Já Sinto Saudades e os abusos na amizade

Levo amizade mais a sério do que o amor. Se me pedissem para pesar os dois sentimentos, diria que amizade vale bem mais porque os amores vem e vão, mas os amigos, os sinceros e verdadeiros, estão sempre ali.

Entretanto, há uma linha tênue entre ser amigo de alguém e usar da companhia daquela pessoa para proveito próprio e isso fica bem claro no filme Já Sinto Saudades ou no original Miss You Already.

Toni Collette e Drew Barrymore vivem as amigas Milly e Jess, respectivamente, que se conhecem na escola quando a família de Jess decide se mudar para a Inglaterra. Milly sempre foi uma criança solitária e precoce, pois sua mãe vivia de pular de um trabalho de atriz para o outro e ela vê em Jess a chance de finalmente conseguir a atenção que precisa. Já Jess vê a amiga como a oportunidade de não ser uma criança solitária num país estrangeiro. Porém, o que uma deseja da outra, são coisas completamente diferentes.

Conforme os anos passam, Milly cai de cabeça na vida agitada que sempre gostou de levar e se torna uma RP de sucesso, casando com o primeiro namorado e tendo filhos logo. Como Jess narra no longa “ela sempre gostou de ser a primeira em tudo”. Já Jess é o oposto e demora para encontrar alguém, como também leva uma vida mais tranquila e com objetivos diferentes, o que sempre que possível é ressaltado por Milly de forma degradante, quase que diminuindo o trabalho e sonhos de Jess. A relação das duas acaba piorando quando Milly descobre ter câncer e se antes ela já era autoritária e dona da verdade, com a descoberta da doença, se torna uma pessoa insuportável. O que prejudica não apenas a relação de amizade com Jess, como também seu casamento e a convivência com os filhos.

mizzyou

Antes de tudo é bom deixar claro que o câncer não é e nem será apresentado como motivo para a mudança no comportamento da personagem. Fica claro no longa que ela já era o que era mesmo sem estar doente, apenas não ultrapassava tantos limites. E vamos combinar que tem muita gente que é assim na vida real e nem precisam estar doentes para ter tal comportamento.

O que acontece é que assim como o amor que sofre com a má interpretação, a amizade também. O fato de alguém lhe dar atenção quando convém, só procurar quando precisa e ignorar quem você é em benefício próprio está muito errado. Isso não é amizade. É quase um contrato de negócios. “Serei sua amiga, faço com que você fique popular e seja convidada para festas e em troca você fará tudo o que eu quiser. Combinado?” Parece até roteiro clichê de comédia teen americana, com adolescentes de plástico disputando a mesa na hora do intervalo. Gente. Não. Onde fica o sentimento nisso tudo?

Amizade é algo recíproco. Precisa partir de ambas as partes e de maneira igual. Existir um consenso de que se eu sou rockeira e você curte forró, mas intelectualmente somos similares, não vou encher seu saco por querer ir no ‘arrasta pé’ todo final de semana, enquanto vou ‘bater cabeça’, porque no final continuaremos amigas. São as diferenças que nos une e não o contrário. É o que aquela pessoa agrega de bom na sua vida que faz todo o sentido e não importa se você ama churrasco e ela é vegetariana. Infelizmente, não é o que tenho visto por aí e isso acaba sendo romantizado nesse filme da pior forma possível.

Jess se anula para dedicar o máximo de tempo a amiga doente que não enxerga a devoção. No máximo vê e/ou sente como sendo obrigação pela amizade e não que a amiga faz por vontade própria. Em nenhum momento ela pergunta como está a vida de Jess, seu casamento, seu trabalho e se ela finalmente conseguiu engravidar. Aliás, ela nem repara quando a amiga está grávida de bons 6 ou 7 meses! Não. Milly apenas despeja mais dos seus problemas em cima da amiga que aceita tudo por achar que deve. Um sentimento estranho de obrigação que carrega desde lá atrás e que é deturpado ao extremo.

De novo, amizade não é algo contratual. E olha que o filme é dirigido e tem roteiro assinado por duas mulheres, mas o desserviço apresentado pela obra é enorme. Não consegui me comover com a situação da personagem, fiquei na verdade bastante incomodada com o retratar de situações reais, as quais vivi e vejo até hoje outras pessoas passando por elas e achando que estão numa relação de “amizade” quando por fim, assinaram contratos de negócio e não se deram conta.


Os artigos aqui publicados são de total responsabilidade de suas autoras e editoras.

Melissa Andrade

Uma pessoa curiosa que possui incontáveis pequenos conhecimentos desde literatura a filmes a reality shows a futebol alemão. E sempre disposta a aprender muito mais. Por isso é Jornalista por experiência e vocação. Fotógrafa Profissional com muita paixão e um olhar apurado. Roteirista frustrada e uma Crítica de Cinema em ascensão.