Traumas e exploração no trabalho de Luiza Prado

Luiza Prado nasceu em 1988, em Guarantinguetá, interior de São Paulo. Atualmente, reside em Berlim, onde aprofunda seus estudos artísticos. Luiza é descendente de indígenas pelo lado materno e de portugueses, pelo lado do pai. A colonização, vivenciado no histórico familiar, abre brechas para grande parte de sua pesquisa artística. Seu trabalho também aborda temáticas como marginalidade, exploração sexual, imigração europeia e outros traumas principalmente femininos através de fotografias, performances e instalações.

Conversamos um pouco com Luiza sobre sua carreira e sua relação com a arte.

Luiza Prado

 

Quando você descobriu que era artista? Tinha apoio dos seus pais?

Luiza Prado: Me “descobri” artista bem tardio e por necessidade psicológica, eu precisava catalisar certas questões e a vida me levou até a fotografia inicialmente, já não morava com meus pais, apesar de sempre desenhar e de ter trabalhado com ilustração desde os 14 anos mais ou menos (que depois me levou pra games e publicidade). Arte eu descobri no final de 2010, quando comecei a fotografar auto-retratos, mas só descobri o que estava fazendo uns dois anos depois. Em tese, eu trabalho de fato com arte em um período de aproximadamente 3 anos. De modo geral, a arte surgiu em minha vida, eu nunca quis ser artista, eu queria ser cientista, criar algo que ajudasse a humanidade, mas devido a uma série de traumas, infelizmente o lado lógico do meu cérebro é um pouco descompensado, me resta agora tentar ser útil por esse meio que me foi imposto.

Você comentou que trabalha com fotografia, performance e instalação. Tem algum motivo especial para ter escolhido essas formas de expressão e não outras? Acha que elas têm relação?

LP: Sim, eu utilizo bastante a performance, fotografia e instalação, porém, qual ferramenta me for proposta eu tento aprender, sou curiosa, então se alguém chegar com uma pedra e pedir uma escultura, eu vou ao menos tentar. Eu realmente sou feliz no momento de criação, mas tecnicamente, principalmente tratando-se de auto-retratos, que é o meu caso, vejo uma relação direta com a performance, sendo a fotografia o documento primário, são entrecruzamentos, tal qual a função da instalação, que permite muitas vezes ligações entre obras, entre público e obra, entre o que permeia em uma obra apenas. Já do meu ponto de vista lúdico, a performance pra mim é um ritual, ela me leva ao transe. A fotografia, eu a vejo como uma evocação, um reprocessamento e um resgate de memórias. Através disso, a minha pesquisa se move para os campos cognitivos e neural, assim deixando a Luiza cientista um pouco menos frustrada.

Vejo que sua arte tem um viés bastante político, principalmente referente aos índios da América Latina. Qual você acha que é o papel da arte em lutas políticas?

LP:  Nós devemos muito aos povos originários do Brasil, além de uma preservação cultural, mas preservação à vida deles, ainda mais numa situação política onde o genocídio continua. E, na minha opinião, vendo do ponto de vista cultural, um país que desconhece sua cultura também desconhece seu futuro. Meu interesse por esse assunto vem da minha história, o meu sangue é indígena, tenho origem Puri por parte materna e minha cor vem do meu lado paternal, de portugueses colonizadores, eu sinto ter uma espécie de obrigação, principalmente ao que diz respeito ao meu privilégio como uma branca, mesmo possuindo dezenas de características e sangue indígena. Eu pretendo, no meu trabalho, falar das consequências colonizatórias principalmente ligadas à sexualidade feminina, mas também quero ajudar e dar espaço para meus parentes. No Brasil, infelizmente ainda se explora visualmente muito a questão da marginalização quando não se é marginalizado, de contraponto não dão espaço pro real protagonista dessas histórias. Eu acredito em uma arte engajada e responsável, como um campo extremamente variável em dissertações nesse meio político e social, seja na arte propriamente dita, seja na arte-ciência, seja no artesanato.

Você acredita que suas experiências como mulher miscigenada influenciam sua forma de expressão?

LP: Eu acho que sim, porém gera uma certa confusão, essa é uma relação que para mim ainda está em fase de amadurecimento, principalmente pela minha cor. Eu me policio, principalmente quando utilizo do sarcasmo, em tomar cuidado para meu lado privilegiado não oprimir o meu lado oprimido. Isso reflete naturalmente para o trabalho. Por mais que um trabalho seja auto-biográfico, eu acredito nele como um espelho que reflete outras histórias. Eu acho que a responsabilidade necessita estar acima do ego, acho que isso me amadurece para lidar com a censura e auto-censura e estar aberta para o confronto que determinados assuntos geram. Eu acho primordial conhecer a fundo a matéria que se está lidando, sabendo que, de fato, nunca chegará às vias de fato, ou seja, humildade para reconhecer que não somos especiais e, quando solicitado, mesmo que por você próprio, um trabalho necessita ser bem realizado, não somente dotado de verticalidade, mas também de horizontalidade para equilibrar o que quer ser dito. Arte é diálogo e quero que ele somente grite com quem tentou me calar a vida toda.

Você mora em Berlim hoje. Por que decidiu ir para a Europa? É mais fácil ser artista lá?

LP: Me mudei para Berlim porque estava em busca de possibilidades de desenvolver meu trabalho de uma maneira mais humana. Escolhi Berlim por ser menos “gourmetizado” e a arte ser um trabalho como qualquer outro, pelos incentivos e oportunidades e liberdade maior em se trabalhar alguns temas.

Finalmente, o que sabe hoje que gostaria que soubesse quando estava começando sua carreira?

LP: Paciência, comunicação e planejamento. Muita paixão no início de um projeto pode atrapalhar e eu realmente me apaixonei (e odiei ao mesmo tempo) pela arte, foi um início de relacionamento conturbado. Quando comecei com arte larguei uma carreira de 5 anos em publicidade com prêmios, saindo de uma das maiores agências do país com um bom salário, fui ser artista e correr atrás de um sonho, sem me planejar o suficiente, sem conhecer pessoas, num mercado ainda difícil para a mulher. Eu acho que o mais coerente teria sido permanecer no antigo emprego e só tê-lo abandonado quando a outra carreira começasse a ser rentável. Essa paixão me deu muito trabalho.

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Para ver mais trabalhos de Luiza, veja seu portfólio e fanpage.


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Deborah Happ

Formada em Midialogia, pela Unicamp, com mestrado em Estética e História da Arte, pela USP. Faz umas artes quando dá, escreve por necessidade.