Princesas em armaduras e a tal da socialização!

Faz um tempinho que quero escrever sobre isso, mas desta vez eu achei que minha vivência por si, ou meus conhecimentos prévios não bastavam e fiz uma pesquisa anterior entre textos diversos, depoimentos de outras mulheres trans e um bocado de reflexão. Não que eu tivesse duvidas sobre a questão em si, mas sim de como abordá-la de forma compreensível, ou o mais próxima disso.

O mais próxima, pois como falei em meu último texto, existem questões que não tem como entender plenamente se você não viveu. É como quando mulheres cis dizem que não conheço certas dores, e de fato, não conheço, por isso deixei de lado afirmações como “eu daria tudo e passaria qualquer dor pra ser cis”. Mas por outro lado, eu conheço minhas dores, aprendi a lidar com elas, e ainda aprendo um pouquinho mais a cada dia. E estas, bem pessoas cis não tem como saber ou mensurar.

E é exatamente sobre isso que venho falar, sobre a socialização masculina, apontada como forma de minimizar os problemas de mulheres trans, ou mesmo nossas conquistas e capacidades, argumentos emitidos por quem vê a situação de fora, com um ponto de vista puramente analítico sem entender as particularidades do processo. E quando tais particularidades são apontadas, a resposta geral é “exceções não contam!”.

Mas não se tratam de exceções, tratam se de particulares, de processos variados que afetam a cada uma de nós. Sim, fontes dos mesmos problemas, e das mesmas dificuldades, mas vivenciadas de forma diferente de acordo com ambientes, com nossos sentimentos, decisões e reações.

Vivemos numa sociedade cisnormativa – ou seja – onde ser cis, onde representar os gêneros de uma forma específica é norma, é o comum, o aceitável. O feminismo luta contra isso, mas ainda temos muitas batalhas a vencer até que cheguemos numa desconstrução que dê liberdade real de expressão independente de gênero. Enquanto isso a cisnormatividade é sim passada, imposta e gravada a ferro em brasa sobre nós desde a infância.

E claro, isso significa que os papeis masculino e feminino, bem como a relação de opressão e privilégio também são passadas e impostas. Mas tem um erro no cistema! O que acontece quando uma criança ou adolescente não se enquadra nisso a despeito dessa formatação forçada instituida pelas famílias, escolas, pela mídia…? Fica tudo bem e maravilhoso? Claro que não!

Ai entra a intolerância da sociedade e “se não vai por bem, vai por mal!”.A partir daí toda a sorte de desgraças podem acontecer: bullying, violência doméstica, abusos sexuais, ameaças, humilhações. Afinal “nasceu menino tem de ser menino!” “meu filho não vai ser mulherzinha!” “esse marquinha não quer ser homem, então vai apanhar pra aprender!”. Quem nunca ouviu essas frases, seja ao vivo, ou na TV?

“Ah mas se a mulher trans for discreta antes de se assumir ela tem privilégios sim!” vamos começar com o “discreta” usado também para dizer que relacionamentos homoafetivos devem ser ocultados dos olhos puros da sociedade ou por que “crianças não podem ver essas coisas!” …oh o horror! Mas ninguém fala nessa discrição com cenas de violência né? E vamos lembrar que se é desagradável ocultar nossos relacionamentos afetivos das pessoas, é muito pior termos de ocultar nossas personalidades, nossas expressões, sentimentos, sonhos, abrir mão de como gostaríamos de ser e de nos ver no espelho.

Ser discreta neste sentido é muito pior, muito mais pesado. É um bombardeio de cobranças que não nos cabem, que não nos interessam cumprir, não por falta de força, mas por não nos identificarmos. É como lutar, eu não queria brigar quando nova, não por que não tivesse força, mas por que me era cobrado como coisa de menino, alias eu nem queria ser forte, por que era mais um fator pra me apontarem como menino, e eu olhava os meninos e não queria ser como eles. Contudo hoje eu não vejo problema em ser forte, me exercito, quero começar a praticar artes marciais, mas hoje isso não é uma cobrança, tão pouco algo a me deslegitimar como mulher. A penas fará de mim uma mulher mais forte e mais confiante.

Talvez, se não me fosse imposto, eu já tivesse tomado essas decisões há muito tempo e talvez tivesse sido mais forte e saudável durante meus primeiros 30 e poucos anos de vida.

E isso também combate o argumento de que se uma mulher trans é boa em esportes ou games ou outras coisas consideradas “de menino” é por que teve privilégios. Claro, eu certamente tive mais oportunidades que uma menina cis ao fazer isso… mas o problema entra justamente quando tais oportunidades viraram cobranças, e quando não ceder as cobranças virou humilhação, pressão, exclusão.

E isso falando de mim, que tentei, por não entender minha situação como trans, ser ao menos minimamente discreta – no fim, a exclusão continuou lá, no fim ainda tive de me defender de bullying, físico inclusive, de passar a maior parte da infância e adolescência sozinha, de guardar dentro de mim um milhão de sonhos, ideias e desejos… e no fim ainda não receber nem o respeito mínimo que um ser humano merece.

I magine então quem não consegue sequer segurar tudo isso, quem já se compreende desde cedo e tem certeza do por que não quer ser como os meninos, de quem decide falar disso abertamente mais cedo, ou manifestar sua personalidade e se expressar. Lembrem, pessoas trans não são visas como homens e mulheres cis apenas, somos vistes como erros, como falhas no cistema, como coisas, e quanto mais longe da norma estamos, pior.

Por isso, hoje recebo mais respeito e sou muito melhor tratada do que na tal “fase da socialização”, hoje as pessoas veem certas características minhas e pensam “hmmm ok é uma mulher trans, faz sentido!” por que dentro da cisnormatividade, mesmo sendo trans, eu ainda me aproximo mais do que a sociedade considera mulher, isso claro, depois de anos de terapia hormonal. Já antes eu era um bug, um negócio torto, pelas mesmas características que não condiziam com o conceito social de homem no qual achavam que eu devia me encaixar.

Espero de coração ter conseguido passar um pouco do que é, da experiência e do por que decidimos transicionar. Afinal a fase anterior fosse tão legal e recompensadora, por que transicionar e passar por processos complicados, dolorosos ou mesmo por novos preconceitos?

Deixo aqui uma arte que desenhei e um poeminha que escrevi como desabafo anos atras, agora dedicado a todas as amigas e irmãs trans que lutaram e ainda lutam. E um voto de esperança para que nossa luta de hoje, e a armadura que não podemos tirar, não sejam empurradas a força pra nossas irmãs das gerações futuras e que elas possam, escolher serem o que bem desejarem!

A princesa na armadura

Uma princesa
Destronada desde cedo
Com a certeza
Da majestade em segredo

Jogada então as arenas
A ser forte por si só
Protagonizando cenas
Onde quase vira pó

Em batalhas forjada
Sem qualquer descanso
Sua tristeza negada
Sem direito ao pranto

Mas um dia a vida mudou
A liberdade e o recomeço
Mas os anos em que lutou
Já lhe cobraram um preço

Agora tão doce menina
Cheia de sonhos e desejos
Muito se recrimina
Perdida em dores e medos

No corpo marcado
E na alma quebrada
De coração cortado
Caminha desesperada

Ainda sonha com um amor
Que a proteja com carinho
Que guarde sua alma da dor
Que conduza seu caminho

Vive assim esta princesa
Que aqui chora finalmente
Agora sem qualquer certeza
Do que virá pela frente

Caminhando assustada
Agora sendo ela mesma
Frágil, doce e delicada
Perdida em seus dilemas

Com a suavidade e a doçura
Segue triste se sentindo
Sem conseguir trocar a armadura
Por um lindo vestido

Segue sendo a heroína
Daqueles que partilham seus medos
Tomando pra si a sina
De manter sua fragilidade em segredo

Quem vai protegê-la então?
Quem permitirá que ela viva sua fragilidade?
Quem acolherá seu coração?
Será que um dia conhecerá a felicidade?

Segue assim a princesa
Adornada em pesada armadura
Segue sem qualquer certeza
Além de sua alma doce e pura

Por Cecilia Souza Santos – Cecihoney


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Cecihoney

Mulher trans, lésbica, bruxa que trabalha com pixelart pra games e vive com a cabeça em robôs, naves e engrenagens. Transfã, retrô/indie gamer e parte de uma fusão permanente! Dividida entre lacinhos rosas e armamentos pesados :3