A epidemia do Zika vírus e o que ela pode nos ensinar sobre a ciência

Por Paula Mello

Se você clicou neste link, é provável que sua principal pergunta seja: “Afinal, o Zika vírus causa a microcefalia de bebês”? A resposta é bastante simples: não sabemos, embora as evidências apontem para esta relação. Mas, calma! Não desista da leitura! Tem outras informações que você procura e pode encontrar aqui. Para isso, falarei também sobre ciência. O objetivo é que o leitor entenda o porquê de tantas dúvidas e evite cair nas especulações que circulam nas redes sociais.

 

Como isso tudo começou?

A descoberta do Zika vírus se deu por acaso quando em 1947 pesquisadores estudavam a febre amarela na Floresta Zika – que deu nome ao vírus – em Uganda. Macacos Rhesus eram deixados em jaulas no meio da floresta a fim de que fossem expostos aos mosquitos. Um dos animais, identificado como 766, adoeceu e o vírus foi isolado a partir do seu sangue. Em 1952 ocorre, pela primeira vez, a detecção do vírus em humanos em Uganda e Tanzânia. Quase 62 anos depois, o Zika vírus chega ao Brasil e encontra no mosquito Aedes aegypti a parceria ideal para sua transmissão. Mais que isso, o vírus também é “acusado” de causar microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré. Porém, da acusação à condenação existe um longo caminho.

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É necessário unir todas as peças deste quebra-cabeça até que a figura final faça sentido. De modo geral, isto se cumpre em algumas etapas: observação, geração de hipóteses, experimentação e conclusão. Com frequência, as conclusões obtidas levantam outras hipóteses, gerando um sistema de retroalimentação. Pode parecer complicado, mas até os bebês conhecem este processo.

Metodo cientifico
Método científico

Para simplificar, vamos ver como essas etapas funcionam com relação à microcefalia. O mesmo raciocínio pode ser aplicado para Guillain-Barré.

A Observação. “Aumento do número de casos de microcefalia em regiões com epidemia de Zika”. Quanto maior o número de observações, maior a suspeita.

A hipótese. “O Zika vírus é a causa da microcefalia”. Seria uma hipótese absurda? A princípio, não. Não raro, algumas doenças infecciosas podem causar má formações congênitas, inclusive microcefalia. Exemplos: rubéola, sífilis, HIV e citomegalovírus. Portanto, é uma ideia razoável.

Experimentação e análise dos resultados. “Nenhum achado feito pelo homem pode ser definido como verdadeiro se não for demonstrado experimentalmente”. Atribuída a Leonardo Da Vinci, esta frase resume a necessidade da comprovação através da experimentação.

Esta é a etapa na qual nos encontramos. O que já foi feito? Até agora, muitas evidências reforçam a causalidade entre o Zika e a microcefalia. Aliás, fala-se em Síndrome Congênita do Vírus da Zika (SCVZ), uma vez que existem relatos de diferentes tipos de má formações cerebrais. O vírus já foi detectado em gestantes, líquido amniótico e no cérebro de fetos abortados. Contudo, nem todas as mulheres que foram infectadas deram à luz bebês com microcefalia, sugerindo a influência de fatores ainda desconhecidos.

Pesquisas realizadas em 1952 e 1971 já haviam demonstrado a afinidade deste vírus tanto pelas células nervosas quanto pelo sistema nervoso central de camundongos. Dois estudos recentes, um deles desenvolvido no Brasil, mostraram que o Zika é capaz de destruir células progenitoras de células nervosas humanas. Portanto, o tropismo do vírus por este tipo celular é patente. Isto reforça a associação do vírus tanto com a SCVZ quanto com a síndrome de Guillain-Barré, doença autoimune que afeta os nervos. Sua evolução pode levar a perda parcial ou total dos movimentos devido a destruição da bainha de mielina, componente que agiliza a condução nervosa. Sabe-se que esta síndrome pode ser deflagrada por algumas infecções virais (HIV, citomegalovírus, Epstein Bar). Coincidência? Parece que não.

O Zika vírus também foi encontrado em mosquitos do gênero Culex, o pernilongo. Seria este mosquito um novo transmissor? Ainda não se pode afirmar. Lembrem-se, da observação geramos a hipótese, mas para termos a certeza precisamos da experimentação. Curiosamente, no que diz respeito a novos meios de transmissão, há dois casos em que o Zika foi transmitido pela via sexual. De fato, o vírus já foi encontrado em diferentes fluidos corporais, saliva, urina e sêmen. É preciso ainda determinar a persistência do vírus ativo nestes fluidos após o desaparecimento dos sintomas e as chances de transmissão.

Ainda há muito a se fazer. A tendência é que esta postagem se torne rapidamente desatualizada em decorrência dos achados que ainda estão por vir.

 

Conclusão

A possibilidade do Zika vírus causar SCVZ existe. E embora não esteja 100% comprovada, as evidências sugerem esta associação. Portanto, é importante prevenir! Se isso fosse uma aposta, apostaria na culpa do Zika. Até o momento, sabemos ao certo que a transmissão do vírus ocorre através da picada de mosquitos do gênero Aedes que estejam infectados – o mesmo que transmite a dengue, chikungunya e a febre amarela.

 

Dizem por ai…

A respeito das especulações que circularam nas redes sociais, índico a leitura de uma matéria da Folha de São Paulo. Aquelas sobre as vacinas são muito preocupantes. Através delas nossas células de defesa aprendem a combater um determinado agente infeccioso. Com isso, adquirimos uma imunidade que pode durar por muitos anos e em alguns casos para a vida toda.

Recentemente nos Estados Unidos, diferentes especulações levaram pais a recusar a aplicação de vacinas em seus filhos. Abandonar a prática de vacinação pode resultar em sérios riscos para a população, trazendo para o presente doenças que há muito tempo estão no passado. O seu uso é seguro! Falando nisso, ainda não há vacina contra o Zika, mas já está em fase de desenvolvimento.

Então, antes de compartilhar a notícia, pergunte-se: A fonte é confiável? Enquanto cidadãos, também é nossa responsabilidade buscarmos informações seguras. Onde? No site de instituições sérias, como a Fundação Oswaldo Cruz, Ministério da Saúde e até em jornais de grande circulação.

O Zika coloca o Brasil em destaque no que diz respeito a saúde pública no cenário mundial. É (deveria ser) do nosso interesse incentivar a pesquisa, e para isso precisamos de recursos. Infelizmente, na contramão do fluxo, vivemos uma grande crise na ciência brasileira.

PaulaSou carioca nascida e criada no Rio de Janeiro, mas me descobri cidadã do mundo após morar por quase um ano em Los Angeles em virtude do meu doutoramento. Bióloga com Mestrado em Biologia (UERJ) e Doutorado em Biologia Celular e Molecular (IOC-FIOCRUZ). Estudo infecções micobacterianas, susceptibilidade genética à infecção e modulação da resposta imune por RNAs não codificantes. Sou professora de Biologia no tradicional Colégio Pedro II. Amo Ciência e Biologia! A curiosidade move o mundo e também a mim. Adoro viajar e conhecer novas culturas.

 

 

Agradecimentos:

Antônio Pacheco, pela revisão do texto e comentários.

Isabelle Tancioni e Helen Miranda, pelo convite e revisão do texto.

 

Referências:

  • DICK, G.W.A. et al. Zika virus (I). Isolations and serological specificity. Transactions of The Royal Society of Tropical Medicine And Hygiene. Vol. 46. No. 5, 1952.
  • DICK, G.W.A. Zika virus (II). Pathogenicity and physical properties. Transactions of The Royal Society of Tropical Medicine And Hygiene. Vol. 46. No. 5, 1952
  • GARCEZ, P. P. et al. TITLE: Zika virus impairs growth in human neurospheres and brain organoids. PeerJ, p. 1–22, 2016.
  • LIUZZI, G. et al. Zika virus and microcephaly: is the correlation, causal or coincidental? New Microbiol, n. 1, p. 1–5, 2016.
  • TANG, H. et al. Zika Virus Infects Human Cortical Neural Progenitors and Attenuates Their Growth Brief Report Zika Virus Infects Human Cortical Neural Progenitors and Attenuates Their Growth. Stem Cell, p. 1–4, 2016.
  • Organização Mundial de Saúde: who.int
  • CDC: http://www.cdc.gov/zika/index.html

 

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Isabelle Tancioni

Sou veterinária, cientista, hipster, Tiki, nerd, geek. Gosto de comics, música, cartoons, animais, plantas.