iZombie: não somos zumbis, mas todos comemos cérebros

ATENÇÃO: O texto abaixo contém spoilers pontuais sobre as duas temporadas de iZombie.

Autor: Rafa Bauer – Originalmente publicado em Spoilers.tv.br

Há algum tempo, comprei um smartphone desses que usam impressão digital para desbloquear a tela. “Quando você estiver dormindo, vou usar seu dedo pra desbloquear!”, disse meu namorado, brincando (ou não). Um ano depois, vejo a protagonista de iZombie fazer exatamente isso.

Acontece que essa protagonista é uma zumbi. Olivia “Liv” Moore foi infectada através de um arranhão e, desde então, precisa comer cérebros para se manter viva. E mais: ela assume aspectos da personalidade que o dono do cérebro tinha enquanto vivo e tem flashes de experiências passadas dele. Aqui no Spoilers, já conversamos sobre a excelente primeira temporada de iZombie.

Apesar de não sermos mortos-vivos, é possível se identificar bastante com as situações da série. A ficção fantástica é recheada de exemplos em que o sobrenatural é usado para analisar aspectos bem reais da nossa sociedade. Já falei um pouco desse assunto quando escrevi sobre In the flesh, outra série de zumbi. Vale a pena mencionar também Além da Imaginação, a série clássica. Quase todos os episódios traziam algum tema social, algum dilema ético, travestido de ficção científica. Muitos desenvolviam lições de moral e todos terminavam com algum ensinamento bem fincado na realidade dos espectadores. Um dos melhores exemplos é “The monsters are due on Maple Street”, que tinha como subtexto a histeria anticomunista durante a Guerra Fria.

E iZombie faz isso muito bem. Utilizando-se do sobrenatural, a série consegue criar uma trama que mescla plots policiais (tráfico de drogas, homicídios, etc), sócio-econômicos (o capitalismo desenfreado, representado por uma companhia que desenvolve um energético a custo de muitas vidas humanas) e, principalmente, discute nosso comportamento diante da sociedade atual, que nos insere em diversos tipos relacionamentos.

Antes de ser zumbi, Liv tinha uma vida bem comum: fazia residência em cardiologia, tinha um noivo, Major Lillywhite (Robert Buckley), e uma rotina corriqueira de classe média, dividindo apartamento com sua melhor amiga, Peyton Charles (Aly Michalka). Depois que foi infectada numa festa, ela assumiu um aspecto cadavérico e sua nova condição a forçou a se afastar de todos, levando uma vida muito isolada como assistente de legista. No ponto em que a série começa, Liv é uma morta-viva não só fisicamente, como também socialmente.

Trabalhando em um subemprego com acesso fácil aos cérebros fresquinhos do qual precisa para se alimentar, Liv é levada a investigar os crimes por trás dos corpos que abastecem seu necrotério. É a partir da mecânica dessa investigação semanal que os cérebros devorados passam a influenciar sua personalidade drasticamente.

Quem nunca?

Quem nunca teve a curiosidade de ter acesso ao celular e às mensagens pessoais da cara metade? Quem nunca perdeu a cabeça com investidas alheias? No episódio do smartphone, Liv tinha comido o cérebro de uma stalker, que perseguia homens com quem tinha mantido encontros, mesmo que breves. Em sua vida pessoal, ela tinha recentemente reatado com seu ex-noivo, Major, mas essa nova característica trazida pelo cérebro digerido a levou a xeretar o celular do namorado, invadindo sua privacidade. Apesar de não podermos usar cérebros devorados como desculpa para nossas atitudes questionáveis, muitas vezes a influência de amigos e conhecidos também nos faria desconfiar e invadir a privacidade de nossos pares. Ou não? 

Muitas vezes, as personalidades que Liv assume recaem sobre algumas características comuns. O aspecto sexual, por exemplo, é talvez o mais recorrente. Ela já comeu o cérebro de uma stripper, de uma escritora de livro erótico, de um pintor sedutor… A recorrência do tema não se deve somente ao apelo junto ao público, mas é bem calcada na história: Liv se abstém de sexo porque teme contaminar os potenciais parceiros com o vírus zumbi. Foi esse um dos motivos de ter se separado do noivo, lá no começo da série. Essa sexualidade reprimida acaba explodindo em comportamentos lascivos direcionados a todos ao seu redor.

Nem a melhor amiga escapa.
Nem a melhor amiga escapa.

Quando Liv enxerga o sexo através do olhar de outros, homens e mulheres, nós também estamos representados na tela. Nossa visão de sexo é altamente influenciada pela ficção, pornografia, conversas com amigos… Nunca são somente “dois na cama” (mesmo que não seja um ménage ou uma orgia), já que nossa cabeça, naquele momento, está sempre repleta de ideias que nasceram no cérebro de outras pessoas.

É sempre divertido acompanhar essas mudanças de personalidade, mas quando elas atingem extremos fica melhor ainda. Liv já assumiu personalidade materna (de uma mulher que morreu perto do momento do parto), otimista (da dona de uma cafeteria), curiosa (de um entrevistador), fútil (de uma socialite), “artística” (de uma cantora de country), mentirosa (de um mentiroso contumaz). Foi ilusionista, cientista, atriz, treinadora de basquete, atiradora de elite, super-heroína e por aí vai. Ironicamente, até comeu um cérebro que a deixou com a personalidade “certinha” que ela mesma tinha antes de ser zumbi.

Não por acaso, uma situação interessante aconteceu quando ela assumiu os traços de um babaca membro de uma fraternidade. A imaturidade é um comportamento ausente na Liv pré-zumbi. Foi a partir dessa interação que ela se permitiu ser tão imatura como qualquer um de nós quando, depois de uma semana especialmente exaustiva, dizemos: “Hoje eu quero beber até cair.”


O poder da Liv se assemelha ao do Frank Black, de Millennium e do Will Graham, de Hannibal: enxergar pelo olhar do outro, colocar-se em seu lugar, uma empatia extrema. A diferença é que, nos dois primeiros, os personagens enxergam pelos olhos dos assassinos, enquanto Liv vivencia o lado da vítima. Interessante notar como, em séries com personagens com habilidades semelhantes, o homem tem empatia com o assassino e a mulher com a vítima.  

Quem somos nós?

Indo um pouco além: será que essas características que Liv temporariamente assume não são apenas partes suas que estavam adormecidas? Será que Liv não invadiria o celular de Major se fosse levada somente por uma forte desconfiança, mesmo sem ter ingerido o “cérebro stalker”? O motivo de nos divertirmos ao ver essas cenas é que todos possuímos esses aspectos de personalidade, ainda que em potencial. Essas faces da Liv representam nossos desejos, ambições e vontades.

No contato cotidiano, nós também assimilamos aspectos das personalidades das pessoas ao nosso redor, desde a infância. Nosso jeito de falar, usar gírias, dar risada são alguns dos elementos que constroem nossa individualidade e nascem por meio de diversas interações. Nós devoramos cérebros todos os dias.

Mesmo em iZombie não é preciso ter o poder de absorção de personalidade para cometer atos que normalmente você não cometeria. Num dos plots recentes, Ravi, que mora com Major, passa a desconfiar dele por seu comportamento suspeito ao descobrir que ele tem um cofre. O que ele faz? Invade o cofre. Ravi que é 100% humano não-stalker e sem influência de qualquer cérebro ou substância. Basta ser humano para ser levado a fazer coisas que não combinam com seu próprio caráter, dependendo da situação.

Quando ainda era humana, Liv era obcecada por controle e tinha toda sua vida planejada: terminar sua residência, casar-se com Major e sempre buscar mais e mais conquistas e sucessos. Quando ela é infectada, perde o controle sobre tudo e tem que recomeçar do zero, sem rumo. Ironicamente, é quando Liv se transforma em zumbi que acaba ficando mais humana. Seu nome indica um lema que ela deve seguir a partir do momento em que se tornou morta-viva: Liv Moore, “live more”, “viva mais”  A mensagem aqui é: não se prenda em si mesmo, permita-se ser influenciado pelos outros, aprenda com quem é diferente para, assim, sair da sua zona de conforto e viver outros aspectos da sua própria personalidade, que está continuamente em construção.

[Crédito das imagens: Divulgação/Reprodução/CW]


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