Trigger warning: o desabrochar do empoderamento em “Rose Madder”, de Stephen King

Texto de Laís Fernandes.


Sangrenta

gema de ovo. Um furo queimado

se espalhando no lençol. Uma rosa em

fúria que ameaça florir.

(May Swenson)

Uma ínfima gota de sangue perto de seu travesseiro desperta Rosie Daniels dos 14 anos de um pesadelo muito sólido: os diversos abusos causados a ela pelo insano marido policial, Norman Daniels. A temática da trama de Stephen King lançada em 1995 é atualíssima, brutal e, infelizmente, muito realista: o autor não ameniza as palavras ao esmiuçar para o leitor as violências às quais a protagonista é submetida, fazendo-nos refletir sobre a quantidade infinita de casos parecidos que ocorrem a cada minuto, com diversas mulheres, em nossa sociedade. (Nota: o livro inteiro é um gigantesco trigger warning para quem sofre/sofreu violência doméstica, seja verbal ou física – o prólogo já nos apresenta ao episódio em que Rosie, ao ser espancada, acaba abortando, e dá o tom da angústia e sofrimento que encontraremos ao longo das mais de 600 páginas.)

Rosie sempre foi o arquétipo da dona de casa exemplar. Lavava, passava, cozinhava, mas, mesmo assim, Norman, o típico misógino, homofóbico e racista, encontrava algo que era de seu desagrado para punir a esposa. Vivendo em um ambiente hostil por excelência, a mulher ainda era obrigada a encarar os amigos policiais do marido, que também a constrangiam com toques e olhares maliciosos, tudo isso com a anuência e influência de Norman.

Catorze anos de submissão e agressões diversas fazem com que o conto de fadas do casamento perfeito desmorone gradualmente para Rosie. Perturbada e amedrontada, ela reúne forças que nem mesmo conhecia e abandona o marido ao ver o sangue em sua cama, um prenúncio da morte iminente, levando consigo para um destino incerto apenas as roupas do corpo e o cartão de crédito dele.

Foram quatorze anos de inferno, contando tudo, mas quase não teve noção disso. Na maior parte daqueles anos, ela existiu num nevoeiro tão espesso que era como a morte, e em mais de uma ocasião ela própria teve quase certeza de que sua vida não estava realmente acontecendo, que mais tarde despertaria, bocejando e esticando-se de modo tão gracioso como um desenho animado de Disney. (…) Mergulhara nesse inferno quando tinha dezoito anos, acordando de seu torpor cerca de um mês após seu trigésimo segundo aniversário, quase meia vida depois. O que a despertou foi uma única gota de sangue, não maior do que uma moeda de dez cents. (Rose Madder, Stephen King, páginas 21-22.)

Ao por os pés fora de casa, Rosie encontra um mundo nunca visto antes, perigoso (mas não tanto quanto o próprio lar), no qual há pessoas más, mas também outras capazes de ajudá-la, em sua maioria. Ao ir para o terminal de ônibus de onde mora, compra uma passagem para a cidade mais distante possível e se vê embarcando em uma jornada (felizmente) sem volta. Mesmo atemorizada pela voz de sua consciência avisando que Norman a encontraria (mostrando ao leitor quão manipulador, até indiretamente, o homem conseguia ser), Rosie se vê extremamente feliz por estar livre do horror que vivia e pronta para receber o que o futuro lhe reserva.

É emocionante reparar em como Rosie se torna importante para si mesma e realizada logo que decide ir embora, pois durante anos não teve permissão para tomar qualquer atitude, por menor que fosse, sem o consentimento do marido (sua rotina resumia-se a cuidar da casa e fazer compras – ela só conhecia um pouco mais do mundo pela televisão ou pelos relatos de Norman; não é de se espantar que a protagonista boquiaberta fique e assustada ao se deparar com um mar de pessoas, completamente diferentes entre si, pelos lugares onde passa, já que o conhecimento do próprio mundo que a cercava lhe fora negado). Assim, ela transfere o medo e a dor para um canto parcialmente distante da mente e do coração e inicia um processo de cura emocional proporcionado pela saída de sua zona de pseudoconforto.

Chegando à nova cidade, Rosie encontra Mr. Slowik, responsável pelo balcão de Ajuda aos Viajantes do terminal rodoviário, um senhor muito amável que imediatamente se propõe a ajudá-la, ouvindo toda a sua história e indicando a ela a Filhas & Irmãs, uma fraternidade que acolhe mulheres que sofreram abusos e estão em busca de um recomeço. É a partir deste ponto que a vida da protagonista muda para melhor, de fato. Pela primeira vez em anos, encara ruas desconhecidas (uma passagem marcante do livro é a que ocorre quando, ao sair da rodoviária e passar por um bar, Rosie é assediada verbalmente por um homem às seis da manhã e, apesar do episódio ser revisitado com frequência em seus sonhos seguintes, Rosie não desiste e segue de cabeça erguida em busca do endereço que Slowik forneceu) e deixa sua vida nas mãos de Anna Stevenson, a dona séria e misteriosa da F & I.

– Tenho mais três coisas a lhe dizer – falou Anna. – São importantes, por isso quero que clareie a mente e escute com cuidado. Vai fazer isso?

– Sim – disse Rosie. Estava fascinada pelo olhar azul-claro de Anna Stevenson.

– Primeiro, tirar o cartão de banco não faz de você uma ladra. Aquele dinheiro é seu também. Segundo, não há nada ilegal em retomar seu nome de solteira, ele lhe pertencerá a vida inteira. Terceiro, você pode ser livre se quiser.

Fez uma pausa, olhando para Rosie com seus extraordinários olhos azuis acima das mãos entrelaçadas.

– Está entendendo? Você pode ser livre se quiser. Livre das mãos dele, livre de suas ideias, livre dele. Quer ser isso? Livre?

– Sim – disse Rosie numa voz baixa e oscilante. – É a coisa que mais quero no mundo.

Anna Stevenson debruçou-se sobre a escrivaninha e beijou Rosie suavemente no rosto. Ao mesmo tempo, apertou as mãos dela.

– Então veio para o lugar certo. Bem-vinda ao lar, querida.

(Rose Madder, Stephen King, páginas 84-85)

A fraternidade é o maior ponto-chave no crescimento pessoal e profissional de Rosie. Ao conhecer outras mulheres que passaram por situações parecidas com as de seu passado, a protagonista torna-se exemplo claro do poder transformador que a sororidade pode desempenhar sobre as mulheres, não apenas na ficção como no mundo real. Tendo todo o suporte de mulheres extremamente fortes, como Gert, Cynthia, Pam e a própria Anna, Rosie se dá conta de que há vida além do matrimônio destruído e que ela é autossuficiente e capaz de se reerguer das cinzas (inclusive, volta a usar o sobrenome de solteira, McClendon). Anna lhe arruma um emprego em um hotel e Rosie se vê pela primeira vez dentro do mercado de trabalho, sentindo-se útil não apenas para si, mas também para a sociedade no geral. Ao término de oito semanas na F & I, a protagonista consegue um apartamento simples e passa a viver em paz – até o dia em que Norman encontra seu paradeiro e volta a aterrorizá-la.

A poderosa atração que ele exercia não tinha precedentes na vida dela, mas isso não pareceu fora do comum a Rosie – já vinha levando uma vida sem precedentes há mais de um mês. Tal atração (pelo menos no início) também não lhe pareceu algo anormal. O motivo disso era simples: após quatorze anos de casamento com Norman Daniels, anos em que fora isolada do resto do mundo, não tinha instrumentos para avaliar a diferença entre o normal e o anormal. Sua régua para medir o comportamento do mundo em determinadas situações consistia principalmente de dramas da TV e dos raros filmes a que ele a levava para assistir no cinema. (…) Dentro da moldura fornecida por esses meios de comunicação, a reação de Rosie ao quadro parecia quase normal. Nos cinemas e na TV, as pessoas estavam sempre arrebatadas. (Rose Madder, Stephen King, pág. 116)

O teor sobrenatural muito característico na maior parte das obras de King dá-se por meio de um quadro antigo encontrado por Rosie em uma loja de penhores. Rosie troca seu anel de noivado pela misteriosa pintura Rose Madder, que mostra uma mulher loura, de costas no topo de uma colina, usando um zat vermelho (um vestido curto com manga de um ombro só) e observando um templo incendiar-se logo abaixo. A energia que a peça emana para Rosie é inexplicável, chamando-a e deixando-a sem compreender o poder por trás de tal artigo fascinante (o nome Rose Madder tem duas explicações no livro; a primeira é a de que o nome do tom de vermelho da roupa da mulher retratada, e a segunda é um jogo de palavras: mad, traduzido do inglês, louca, transformaria o nome do quadro em Rose Mais Louca – pela adição da terminação -der ao adjetivo).

Ao passo que coisas estranhas começam a acontecer assim que Rosie leva o quadro para sua nova casa, ela se torna cada vez mais forte e destemida com o passar do tempo, sendo esse objeto outro ponto-chave no despontar de seu empoderamento. Logo, o quadro pode ser lido como um conjunto de simbologias que resumem a força da protagonista, não apenas um toque sobrenatural gratuito.

É também na loja de penhores que a protagonista conhece Bill Steiner, filho do proprietário do local. Os dois se apaixonam e Rosie reaprende a amar e confiar em alguém do sexo oposto, redescobre sua sexualidade há muito fragilizada e ganha um aliado no combate contra Norman. Apesar do romance ser também importante para o florescer sexual e emocional de Rosie, pode-se notar que Bill fica em segundo plano na maior parte do enredo, o que é ótimo, pois King preocupou-se em dar voz ativa e predominante às mulheres da trama – Rosie se entrega de cabeça ao sentimento, recebe proteção, mas não anula a própria personalidade por conta do que sente pelo rapaz, muito menos se torna uma donzela em perigo.

A escrita de King é dinâmica e acessível. O texto tem capítulos curtos que terminam com cliffhangers responsáveis pela leitura fluida, fazendo com que o leitor nunca perca a curiosidade de ler o que virá a seguir. A narrativa é em terceira pessoa, destacando diversas vezes os fluxos de consciência das personagens. Os capítulos de Norman, por exemplo, são extremamente aflitivos e um pouco desordenados para combinar com a mente insana e sádica da personagem, proporcionando ao leitor um mergulho de fato em seu modo assassino de pensar. Há diversas retomadas cronológicas em fatos particulares da vida de Norman e Rosie, a fim de justificar o que ocorre em determinados momentos da trama.

As personagens são bem construídas e cativantes, principalmente as meninas da Filhas & Irmãs – impossível não se apaixonar pelo jeito durão da professora de autodefesa Gert ou pela sensibilidade que contrasta com o visual punk de Cynthia. Todos têm várias camadas de desenvolvimento psicológico elaboradas sabiamente pelo autor.

É fácil odiar Norman já em suas primeiras falas; King não criou um personagem machista e agressor tão complexo gratuitamente ou para enaltecê-lo, mas sim para nos alertar que homens como ele existem aos montes por aí, e pior: mulheres como Rosie também (sobre)vivem e sofrem igualmente, e muitas vezes não têm a mesma sorte de encontrar sua versão de Anna pelo árduo caminho que trilham – ou, na pior das hipóteses, são responsabilizadas pelo sofrimento causado por outrem. Não há culpabilização da vítima neste livro, muito pelo contrário; o autor implicitamente aborda essa temática e demonstra como é desconfortável para a mulher ter tais acusações e questionamentos vindos de quem não faz ideia do que se passa em sua vida, quando Rosie conta, receosa, a Bill todos os abusos que sofreu e espera, aflita, que o rapaz pergunte o porquê de ela ter passado tanto tempo sem fugir. Mas Bill a surpreende fazendo outra pergunta aleatória e o fator não é mencionado sequer uma vez ao longo da obra.

Vale ressaltar mais uma vez que por toda a estória encontramos cenas de extrema crueldade e perturbação psicológica, o que pode chocar o leitor pouco acostumado com o estilo de escrita de King (sim, ele não poupa sangue, violência e sofrimento).

Rose Madder apresenta os opostos de uma insanidade brutal, quase onírica: de um lado, o insano Norman em busca de vingança apenas para apaziguar seu ego ferido; do outro, a insana fúria de Rosie mais forte do que nunca, pronta para apagar de vez os danos do passado – incluindo o próprio causador de todos os males.

Rosie é uma rosa, como o próprio nome sugere. Começa a narrativa despedaçada e destruída, mas desabrocha e vira sua própria heroína ao longo da trama. A afeição causada pela representatividade das personagens femininas, tão machucadas e igualmente poderosas, é imensa. Representatividade importa, sim. Em um mundo onde “Normans” estão sempre à espreita, sejamos todas como Rosie: donas de si, rainhas da cena, lucidamente insanas, buscando dentro de nós mesmas o que nos é mais caro: a força e a coragem de nos reerguermos do caos.

Stephen King é um dos maiores autores do gênero terror/horror contemporâneos ainda vivos. Tem inúmeros livros aclamados (como O Cemitério e O Iluminado), dos quais surgiram adaptações para a TV e o cinema.

Glossário:

Trigger warning: literalmente, “aviso de gatilho”, também conhecido abreviadamente como TW, é o termo que antecede algum assunto que possa ativar e incomodar psicológica e emocionalmente o(a) espectador(a).

Sororidade: ato de colaboração mútua entre mulheres, em busca do apoio ético, social e moral.

Empoderamento: poder e liberdade de atuar plenamente em sociedade.

Misoginia: aversão a todo e qualquer fator relacionado às mulheres.

 

capa completa do livro Rose Madder, de Stephen King, mostrando um quadro emoldurado no qual um bovino está diante de várias portas.Ficha técnica:

Título: Rose Madder

Autor: Stephen King

Tradução: Myriam Campello

Editora: Objetiva

Ano: 1996

Páginas: 630

Avaliação: 5/5 estrelas


Laís Fernandes é estudante de Letras e fã incondicional de Neil Gaiman – e, parafraseando o que o próprio autor escreveu em O Oceano no Fim do Caminho, “vive nos livros mais do que em qualquer outro lugar”.


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