O que a roupa da Arlequina e o cabelo da Furiosa têm a ver com a gente?

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Há algum tempo, fomos apresentados à nova Arlequina do cinema. Magra, loira e branca, não foi difícil apaixonar-se imediatamente por uma personagem encaixada tão sistemática e perfeitamente em todos os padrões sociais de beleza. Agora, some a isso um shortinho, um salto alto, uma meia arrastão e um par de marias-chiquinhas (um elemento tipicamente infantil muito problemático) e você personaliza um fetiche.

Embora tenha sido o exemplo mais recente, Arlequina está longe de ser a única mulher ‘ideal’ na indústria da cultura popular. Viúva Negra, Mística e a antiga Mulher Maravilha são alguns dos exemplos só no universo dos super-heróis. Mas podemos pensar em uma lista extensa que vai das personagens de jogos, como Lara Croft e Chun-Li (e basicamente qualquer outra lutadora) às animadas Sininho, Lola Bunny e Jessica Rabbit, com suas roupinhas recheadas com grandes seios e coxas.

Seja dentro de vestidinho colado, de um quimono superfendado ou de uma “armadura” que contorna perfeitamente o corpo escultural, essas e tantas outras personagens têm qualidades pessoais louváveis – são fortes, habilidosas, independentes e conquistadoras. Por que, então, mesmo assim, elas precisam ser heroínas em cima de um salto 15? O que todas essa roupas querem dizer e que tipo de mensagem estamos recebendo?

(Reprodução/Lucasfilm) Leia vestida de....escrava!
(Reprodução/Lucasfilm) Leia vestida de….escrava!

Eu tenho que ser assim?

À parte toda a problemática da objetificação que torna a mulher um entretenimento e um produto atrativo (e lucrativo!) para homens, essa mensagem chega também às espectadoras, leitoras e jogadoras: quer dizer que, além de dominar inúmeras habilidades físicas e intelectuais, precisamos validá-las em cima de um salto 15 centímetros?

Hum.

A fórmula se repete. Sempre. Tente listar personagens femininas que sejam produzidas sem uso de NENHUM desses elementos: batom vermelho, salto alto, meias 7/8 (aquelas que cobres parcialmente as coxas), vestido tubinho (aquele bem colado ao corpo), biquíni, peças que remetem a um uniforme escolar. Agora tente listar aquelas que não fazem trocas desses figurinos aos menos três vezes durante um filme, por exemplo.

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E aí olhamos para nós mesmas: estamos de tênis, calça jeans e (pessoalmente falando agora) mal nos lembramos da última vez que nos enfiamos dentro um vestido apertado demais. Eu não me vejo em Natasha Romanoff, em Selina Kyle com macacão de couro, em Tempestade de maiô, em Sheva e na maior parte e em boa parte das “nossa, que personagem incrível” que temos.

“Ai, mas os homens também não se veem nos músculos do Capitão América”. Não. Mas Homer Simpson, Han Solo, Don Corleone, Tony Stark, Vince Vega, Morpheus, William Wallace e uma lista infinita de personagens masculinos te dizem que tudo bem você ter uma barriguinha de chopp ou um cabelo grisalho ou ser velho ou ser socialmente desajustado ou estar coberto da cabeça aos pés com uma armadura, capa, terno MUITO incríveis (ou uma calça jeans qualquer). Todo mundo vai te amar e aceitar mesmo assim, não importa, não é isso que procuram em você. Você está lá, na tela para a qual você está olhando.

(Reprodução/Crystal Dynamics) A nova Lara Croft até ganhou um pouco mais de roupa.
(Reprodução/Crystal Dynamics) A nova Lara Croft até ganhou um pouco mais de roupa.

A outra questão é que não faz sentido. E isso é óbvio. Se Floyd precisa de uma armadura para fazer seu trabalho, como é que Harley precisa só de um shortinho e uma camiseta colada para fazer a mesmíssima coisa? Vamos arriscar que nenhuma mulher continua sexy depois de correr, pular e – quem sabe – matar algumas pessoas.

“Identidade”. É, sabemos bem que todo bom personagem carrega uma boa identidade, que dificilmente vai ser completamente desconstruída ao longo dos anos e reboots. Só que, bom… Aquela cueca apertada por cima da calça do Super-Homem evoluiu, né? 😉

E não virou uma boxer sensual.

Mas estamos caminhando, sempre tivemos boas personagens que nunca dependeram de um visual fetichizado – e não por isso menos marcante ou bem feito. E a perspectiva, apesar de lenta, é boa. Já conseguimos começar a pensar em nos ver na falta de decote da Rey, na calça jeans da Jessica Jones, na pouca maquiagem da Katniss.

E avante: com salto alto só quando quisermos, de batom só quando quisermos e com a cabeça-raspada-Furiosa quando quisermos.

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Aline Pereira

Mestre Pokémon e jornalista. Amante do cinema (e da pipoca com manteiga), compro camiseta de super-herói na seção infantil e nas horas de tédio tento mover objetos com o poder da mente // twitter @alineperr