Minorias não são dispensáveis!

A série de TV The 100 tinha, até algumas semanas atrás, grandes possibilidades de entrar para a história tendo como personagens principais duas integrantes da comunidade LGBT, Lexa, a comandante dos 12 clãs, lésbica e Clarke Griffin, a comandante da morte e antiga líder do povo do céu, bissexual.

Até que, em uma jogada até agora fracamente explicada, Lexa foi morta por uma bala que não era para ela momentos após ter, finalmente, a prova de que seus sentimentos por Clarke eram correspondidos. Lembram de alguém? Não?

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Tara Maclay (Buffy, the vampire slayer) morreu da mesma forma há 14 anos. E assim uma série original e progressista se tornou alvo da fúria de fãs por todo o mundo.

O romance entre Lexa e Clarke, casal apelidado Clexa pelos fãs, começou na segunda temporada da série e foi trabalhado de forma respeitosa e real, o que fez com que fãs acreditassem que essa seria a vez deles terem uma representação que os orgulhasse. Tanto o romance quanto a participação de Lexa na história fizeram parte da propaganda da série durante o período entre as 2° e 3° temporadas.

Cenas foram “vazadas” e alguns fãs puderam assistir a gravação do último episódio da 3° temporada, nessa gravação puderam ver Lexa lutando contra várias pessoas no que hoje sabemos ser a Cidade das Luzes, um lugar que não existe no plano real, mas onde a consciência de quem teve acesso a ele em vida fica guardada e permanece existente após a morte física. Logo, é completamente compreensível que o fandom ficasse chateado ou até mesmo pedisse o retorno da personagem nas redes sociais. O que ninguém esperava foi o movimento que começou a surgir já no dia seguinte a exibição do episódio 3×07 (Thirteen) no qual Lexa é morta.

A maior parte dos fãs ficou enraivecida por ter sido usada apenas como fonte de audiência, por ter sido vítima de queerbaiting. Infelizmente, outra parte do fandom reagiu de forma diferente, muitas pessoas tiveram recaídas em seus tratamentos, pediram ajuda ao resto dos fãs pois estavam realmente sofrendo – vale a pena lembrar que a comunidade LGBT  é muito mais propícia a problemas psicológicos, como depressão, cutting, vícios, ets. -, até mesmo atores da série usaram suas redes sociais para postar números de suicide hotlines e vídeos pedindo para que os fãs não se machucassem. Alguns escritores da equipe da série, inclusive o responsável pelo episódio em questão, Javier Grillo-Marxuach, passaram dias respondendo mensagens no Tumblr e Twitter.

Mas os fãs não se deixaram abater e criaram um projeto de angariação de fundos junto ao The Trevor Project que em algumas horas conseguiu 30,000 de dólares e muitos perfis no Tumblr se tornaram ‘safe blogs’ recebendo dezenas de mensagens de fãs que tiveram suas vidas atingidas pela escolha de Jason Rothenberg, criador e produtor da série, de utilizar novamente a tática chamada Bury you gays (enterre seus gays) ou The dead lesbian syndrome (a síndrome da lésbica morta).  Jason, hoje em dia permanece em silêncio ou se manifesta através de retweets que nem sempre são mantidos por muito tempo, como esse que foi deletado em minutos, no qual ele se refere aos ‘bullies’.

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Como resposta direta os fãs têm se unido a levantando tags diariamente, LGBT FANS DESERVE BETTER, MINORITIES ARE NOT DISPOSABLE e CW STOP JASON ROTHENBERG foram algumas delas, a campanha também inclui dar unfollow nas contas da CW, emissora responsável pelo programa, e na conta oficial de Jason Rothenberg.

A emissora ainda não se pronunciou mas renovou a série para a 4° temporada baseada na audiência dos episódios que já foram ao ar da 3° temporada.

Hoje longe de querer o retorno de personagens perdidos, fãs de diversas séries se juntam e procuram ser ouvidos, procuram mostrar que essa é a hora de agir, de fazer com que os criadores vejam a comunidade LGBT como mais do que uma forma de aumentar a audiência e garantir fama. Fãs querem, merecem melhor tratamento.

O movimento já foi noticiado no BBC UK e Daily Mail, segundo fontes as empresas Apple e Amazon estão devolvendo o dinheiro dos consumidores que compraram a série.Aqui no Brasil uma conta no Twitter – @Clexa_Brasil – foi criada para unir e coordenar as tags e informações do fandom brasileiro, um dos mais numerosos, com outros países.

E por que isso é importante?

Porque desde 1976 lésbicas tem sido mortas de formas horríveis e desnecessárias apenas para chocar a audiência, porque o número de atores negros que representam personagens tidos como ‘bons’ é vergonhoso, porque qualquer personagem que fuja a representação ideal (branco, magro, hetero) não recebe representação alguma, e quando recebe muitas vezes é errônea e danificadora.

O que começou com um fandom agora está tomando o mundo e nós não pretendemos nos calar.

MINORITIES ARE NOT DISPOSABLE.

 


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