O que é o teste Bechdel?

Com a questão da representatividade feminina sendo cada vez mais discutida no cinema, uma das coisas que muitas vezes mencionada é o teste Bechdel. Em 1987, Alison Bechdel criava as tirinhas Dykes to watch out for e em uma delas a autora explicou um pequeno teste que faz que as pessoas reflitam sobre a representatividade de mulheres nos filmes.

As regras são:

  1. O filme precisa ter pelo menos duas mulheres (de preferência que tenham nomes).
  2. Elas precisam conversar entre si em alguma cena.
  3. O assunto não pode ser um homem.

Você pode parar por um momento e pensar nos seus filmes preferidos e ver se eles passam no teste ou não. Pode parecer algo simples, mas infelizmente muitos filmes, inclusive muitos filmes bons, não passam no teste, como a primeira trilogia Star Wars, mesmo Leia sendo uma personagem mulher à frente de seu tempo. A trilogia O Senhor dos Anéis também é reprovada, mesmo com Éowyn e seu “Eu não sou um homem”.

Pode parecer bobo que alguém tenha parado para criar essas três regras, mas não é tão à toa assim ou inesperado. Inúmeros filmes possuem pouquíssimas personagens mulheres e, quando elas aparecem, são as únicas ou estão ali como acessórios do personagem homem. Alguns filmes até têm mais de uma personagem mulher, mas elas não conversam entre si e, se conversam, é para disputar um homem.

O teste Bechdel é muito interessante e pode ser um indicador para ficarmos de olho, mas também precisa ser usado de forma crítica. Primeiro que ninguém precisa parar de ver nenhum filme por ele não passar no Bechdel − o meu filme preferido mesmo mal passa no teste (ou não passa mesmo, dependendo do ponto de vista). Um filme não é necessariamente ruim por não passar, inclusive o filme pode ter uma representatividade boa no contexto ou até mensagens feministas e falhar no Bechdel.

Gravidade, por exemplo, apesar de ter dividido algumas opiniões, foi um filme bem premiado e elogiado por muitas pessoas, mas não passa no teste Bechdel. Quem assistiu ao filme sabe que a história quase não tem personagens e a protagonista, que carrega o filme nas costas, é uma mulher, a doutora Ryan. Não dá para dizer que esse filme não tem uma personagem mulher interessante e, ao contrário de Leia, também não é o caso de ela ser rodeada por homens, até porque no caso ela não está rodeada por ninguém.

Sabe outro filme que não passa no Bechdel? Millenium: Os homens que não amavam as mulheres. Pois é, mesmo com Lisbeth Salander, uma personagem bem feminista e a história mesma passando várias mensagens legais, o filme também falha. Quando vi que não passava, fiquei confusa, jurava que tinha mais mulheres na história e inclusive uma cena com Lisbeth falando com a mãe, até que me dei conta de que o livro é que é assim − com os cortes, o filme acaba falhando no teste. Apesar de eu particularmente não achar que o filme acerta sempre, a história continua sendo bem interessante (lembrando que eu estou falando da versão americana, nunca vi a sueca).

Como já mencionei, meu filme preferido mal passa no teste. Labirinto tem três personagens mulheres − duas, se não incluirmos duendes na conta, e uma delas aparece em uma cena curta. Em compensação, Sarah é a personagem principal e, na minha opinião, não só é um exemplo muito bom de representação como acredito que alguns aspectos do filme são bem feministas, mesmo que os diálogos entre mulheres ocorram só duas vezes.

Também há filmes que passam no Bechdel e possuem aspectos problemáticos, como Cinquenta tons de cinza. Por mais que a maioria dos diálogos de Anastasia seja com e sobre Christian, ela conversa com mulheres sobre outras coisas. Lembrando que Cinquenta tons de cinza também foi visto por muitos como uma história que romantizava atitudes abusivas, então passar no teste não ajudou muito.

Algumas pessoas também acham que o sétimo episódio de Star Wars poderia não passar no Bechdel porque, quando Rey fala com outras mulheres, sempre surge a menção aum homem. Quando Rey fala com Maz, porém, mesmo que Luke seja um dos motivos da conversa, para mim o diálogo é muito mais sobre Rey encontrar a força e seguir o caminho dos Jedi do que sobre Luke. Além disso, muitos interpretam que a terceira regra se refere a homens como parceiros românticos e/ou sexuais, então se as personagens estão falando sobre um irmão ou um pai não contaria como “falha” − se for isso mesmo, é mais um motivo para essa conversa não fazer o filme reprovar no teste.

Então, por mais que o Bechdel seja uma ferramenta legal para refletirmos sobre certos filmes, ela não pode ser considerada certeira: “o filme que passa tem uma representação ótima e o que reprova é horrível”. Por mais que não seja perfeito, acredito que o teste possa fazer alguns produtores pensarem um pouco mais na representação feminina de seus filmes. Enquanto isso, nós esperamos pela época em que esses testes não sejam mais necessários.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.