Vida Sintética

Uma das grandes questões da humanidade é: o que é vida? Se considerarmos que vida é o que nos diferencia da matéria inorgânica, temos que “vivo” é o que nasce, cresce, possui capacidade reprodutiva e morre. Na biologia, a menor unidade viva é uma célula.

 

E seria possível criar vida em laboratório? Já sabemos que a partir de fertilização in vitro é possível criarmos embriões que ao serem implantados podem dar origem a bebês humanos. Mas e se formos além, se conseguirmos sintetizar material genético suficiente, seria possível criar uma célula viva? Do zero? A resposta é sim.

 

Criar uma célula em laboratório é possível desde de 2010. A grande novidade nessa área, publicada no dia 25 de Março deste ano, é que um grupo de cientistas conseguiu reduzir esta célula sintética à um numero mínimo de genes capazes de manter uma célula viva. Mas é impossível desvincular a história pela busca da vida sintética da história do geneticista e empresário responsável por esse trabalho, Craig Venter.

 

Um pioneiro do sequenciamento genético

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J. Craig Venter

Em 1990, o governo americano anunciou o lançamento de um dos projetos mais ambiciosos do século, o Projeto Genoma Humano. Com o objetivo de determinar a sequencia completa do DNA humano, o projeto foi desenvolvido em uma colaboração envolvendo vinte universidades e centros de pesquisa dos Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Franca, Alemanha e China.

 

Frustrado com a demora do Projeto Genoma Humano, o biólogo Craig Venter decidiu arrecadar fundos da iniciativa privada e fundou a empresa Celera. Assim, ele oficialmente entrou na corrida para finalizar o sequenciamento do DNA humano. Em 2000, Craig Venter e Francis Collins, do National Institutes of Health (NIH), fizerem juntos o anúncio do mapeamento do genoma humano, três anos antes do prometido.

 

Desde então, Craig Venter continua buscando novos desafios e nos últimos anos vem se dedicando ao desenvolvimento de vida sintética. A última empresa fundada por ele, J. Craig Venter Institute (JCVI), por acaso fica localizada aqui em La Jolla, California.

 

A Célula Mínima

 

Em artigo publicado na revista Science, no último dia 25 de Março, Venter e seu time descreveram uma célula sintetizada em laboratório com o menor número de genes necessários para sua sobrevivência.

 

O estudo utilizou como base a primeira célula com genoma completamente sintético publicado em 2010. Esta célula continha um total de 1079 pares de kilobases de material genético sintetizado. Após três ciclos de design, sínteses e testes a célula batizada de JCVI-syn3.0 foi a vencedora por possuir um genoma muito menor que a original (531 pares de kilobases) que manteve as características replicativas de uma célula normal.

 

Interessantemente, dos 531 pares de kilobases apenas 473 eram genes, ou seja possuem uma sequencia genética com função definida. Esse genes codificam proteínas envolvidas em processos chaves como os de transcrição (transformação de DNA em RNA) e tradução (conversão de RNA em proteínas). Portanto, ainda “sobram” 149 genes com funções completamente desconhecidas, porém essenciais para a manutenção da JCVI-syn3.0.

 

Torna-se óbvio que o desenvolvimento desta célula sintética com genoma mínimo representa um enorme avanço para a biologia sintética. A JCVI-syn3.0 agora servirá de plataforma de investigações de funções celulares fundamentais para a vida e exploração de design de material genético.

 

 

Revisão: Isabelle Tancioni

 

Referências:

http://www.nature.com/nature/journal/v464/n7289/full/464676a.html

http://www.nature.com/news/2010/100526/full/465406a.html

http://science.sciencemag.org/content/351/6280/aad6253

 

 

 


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Helen Cristina Miranda

curiosa de nascença/ cientista de profissão