Como anda sua relação com a arte?

Quando criança eu assisti a um longa de animação chamado O último unicórnio (1982). Nunca o esqueci. A trama, eu, tão nova, não entendi, mas a experiência gravou-se na minha memória na forma de imagens difusas, o unicórnio que virava moça, as criaturas de pesadelo, o rei amargo, o fim da magia.
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Capa de "The Last Unicorn", livro de Peter S. Beagle. Retrata a silhueta de um unicórnio em traços escuros sobre fundo amarelo.
Capa de The Last Unicorn.
Adulta, garimpei o filme, curiosa para refazer minhas impressões. Descobri três coisas. A primeira, o título que eu achava que quase ninguém conhecia é cultuado por fãs e exibido em salas de cinema até hoje. A segunda, a trilha sonora original é muito boa. A terceira, certas coisas deveriam ficar intocadas na infância. Deparei com um roteiro trôpego, uma história subaproveitada, uma obra que, apesar das vozes de Mia Farrow, Christopher Lee e Jeff Bridges, não fazia justiça ao livro homônimo de Peter S. Beagle, que li pouco depois.
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O livro, sim, era a história que eu queria. Sombria, irônica, delicada e, finalmente, entendida. Tenho um original em inglês e uma edição em português luso, o que é uma grande coisa considerando que não coleciono livros. (Ele nunca foi lançado no Brasil, e ainda não larguei o sonho de ser sua primeira tradutora brasileira. Vai que…). Virou um dos livros da minha vida.
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Enfim: vi o desenho pela primeira vez na época certa e li o livro quando estava pronta para ele.
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Voltando um pouco no tempo, quando tinha uns 13, 14 anos, li O Morro dos Ventos Uivantes (1847) pela primeira vez. Essa obra, que ainda há quem classifique de maneira rasa como “livro de mulherzinha”, foi um despertar. Com seus amores amaldiçoados, ódios implacáveis e personagens dúbios, nada heroicos e demasiadamente humanos, ele me arrancou da infância e me jogou no mundo sombrio dos sentimentos adultos. Mudou meu vocabulário, alterou irremediavelmente o que eu queria para minha escrita.
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Do Morro, fui direto para O Retrato de Dorian Gray (1890), em que a humanidade era ainda mais mesquinha, suja e refinada, e o léxico, mais complicado. Lia com um dicionário e um caderno ao lado, fazendo anotações. Bons tempos em que eu podia passar tardes inteiras fazendo isso.
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Anos depois, voltei a ler os dois. Continuei gostando, e muito.
Mas já não tinha o mesmo efeito.
O grande barato havia passado.
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Outro dia mesmo, escrevi no meu blog que não é só a história dentro de um livro que importa; é a história que você tem com ele (e fiquei devaneando sobre como teria sido ler Harry Potter na infância, pois já era adulta quando o primeiro livro foi lançado). Percebi mais algumas coisinhas: vi o desenho do Unicórnio pela primeira vez na época certa. Li o livro quando estava pronta para ele. O mesmo com o Morro e o Retrato. Estes sempre serão grandes clássicos, mas não sou mais a adolescente que se deslumbrou com eles pela primeira vez. Posso perseguir essa experiência e reler os livros quantas vezes queira, mas ela não se repetirá, pois meus olhos mudaram. Assim como minha relação com a vida, e, portanto, com a arte.
Uma pilha de livros na qual os dois do alto estão abertos.
Livros, livros e mais livros. 
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Entendendo a arte aqui num sentido bem amplo, ou seja, chamando “arte” a tudo o que se produz e consome em matéria de literatura, cinema, música, teatro, TV, HQ, videogame, etc., podemos dizer: às vezes, nossa relação com a arte é mais importante que a obra em si. Indo mais longe: sempre. Nossa relação com a arte é sempre mais importante que a obra em si.
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Essa relação é definida pelo momento da vida em que você leu aquela revista em quadrinhos, assistiu àquele filme ou ouviu aquela música pela primeira vez. Um livro recheado de obviedades pode marcar a memória para sempre porque foi lido naquele momento em que, para o olhar jovem e inexperiente, até o óbvio era assombroso. Um filme mediano pode ser cultuado pelo adulto porque foi visto, pela primeira vez, com os olhos da criança. E aquela banda de rock que hoje você considera tecnicamente ruim embalou com perfeição seus sonhos de adolescente. É uma questão de timing.
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Com algumas obras, o tempo se encarrega de diluir a afinidade, deixando ileso só o carinho do primeiro contato. Com outras, o efeito é mais duradouro. Tem a ver com a maneira como o diálogo daquela peça de teatro parecia falar da sua vida. O jeito como a protagonista daquele seriado pintou dores que você já conhecia, e lidou com elas como você gostaria de ter lidado. A forma como os versos daquele poema abriram caminho em você, como se conhecessem desde sempre a trilha da alma. O modo como uma melodia dança no corpo, pulsando nas veias, tomando o controle dos pés e fazendo de bumbo o coração.
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Essa experiência é pessoal e intransferível. Feliz ou infelizmente.
A foto mostra o rosto de uma garota enquanto lê um livro.
Tá bom, vamos ver se este livro é tão bom quanto você diz…

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Você pode emprestar o livro de cabeceira à sua melhor amiga, gravar as músicas da cantora obscura para toda a turma, arrastar os amigos em peso para uma sessão daquele filme esquisito que só você conhece; transbordar, enfim, buscando inundar a todos, e torcer para que gostem de nadar.

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Mas não pode enviar sua experiência a outra pessoa. Nem mesmo a uma outra versão de você, na época errada da vida, cedo ou tarde demais para captar a mensagem que jazia ali, à sua espera, e teve a felicidade de encontrar você no momento em que precisava recebê-la.

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É o privilégio de ser, para a mensagem, o receptor certo. A pessoa para a qual aquela obra parece ter sido feita. Como se o autor pegasse sua mão e dissesse: “Eu sei, eu sei. Não precisa explicar. Eu entendo. Entendo você”.
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Dizem por aí que a arte imita a vida. Pessoalmente, acredito que a arte explica e molda a vida. Explora e expande nossa forma de enxergá-la, incluindo aí as ideias que escolhemos como verdade, os conceitos que orientam nossas decisões. As histórias são contadas por gente como a gente, ansiosa pelo contato, pela transmissão da mensagem, pela rica conexão com o receptor. Criam-se ficções e fantasias para falar da realidade. E Ficção é Verdade com V maiúsculo.
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Ou, para fazer justiça à frase completa, que é de Wilde, “a vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”.

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Por isso, digo mais: a arte salva a vida. Sem ela, não há mais que sobrevida.

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E aí… como anda sua relação com a vida? Quero dizer: com a arte!

Todas as imagens, com exceção da capa do livro The Last Unicorn, via visualhunt.com.
The Last Unicorn via http://universitybookstore.tumblr.com.

Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Camila Fernandes

Escritora, tradutora, preparadora e revisora de textos. Feminista, vegetariana, ateia. Autora do livro "Reino das Névoas, contos de fadas para adultos". Tentando escrever dois romances. Quando há tempo, desenho. Quando há dinheiro, viajo.