Rogue One ganhou seu primeiro trailer e o machismo já começou

Quinta-feira, dia 07/04, foi lançado o trailer do novo filme Star Wars: Rogue One. A história vai se passar em algum momento entre o episódio III e IV: depois da fundação do Império, um grupo rebelde terá como missão roubar os planos de construção da Estrela da Morte. O filme será lançado em dezembro de 2016.

Como sempre, as reações na Internet foram mistas. Algumas pessoas estavam muito animadas com o trailer, o que inclusive rendeu algumas teorias sobre a protagonista Jyn Erso. Ao mesmo tempo, outras pessoas estavam reclamando que a protagonista do filme era uma mulher. Pois é. Entre algumas coisas que apareceram por aí, tivemos:

“Acho que a partir de agora todo filme de Star Wars será feito para a vaidade feminina.”

“Olha só, outra Mary Sue!”

“Será que agora Star Wars só vai ter protagonista mulher?”

“Feminismo vai acabar com Star Wars/indústria do cinema.”

Star Wars está ficando descaracterizado.”

Por onde começar? O mais incrível de tudo é que eu estou cansada de ter que falar sobre o assunto, porque aparentemente qualquer filme agora que tenha uma personagem mulher de destaque rende esses tipos de comentários chorosos. Mad Max: A Estrada da Fúria, Star Wars: O Despertar da Força, As Caça-Fantasmas… Todos esses filmes tiveram a mesma repercussão: quando o trailer saía, vários homens apareciam reclamando da participação das mulheres.

É impressionante a arrogância de certos homens: “nenhum de nós viu o filme”, “talvez seja ruim”, “talvez seja bom”, “não sabemos”, o que eu sei é que é impossível avaliar a qualidade de Rogue One baseado no trailer. Não satisfeitos, eles já estão dizendo que a Jyn é Mary Sue como a Rey. Primeiro, a Rey não é Mary Sue; segundo, é impossível avaliar um personagem de um filme em um trailer de um minuto. Teve até gente comparando a fórmula da personagem de Jyn com o papel de Katniss (Jogos vorazes) e Tris (Divergente). E eu nem vou começar a dizer como Luke e Anakin (principalmente o primeiro) poderiam muito bem se encaixar na denominação Gary Stu, mas aí eles não reclamam, né?

Esse é o oitavo filme de Star Wars, o segundo que tem uma protagonista mulher, e mesmo assim eles se revoltam dizendo que “agora” todas as protagonistas serão mulheres. O mais engraçado é que, se nós reclamarmos que a maioria dos filmes de Star Wars, ou a maioria dos filmes nerds, possuem protagonistas homens, eles vão desmerecer qualquer argumento nosso, dizendo que isso é uma bobagem. E independente do choro que diz que agora todo o filme é sobre mulher, a verdade é que apenas 22% dos filmes de Hollywood possuem uma mulher como protagonista.

A coisa parece ficar ainda mais absurda quando percebemos que praticamente todos os outros personagens de Rogue One são homens. Por mais que seja legal ter uma mulher como protagonista, assim como acontece em outros filmes de Star Wars a personagem mulher está rodeada por homens. Alguns fãs reclamam que não é realista que toda a protagonista seja mulher (lembrando que, como já mencionei, só dois de oito filmes da saga que têm mulher protagonista), mas essa única mulher estar cercada de homens é normal? Está esquisita essa lógica.

Muitos fãs de Star Wars ainda enxergam a franquia como um grande clube do Bolinha, e ficam revoltadíssimos quando alguma coisa não gira em volta do homem cis branco e hétero. Ainda lembramos as pessoas achando um absurdo que os dois personagens principais do episódio VII fossem uma mulher e um homem negro. Esses fãs vão ter que se acostumar com a ideia de que Star Wars não é algo exclusivo deles.

Pode ser que também usem o argumento de que o público nerd não quer ver filmes com mulheres como protagonistas ou em papéis de destaque, mas não vamos esquecer que tanto Mad Max: A Estrada da Fúria e Star Wars: O Despertar da Força foram sucessos de bilheteria. Até onde eu saiba, fazer sucesso, não só com a crítica, mas também com o público, está longe de estar “destruindo a indústria do cinema”. A verdade é que, mesmo que ainda falte muito para as mulheres terem tanto espaço quanto os homens, há pessoas na indústria do cinema que estão olhando para as mulheres e, ao que tudo indica, ouvir as mulheres nerds tem sido bem positivo para as produtoras.

Por mais que estejamos fazendo avanços ultimamente, a verdade é que o mundo nerd ainda possui muito preconceito e fãs intolerantes com qualquer coisa que não seja padrão. Por menor que seja a participação de minorias em filmes como Star Wars, no momento em que personagens fora do padrão entram em destaque o fã preconceituoso vai reclamar. Eu não sei se Rogue One vai ser bom, não tem como ninguém saber, o que eu sei é que fico feliz de ver cada vez mais filmes desse gênero dando atenção para as mulheres. Não é perfeito e ainda temos muito pra melhorar. Por mais que Rey seja maravilhosa e que Jyn seja a protagonista, Star Wars ainda não deu espaço, por exemplo, para uma mulher negra ou algum personagem LGBT+.

E para o cara nerd que ainda está revoltado que “roubaram seu brinquedo”: chora mais.


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Clarice França

Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Classe: Radialista, escritora e amante de histórias. Reputação: Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.