É suficiente para uma série passar no teste Bechdel?

Na mesma noite, The Magicians, Crazy Ex-Girlfriend e Jane the Virgin citaram o teste Bechdel em seus episódios. Duas delas em sequências de sonho – mas em duas cenas com pontos de vista bastante distintos – e a outra durante uma discussão sobre escrita, com direito a listagem de todas as etapas do teste e análise se as cenas da série passavam em todas em tempo real. O que é útil para já apresentar esse conhecido teste a quem talvez não se lembre de todos os passos:

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O teste Bechdel foi criado em uma tirinha de Alison Bechdel há 30 anos e adotado por críticos e feministas para analisar a representação feminina em filmes, séries, livros ou qualquer outro tipo de narrativa. Embora muita gente o considere um requisito mínimo para uma obra ser ou não feminista, seu resultado é mais útil quando recebido como um sinal de atenção, e não como uma resposta definitiva. O que ele expõe é se as personagens femininas existem – e se existem! – na história em função a algo além dos personagens masculinos. O que exatamente significa uma série ser feminista é outra discussão, ainda mais complexa, que jamais seria respondida por algo tão simples como uma série de três perguntas.

O fato do teste Bechdel estar tão mainstream que pode ser citado como uma piada sobre a consciência de um personagem masculino durante uma sequência de sonho erótico, como aconteceu em The Magicians, talvez seja um bom sinal de que, na cultura pop, a exigência de não ter personagens mulheres apenas a margem na história é hoje reconhecida (se é respondida, é outra história. Alguém envie esse memorando para os estúdios responsáveis por filmes de super-herói, por exemplo).

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“Se você ficasse quieto por dois segundos, Quentin, seu sonho erótico passaria o teste Bechdel”

Embora tenha um protagonista homem, a série de fantasia The Magicians já passou no teste Bechdel em episódios anteriores, e tem personagens femininas capazes de avançar a trama e equilibrar conflito e profundidade. É uma série em que todos os personagens têm sua própria agenda e motivações, o que é bom. Não é difícil para séries com esse perfil, em que a história não é tão dependente da jornada do protagonista, passar no teste Bechdel. É só ter personagens mulheres, um requisito bem mínimo.

Mais interessante é analisar o que passar ou não no teste Bechdel – e ainda brincar sobre isso – significa em duas séries tão interessadas na experiência feminina que já vinham tirando notas altas nesse teste desde sempre. Crazy Ex-Girlfriend e Jane the Virgin vêm de gêneros vistos como femininos, tanto na produção quanto consumo: a comédia romântica e a telenovela. E ambas trouxeram o Bechdel a tona em duas situações bem diferentes. Em Crazy Ex-Girlfriend, tivemos o primeiro episódio da temporada dedicado exclusivamente a analisar como os problemas de relacionamento de Rebecca dependem de mais do que sua vida amorosa.

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“I’m a Dream Ghost! Giving advice you kind of already knew!”

O episódio foi uma extensão da frase “a situação tem muito mais nuance que isso”, cantada na música de abertura que explica a trama em que Rebecca se muda de cidade atrás do amor de um ex-namorado comprometido. Durante uma sequência de sonho sobre momentos definidores de Rebecca, a protagonista só consegue achar razões para seus problemas atuais nos caras que ela namorou ou deveria ter namorado. “Você sabe como é difícil passar no teste Bechdel durante sequências de sonho?”, diz a terapeuta/dream ghost que a acompanha.

A implicação é que quando mulheres heterossexuais se aprofundam em seu subconsciente para se entender melhor, elas invariavelmente refletem sobre os homens de sua vida e o quanto de sua felicidade depende da existência ou inexistência deles. A resposta que a dream ghost quer ouvir de Rebecca, e que nós ouvimos por ela durante o resto do episódio, é que essa dependência não pode ser total. Relacionamentos devem contribuir para uma pessoa, e não defini-la.

Faltava a Rebecca enxergar isso, e a única forma de fazê-lo é analisando a si mesma – na série, com a ajuda de uma outra mulher – sem levar em conta a presença dos homens da sua vida. Ou seja, essencialmente passando no teste Bechdel. No episódio seguinte, o terceiro passo do teste (“que não conversem sobre um homem”) aparece de novo como plot, ainda que não explicitamente. Após continuar se arriscando em loucuras para afastar Josh e Valencia mesmo após Rebecca lhe proibir, Paula confessa o medo de que sem a obsessão por Josh como objetivo comum sua amizade com Rebecca não teria mais razão de existir. Mas Rebecca lhe tranquiliza:  Josh não é nada mais do que um assunto que estava em voga porque ela estava obcecada por ele, um reflexo das suas vontades no momento, e não uma influência definidora. O vínculo entre as duas é muito mais profundo que isso. 

That awkward moment em que sua própria série não passa no teste
That awkward moment em que sua própria série não passa no teste

Enquanto isso, em Jane the Virgin, uma série que passa o teste Bechdel semanalmente apesar de ter inúmeras tramas baseadas em romances heterossexuais, escolheu justamente um episódio em que poucas cenas atendem aos requisitos para brincar com o assunto. Jane está escrevendo um livro de romance e sua nova orientadora na pós-graduação, que não é fã do gênero, lhe pede que sua história passe no teste Bechdel. Jane poderia estar escrevendo Crazy Ex-Girlfriend – uma história que começa com a premissa de um casal ficar ou não junto – e sua orientadora essencialmente lhe diz: sua história pode ser um romance, mas seus personagens precisam ser pessoas que existem além do relacionamento romântico.

Tanto Rebecca quanto a protagonista do livro de Jane precisam ser pessoas com mais camadas e motivações que vão além de encontrar o amor de um cara – mesmo que elas estejam presas a uma história em que o amor de um cara é a trama principal. Jane, Xiomara e Alba, as três personagens que protagonizam as cenas “testadas” em Jane the Virgin, são personagens assim, mesmo que em determinados episódios as tramas românticas se tornem mais importantes para elas. Só tem graça assistir a um romance se desenrolar quando os dois envolvidos são indivíduos antes de serem um casal, algo que Jane the Virgin sabe muito bem.  E algo que a maioria das narrativas protagonizadas por homens e que não passam no teste Bechdel geralmente são incapazes de fazer com as personagens mulheres que estão ali apenas para serem interesses amorosos.

Passar no teste Bechdel não é sinônimo de qualidade. Mas o fato de Crazy Ex-Girlfriend e Jane the Virgin terem a confiança de usar desse teste para se auto-explicar para o público é uma prova do que torna essas duas séries tão boas no que elas se propõem a fazer – e um exemplo de porque elas deveriam receber mais atenção por isso. 

As criadoras de ambas as séries, Rachel Bloom e Jennie Urman, são capazes de contar histórias com nuance e profundidade, e ainda o fazem de forma leve, divertida e, na maior parte do tempo, engraçada. Infelizmente o fato de essas serem histórias com tramas movidas pelo romance e pela comédia afasta muita gente que acha que a profundidade só existe em temas “sérios” como crime, morte, política. Muitas vezes, são essas as pessoas que consideram filmes renomados que não passam no teste Bechdel experiências universais, enquanto veem uma comédia romântica musical e uma telenovela como experiências femininas e, portanto, menos importantes.

É na TV que a representatividade feminina tem achado sua melhor casa ultimamente, então não é de surpreender que ela seja o meio a incorporar o teste Bechdel como um recurso metalinguístico de roteiro – de forma leve e divertida, mas altamente reveladora. Mais de um crítico de TV americano tuitou sobre a coincidência das três séries abordarem o Bechdel ao mesmo tempo em que jogava um shade em Vinyl, a nova série da HBO – “it’s not TV, it’s HBO” – que se disfarça de “drama de prestígio” com uma peruca chamada direção de Martin Scorcese e um bigode de US$ 100 milhões. Com uma audiência decepcionante para o investimento do canal, a série não parece interessada em passar no teste Bechdel. Mas confrontados com a escolha superficial entre o que é mais relevante para a cultura pop como um todo – uma série da HBO dirigida por um ganhador do Oscar ou uma série da CW inspirada em uma novela venezuelana – muitos escolheriam a primeira opção.

Analisar se séries como Crazy Ex-Girlfriend e Jane the Virgin passam no teste Bechdel é irrelevante, enquanto para séries como The Magicians, não é suficiente. Mais útil seria refletir sobre o que exigimos das narrativas que consumimos para considerá-las importantes. Estamos satisfeitos em ter duas personagens mulheres com nome conversando sobre algo que não é um homem, ou queremos mais do que isso, como nos aprofundar em quem são essas mulheres, o que as move, quais são seus conflitos e desafios – e, mais importante, reconhecer isso como uma experiência universal com a qual todos são capazes de se identificar?

[Crédito das imagens: Reprodução/Divulgação/CW/Syfy]


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