Videogames melhoram processo cognitivo de pacientes com esclerose múltipla

Eu já falei sobre os benefícios do videogame pra saúde, principalmente para desenvolvimento cognitivo, memória e promoção de competência social, aqui. Pois este mês, um novo estudo publicado na revista “Radiology”, demonstrou que videogames, especialmente desenvolvidos para exercitar o cérebro, melhoraram conexões cerebrais de pacientes com esclerose múltipla.

 

O que é Esclerose Múltipla?

 

Esclerose múltipla é uma doença crônica e até hoje incurável, que afeta o sistema nervoso central (SNC). Nosso SNC é composto pelo cérebro, nervos ópticos e coluna espinhal. Na esclerose múltipla uma resposta anormal do sistema imune causa um ataque às células do SNC. Ainda não se sabe exatamente o que desencadeia esse processo e por esse motivo, especialistas preferem classificar essa doença como imunomediada, isto é, decorrente de uma disfunção do sistema imune.

 

Segundo dados da Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM) estima-se que mais de 35 mil brasileiros vivam com esclerose múltipla atualmente. Os sintomas incluem: fadiga, alterações fonoaudiológicas, transtornos visuais, problemas de equilíbrio e coordenação e principalmente transtornos cognitivos. O diagnostico é realizado baseado na identificação dos sintomas e exclusão de outras doenças com sintomas parecidos.

 

Como foi feito o estudo?

 

Este trabalho teve como foco avaliar os processos cognitivos de uma região do cérebro chamada Tálamo. O Tálamo funciona como uma central de dados, recebe informações de diferentes partes do cérebro, interpreta estas informações e faz as conexões necessárias para distribui-las.

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                 Tálamo destacado em vermelho

 

Para o estudo foram selecionados 24 pacientes com esclerose múltipla, esses pacientes foram randomicamente associados a um dos dois grupos, grupo de intervenção e grupo lista de espera. Além disso foram selecionados 11 indivíduos saudáveis para servir de controle.

 

Durante as 8 semanas de treinamento, os pacientes jogavam videogame 30 minutos por dia, cinco vezes por semana. Os jogos variavam entre treinamentos de memoria, atenção, processamento visual-espacial e cálculos. Os pacientes foram analisados por meio de testes cognitivos e ressonância magnética, realizada pré-tratamento e 8 semanas pós-tratamento.

 

 

O que foi demonstrado?

 

Pacientes com esclerose múltipla possuíam níveis basais de função cognitiva alterada quando comparados aos indivíduos saudáveis (figura abaixo): em diversas regiões cerebrais a função cognitiva parecia diminuída em analise de ressonância magnética. Durante o estudo, não foi observado nenhum efeito adverso do treinamento com videogame. Do total de 24 pacientes, 12 foram submetidos a treinamentos e os outros 12 foram alocados em uma lista de espera.

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A descoberta mais importante deste trabalho foi a identificação de efeitos benéficos de videogame na reabilitação cognitiva dos 12 pacientes com esclerose múltipla que possuíam declínio de função cognitiva no tálamo, enquanto nenhuma alteração foi observada em pacientes na lista de espera. Este estudo sugere, portanto, uma plasticidade do Tálamo, responsável pelo aumento de conexões cerebrais. Testes com um número maior de indivíduos auxiliarão na solidificação desta conclusão. Os autores sugerem, porem, que futuros testes confirmem os resultados deste trabalho e continuem explorando os efeitos de jogos de videogames para o tratamento de doenças neurológicas.

 

 

Fonte:

De Giglio L, Tona F, De Luca F, Petsas N, Prosperini L, Bianchi V, Pozzilli C, Pantano P. Multiple Sclerosis: Changes in Thalamic Resting-State Functional Connectivity Induced by a Home-basedCognitive Rehabilitation Program. Radiology. 2016 Mar 8:150710. [Epub ahead of print]

 

 

Leitura complementar:

https://en.wikipedia.org/wiki/Immune-mediated_inflammatory_diseases

 

Revisão:

Isabelle Tancioni


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/ cientista de profissão