos na escola? A invisibilização se torna algo natural, e desconstruir essa doutrinação é uma tarefa difícil e diária.

“Mas mulheres não produzem quadrinhos de qualidade ou na mesma quantidade que os homens”, vamos acreditando nisso até nos depararmos com a realidade, existem muitas mulheres produzindo quadrinhos! Na semana passada saiu uma lista chamada “A legião de mulheres nos quadrinhos no Brasil”, que dá para ver bem isso. Não existem poucas mulheres fazendo quadrinhos, mas existe pouco destaque. E quanto a qualidade, nem vou discutir, prefiro mostrar.

Tenho lido opiniões divergentes sobre o lançamento do selo. A empolgação e o apoio dividem espaço com pessoas que acham desnecessário “segmentar” os quadrinhos em exclusivamente feitos por mulheres ou não, que defendem que seria melhor corrigir essa marginalização das mulheres por dentro das editoras que já existem. O que tu achas?

Eu perguntaria para as pessoas que criticam nesse sentido, de que forma podemos inserir mais mulheres nas editoras que já existem? Concordo que o melhor dos mundos seria viver em uma sociedade onde existisse igualdade de gênero. E acredito que dando visibilidade para mais bons trabalhos femininos, esses espaços serão abertos com o tempo e não precisaremos mais ter selos apenas de mulheres. Porém, hoje, precisamos dessa divulgação até para diminuir a invisibilização das autoras excelentes que temos hoje no Brasil.

Tu chamaste um time maravilhoso pra compor o selo e eu tô ansiosíssima pra começar a ler o que vocês estão produzindo! Pra quando podemos esperar os primeiros lançamentos e quais serão? Haverá versões impressas à venda em lojas e eventos ou o acesso é restrito aos usuários do social comics?

Poxa, estou super feliz com as autoras maravilhosas que toparam entrar nessa comigo! Os primeiros lançamentos estão previstos para maio e já tenho 3 plots fechados, em fase de concept, e estou revisando o primeiro roteiro. Teremos nesse início 4 títulos, com 5 edições cada. Uma edição de apresentação das histórias e um arco de 4 edições com a primeira fase. Como ainda estou fechando os primeiros rascunhos, prefiro não passar os nomes que pensamos, para não mudarmos ou divulgar sem certeza. Mas posso dizer que estou amando as ideias e os primeiros conceitos.

O selo é uma parceria com o Social Comics e por isso estamos focando em produzir para a plataforma. Claro que imprimir existe no horizonte, mas não é nossa prioridade no momento.

Como vai funcionar o selo em relação a artistas que queiram participar? Novas artistas vão poder submeter trabalhos para serem publicados pela Pagu Comics?

Claro! Eu comecei com essa quantidade de autoras pois quero acompanhar esse início bem de perto e dar passos conforme conseguir. Não quero ser ambiciosa e colocar “o carro na frente dos bois”, como se diz na minha terra. Mas terei o maior prazer em receber portifólios! Quem sabe não conseguimos ampliar esse número de títulos já em 2016?
O e-mail que podem  mandar seus trabalhos e propostas é pagucomics@gmail.com.

Lembrando que temos espaço para letristas, coloristas, arte-finalistas, roteiristas, revisoras, desenhistas, ilustradoras e designers. Não apenas o tradicional: “envie seu trabalho pronto que eu vou publicar“.  A minha intenção é fazer uma lista de profissionais que possam colaborar de diversas formas em mais de um título, por exemplo. Trabalhar unindo desenhistas e roteiristas, ideias e sua execução. Aplicando o papel de editora, pensando o selo como um todo.

 

Lista das autoras confirmadas para os primeiros lançamentos do Pagu Comics:

Blenda Furtado

Blenda Furtado é capista, arte finalista e colorista (técnicas tradicionais), além de professora do Curso de Desenho e do Curso de Mangá no Estúdio Daniel Brandão, em Fortaleza – CE.

 

 

Chairim

 

Chairim é designer gráfica e atualmente trabalha como ilustradora, colorista e com tatuagem.Criadora das webcomics Purple Apple, Mare Rosso e As Aventuras da Bruxinha Mô.

 

 

DaniMota

 

Dani Mota é colaboradora do Amarelo Criativo, estudante de design e trabalha como freelancer desenvolvendo ilustrações.

 

 

GermanaViana

 

Germana Viana é desenhista e roteirista, autora de Lizzie Bordello e as Piratas do Espaço e integrante do coletivo de quadrinhos CBGiBi. Trabalha ainda como ilustradora, letrista e designer para editoras como a Panini e a Jambô.

 

MilenaAzevedo

Milena Azevedo já foi professora de História e empresária, mas atualmente segue como roteirista de histórias em quadrinhos, de cinema e games. Organiza e presta curadoria para eventos de cultura pop na cidade do Natal, é co-editora a MBP, selo independente de quadrinhos, e resenhista do site Universo HQ.

 

RobertaAraujo

Roberta Araújo é a administradora da fanpage Mulheres nos Quadrinhos, onde divulga o trabalho de artistas brasileiras, e, em 2014, organizou os dois volumes do livro Mulheres nos Quadrinhos, que contam com 24 autoras.

 

 

Estúdio Complementares é um grupo formado pelas talentosíssimas Cris Peter, Ariane Rauber, Ana Luiza Koehler e Ursula Dorada.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Laura Athayde

Após terminar a pós graduação em Direito Tributário, em 2014, passou a dedicar-se à ilustração e ao quadrinho. Participou de diversas publicações coletivas, como o livro Desnamorados, Revista Farpa, Revista RISCA!, Antologia MÊS 2015 e Catálogo FIQ 2015. Lançou também HQs solo, algumas das quais podem ser lidas online em issuu.com/lauraathayde. Como se não bastasse fazer quadrinhos, resolveu escrever sobre eles na coluna HQ Arte do MinasNerds.